etnográfica que realizamos em 2011 pela Faculdade de Saúde Pública citada anteriormente. Heidi trabalha na Pastoral Carcerária e é antiga conhecida de Selma.
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O estigma sempre foi um elemento presente, durante a operação ‘Sufoco’ não foi diferente. Um dos motivos divulgados que justificaram a ‘Operação Sufoco’ foi que a rua Helvetia estava totalmente tomada pelas pessoas, inacessível. A ação se justificava para resgatar a acessibilidade à rua. No dia 15 de fevereiro, segue relato de diário de campo:
A Helvetia ainda está interditada entre a Cleveland e Dino Bueno. Uma base móvel da polícia militar está montada no meio da quadra. Me aproximo e pergunto porque a rua está interditada. Ele diz que é porque a noite e fim da tarde começam a chegar os caminhões máquinas para a obra. Comento com o policial que um dos motivos divulgados na mídia para tirar as pessoas dali era que a situação estava tão crítica que os carros não passavam mais na rua. E mesmo agora a passagem ainda é inviável. O policial diz “pessoas não, eram os nóias! Agora não tem mais nóia aqui”. Digo que são pessoas como nós, como eu e como ele, e ele logo pede para eu me identificar: “de onde você trabalha mesmo?” Entrego o folder do É de lei e digo que trabalhamos ali há muitos anos oferecendo cuidado e atenção à estas pessoas, e que agora o nosso trabalho está bastante dificultado. Não houve diálogo, toda vez que eu dizia “pessoas” ele logo dizia em seguida “nóia você quer dizer”. Sarcástico, ele carimbava o estigma de ‘nóia’ a todo momento. (15/02/2012).
O espaço do FIDDH foi fundamental para uma melhor compreensão do que estava acontecendo. Além de nós conhecermos as pessoas na rua, o fórum colocava em contato muitos outros trabalhadores de outros serviços que também atuavam por ali. Não participei ativamente das reuniões do FIDDH, mas recebi informações constantes pelo Bruno Ramos Gomes que representava o É de Lei no Fórum e divide o andar das discussões em nossas reuniões de equipe. Além do óbvio distanciamento de vínculos das equipes de saúde que atuavam no território, outros dados importantes apareceram e davam corpo à superficialidade dos dados divulgados pela mídia e pela polícia militar: as ruas vazias e o alto número de encaminhamentos e internações. Sim, as pessoas estavam procurando os serviços, mas o caráter imediatista da ação evidenciou dois lados da moeda. Por um lado, as pessoas relatavam buscar serviços e aceitar a internação como uma estratégia de fuga da repressão policial. Por outro, os profissionais dos serviços relataram que a rede de atenção não estava preparada para este repentino aumento nas demandas por atendimento. Este fluxo descompassado e inconsequente gerou muito estresse e profissionais tiveram que ser afastados por motivos de saúde. Segundo a antropóloga
Deborah Fromm44, o número de internações realmente aumentou bastante em 2012,
porém, podemos considerar esse um parâmetro de sucesso da intervenção?
O espaço do FIDDH proporcionou reflexões importantes para repensarmos possíveis indicadores e parâmetros de sucesso das propostas de cuidado levando em consideração a experiência de quem nos aproximamos. Felizmente estas informações
44Em palestra ‘Inquietudes Urbanas’, realizada no Museu Maria Antonia (USP) em 13 de
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produzidas pelo FIDDH foram divulgadas, porém houve a necessidade uma assinatura coletiva, com o objetivo de proteger profissionais que tinham receios de demissões políticas.
No objetivo de expulsar as pessoas do território a ‘Operação Sufoco’ foi um fracasso. Em pouco tempo o uso e comércio de crack retornou para as imediações das Ruas Helvetia e Dino Bueno. A ação Pública movida pelo MP argumenta como uma ação “totalmente ineficiente” (p. 97). O argumento de que era uma investida policial no combate ao tráfico também apresentava resultados pífios. Dados apresentados pelo
DENARC45 na Ação Civil Pública apresentam apreensões de “crack + cocaína, tem-se:
23.033,27 g (em 2011) x 19.284,6 g (em 2012), isto é, uma apreensão 16,27% menor em 2012, quando houve a operação policial, que em 2011, sem operação policial” (p. 55), ou seja, “o Governo Estadual desfechou a operação destinada a quebrar a logística do tráfico sem saber quem eram e onde estavam os traficantes” (ibidem pp. 57).
Em 2012 inaugura-se o Complexo Prates, um serviço sócio assistencial 24 horas com capacidade de 1.200 atendimentos por dia. A visibilidade nacional certamente aumentou o debate sobre o crack e sobre as drogas, porém este debate se restringiu até então ao âmbito político e não apresentava alternativas inovadoras e consistentes que de fato produzissem mudanças.
O jogo
Em janeiro de 2013, Fernando Haddad assume a prefeitura de São Paulo. Logo no início de seu mandato o prefeito cria o grupo GEM (Grupo Executivo Municipal) para trocar experiências e propor um Plano Municipal para a questão do crack. O grupo foi formado por 13 secretarias municipais, representantes da sociedade civil e centros de estudo e pesquisas (Comis, 2015). Bruno Ramos Gomes, integrante da equipe do É de Lei, passou a frequentar as reuniões do GEM através de vaga cedida ao FIDDH como representante da sociedade civil. Com o caminhar dos encontros periódicos do GEM, íamos percebendo que os representantes e assessores de cada secretaria, apesar de bem- intencionados, tinham pouco conhecimento sobre a questão das drogas e também pouco poder político. Uma sensação de que ‘a coisa não andava’.
Nas reuniões do GEM surgiu a ideia de abrir um CAPS-AD no território e a posição da rede construída no FIDDH foi que não seria a estratégia adequada, pois as pessoas que estão ali necessitam de coisas básicas, anteriores à oferta de tratamento. O CAT (Centro de apoio ao trabalhador) e o serviço de apoio às famílias foram os serviços públicos abertos logo após a demolição do ‘buraco’ em 2012. Estes equipamentos se mostravam como investimentos simbólicos, desconectados da realidade local que estavam sempre vazios. Os acontecimentos evidenciavam o óbvio, e cada vez mais ficava claro que não eram estas as demandas das pessoas. Elas necessitavam de outras coisas e era preciso escutá-las.