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Os resultados encontrados por meio da articulação dos desenhos, das entrevistas, dos grupos de discussão e das fotografias me permitiram delinear a percepção ambiental que as crianças têm do ambiente protegido em que vivem. A concatenação destas distintas fontes de informação permitiu conclusões que não seriam possíveis com a adoção de um único instrumento. O desenho, como instrumento de exploração da percepção ambiental infantil, é de fácil aceitação pelas crianças, mas deve sempre ser acompanhado por outros recursos. As entrevistas nos permitiram apreciar o desenho por meio do olhar de quem o realizou, conduzindo nossa percepção para os elementos que julgou relevantes. Os esclarecimentos prestados pela criança, por meio da entrevista, trazem informações não explícitas de seus desenhos, mas que compõem sua narrativa. Como pudemos observar no desenho feito por Raí (Figura 41), uma imagem antropocêntrica revela uma posição biocêntrica. Os grupos de discussão e as fotografias trouxeram outras referências para a compreensão da percepção ambiental dos participantes.

No que se refere à habilidade infantil em perceber e retratar o ambiente, os resultados desta exploração reforçam a ideia de que quanto mais velha a criança, mais ela é capaz de diferenciar elementos em seu ambiente. Neste ponto concordamos com a geografia humanista que postula que à medida que a criança cresce, sua ideia de lugar é cada vez mais específica e geográfica (Tuan, 1983). Os resultados também apoiam os demais achados de investigações que buscaram compreender a percepção ambiental infantil de ambientes naturais por meio do desenho (Barraza et al, 2006; Fandi & Melo, 2000; Schwarz et al., 2007; Snaddon et al., 2008; Strommen, 1995; Goldberg et al.,

2005) e que indicam que quanto mais a criança conhece seu ambiente, mais detalhado pode ser o seu desenho acerca de seus elementos e relações.

A análise da organização dos elementos em cena foi realizada a partir de apreciação qualitativa; nosso principal norteador foi a percepção da gestalt do desenho, ou seja, da configuração visual na disposição de seus elementos e das funções nele envolvidas. Nesta direção, busquei distinguir desenhos em que a disposição dos elementos em cena não evidencia graficamente suas relações, daqueles em que a organização entre os elementos aparece mais bem definida. A exploração deste aspecto trouxe informações tanto sobre o desenvolvimento da habilidade gráfica como da percepção ambiental das crianças, já que ambos os processos partem da identificação dos elementos na direção de progressiva percepção de suas relações (Bossche, 2006, Gardner, 1980; Tuan, 1978). Assim, as crianças mais novas tendem a desenhar os elementos sem que as relações entre eles sejam graficamente estabelecidas e, à medida que crescem, vão tornando estas relações mais explícitas. Na mesma direção, concordamos com Barraza et al. (2006) cuja investigação indicou que à medida que aumenta a idade da criança, também aumentam a diversidade biológica, o número de detalhes e as cenas que representam interações das espécies com o ecossistema.

De acordo com os modelos tradicionais de desenvolvimento gráfico, os elementos no desenho se organizam de forma mais clara à medida que a criança cresce. Apesar de também identificar esta tendência, os desenhos analisados demonstram que nem todas as crianças mais velhas são capazes de evidenciar a relação entre os elementos da cena desenhada, e que nem todas as mais novas são incapazes de expressar relações entre os objetos de seu desenho. Na mesma direção de Barraza et al. (2006), pode-se concluir que, do mesmo modo que em relação às fases do desenvolvimento gráfico, outros fatores além da idade, como a valorização do desenho

em seus contextos, a prática e o repertório de imagens da criança, interferem em sua habilidade gráfica. Outra importante influência sobre os participantes desta pesquisa é o fato de suas turmas serem multisseriadas e multietárias, o que contribui para que a estimulação e a prática do desenho não apresentem diferenças acentuadas entre as idades do grupo. Decerto foi possível encontrar diferenças quanto ao modo de organização dos elementos em cena, mas não é possível afirmar que sua evolução esteja rigidamente atrelada à faixa etária.

No plano afetivo encontramos tonalidade positiva da interação pessoa-ambiente quando esta foi retratada, tendência já apontada por demais pesquisadores que analisaram mapas esquemáticos de ambientes familiares (Seibert & Anooshian, 1993, apud Pinheiro, 1998). Das quatro formas de apego ao lugar, definidas por Chawla (1992), afeição, transcendência, ambivalência e idealização, a primeira foi mais facilmente identificada nos desenhos. A afeição, de caráter autocêntrico, indica o lugar da pessoa e os sentimentos de familiaridade e segurança, traços que puderam ser observados em grande parte dos desenhos que são, com raríssimas exceções, paisagens agradáveis às pessoas e com presença considerável de casas, o que nos leva a concluir que, de modo geral, o apego ao lugar em que vivem é positivo. Decerto aspectos negativos do ambiente preservado existem e incidem no cotidiano das crianças, mas estas preferiram retratar seus recursos mais que suas limitações.

A paisagem vista constantemente pelos participantes é a Mata Atlântica, com suas árvores portentosas, diversas e abundantes, de coloração verde intenso contrastando com o azul do céu e suas nuvens brancas. Esta paisagem é visualizada na maior parte do ano, com a presença constante da água sob forma de chuva e também de cursos d’água de dimensões variadas, tais como riachos e cachoeiras. Essas características marcantes da paisagem se revelaram com clareza nos desenhos

produzidos pelos participantes, por meio da predominância de espécies vegetais e pela presença significativa de aves e peixes, estes últimos sempre desenhados em rios ou cachoeiras. Chamou atenção a ausência de fogo nos desenhos, já que queimadas são frequentes no entorno da reserva. Acredito que esta omissão possa ser atribuída à desejabilidade dos participantes em atender ao que consideram como a expectativa dos pesquisadores. De forma geral, foi possível destacar a proximidade entre a paisagem local e a paisagem desenhada, ao mesmo tempo em que se observam aspectos próprios do desenhar infantil que se manifestam em diferentes contextos culturais. Diferente de um retrato fiel do real, o desenho revelou complexo arranjo do que a criança percebe e conhece, com o que considera esteticamente adequado e se considera capaz de desenhar.