A leitura é uma área de estudo da literatura que perpassa todo o sistema e ainda se constitui numa ponte de ligação com outros sistemas da cultura letrada. Proponho neste trabalho que a mecânica da leitura, ou seu papel de ferramenta para o acesso aos artefatos fabricados pelas individualidades criativas, torna-se de vital importância para a localização do sistema em que o leitor está inserido. Localizar é o mesmo que perceber as projeções do sistema num imaginado ecrã tridimensional: estético, temporal e ideológico. Quanto mais o indivíduo desconhece o seu papel dentro do sistema de literatura (nenhum participante de uma comunidade está excluído; atua como produtor, tema, receptor, editor, etc.), mais está impedido de perceber as influências de poder do mesmo (ou interferir na sua avaliação).
Interessado nas nuances e diferenças processadas na atuação do livro dentro de uma comunidade, Roger Chartier percebe movimentos subjetivos e relações contraditórias. Os índices de dinamismo e influência dentro de um contexto parecem-lhe apresentar-se controlados pelos seus partícipes:
Tais relações são caracterizadas por um movimento contraditório. Por um
lado, cada leitor é confrontado por todo um conjunto de constrangimento e regras. O autor, o livreiro-editor, o comentador, o censor, todos pensam em controlar mais de perto a produção do sentido, fazendo com que os textos escritos, publicados, glosados ou autorizados por eles sejam compreendidos, sem qualquer variação possível, à luz de sua vontade prescritiva. Por outro lado, a leitura é, por definição, rebelde e vadia. Os artifícios de que lançam mão os leitores para obter livros proibidos, ler nas entrelinhas, e subverter as lições impostas são infinitas.34
Resta saber em que medida todos os envolvidos no processo têm consciência do que domina e do que burla, na ação de leitura. Para Chartier, há dois movimentos, um de controle e normatização e outro de rebeldia e “vadiagem”, que podemos pensar como insolência. Tais movimentos e influxos, quando percebidos pelo estudioso como uma dinâmica, não deixam de ser a descrição de um sistema cuja direção muitas vezes contesta um esforço de permanência de códigos e hábitos relacionados à leitura ou ao livro. Focado no ato de ler, a sentença expressa pelo estudioso francês deseja compreender as nuances da leitura no processo mais amplo, mas também como uma atividade inteiriça em si mesma e capaz de ser identificada pelos seus sintomas.
É o que ele denomina de Ordem dos Livros ou, pelo viés da identificação das palavras impressas no papel e suas conseqüências proveitosas ou nefastas, mais uma denominação para o sistema da leitura:
A ordem dos livros tem também um outro sentido. Manuscritos ou impressos, os livros são objetos cujas formas comandam, se não a imposição de um sentido ao texto que carregam, ao menos os usos de que podem ser revestidos e as apropriações às quais são suscetíveis. As obras, os discursos, só existem quando se tornam realidades físicas, inscritas sobre as páginas de um livro, transmitidas por uma voz que lê ou narra, declamadas num palco de teatro. Compreender os princípios que
governam a 'ordem do discurso' pressupõe decifrar, com todo o rigor, aqueles outros que fundamentam os processos de produção, de comunicação e de recepção dos livros (e de outros objetos que veiculem o escrito). Mais do que nunca, historiadores de obras literárias e historiadores das práticas e partilhas culturais têm
34 CHARTIER, Roger. A ordem dos livros. In: ______. A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVII. Tradução de Mary Del Priori. Brasília: Editora Unb, 1999, p. 7. Grifo do autor.
consciência dos efeitos produzidos pelas formas materiais. No caso do
livro, elas constituem uma ordem singular, totalmente distinta de outros registros de transmissão tanto de obras canônicas quanto de textos vulgares. Daí, então, a atenção dispensada, mesmo que discreta, aos dispositivos técnicos, visuais e físicos que organizam a leitura quando ele se torna um livro.35
A compreensão da materialidade que acaba formatando (numa prática cotidiana pertinazmente dinamizada e atualizada) o objeto livro, cuja urgência muito mais do que a importância, forma historiadores e mobiliza recursos e esforços, nada mais seria do que a percepção do sistema da literatura ― área de estudo da cultura. Tanto a chamada para a urgência do conhecimento íntimo dessa materialidade, como reflexões mais ou menos coerentes sobre o tema são impressos nas páginas do jornal, cujos recortes são comentados a seguir.
Um importante aspecto do sistema de literatura é a leitura, ainda mais quando relacionada à alfabetização ― uma ferramenta de acesso ao sistema ― e ao leitor ― o elemento para o qual a máquina sistêmica funciona. Ele é a possibilidade antropológica (o ser) da cultura na sua aparência literária. A leitura dá oportunidade de o receptor posicionar o sistema pelo reflexo, podendo avaliar o seu papel, a sua participação e até quanto está sendo ficcionalizado no movimento sistêmico. Isso ocorre quando um poeta ou um romancista transpõe para a narrativa a vida de outro. Seria uma questão ética que esse ficcionalizado pudesse emitir o seu parecer sobre si na narrativa, no sistema. Quando um indivíduo ou uma classe não consegue perceber o reflexo, então o sistema literário pode tornar-se um discurso, uma ideologia, uma forma de captura. Ou o que S. Schmidt chama de “terrorismo da verdade e do saber.”36
Heidrun K. Olinto, introdutora das idéias de S. Schmidt sobre uma ciência da
35 CHARTIER,1999, p. 8. Grifo nosso.
36 A citação completa do fragmento de Siegfried J. Schmidt diz respeito aos valores e postulados normativos pretendidos pela Ciência da Literatura Empírica, os quais são 'esclarecimento', 'solidariedade' e 'cooperação'. Sobre 'solidariedade', afirma que a sua ciência tende a agir “no sentido da diminuição da dominação do homem sobre o homem, da diminuição da intolerância, do terrorismo do conhecimento e da verdade.” SCHMIDT, Siegfried J. A ciência da literatura empírica: um novo paradigma. In: OLINTO, Heidrun Krieger. (sel., trad. e apres.). Ciência da literatura empírica: uma alternativa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989. p 43. (Biblioteca Tempo Brasileiro, 86, série Estudos Alemães).
literatura construtivista, em que uma das dimensões influentes é a história da literatura construtivista, apresenta uma série de aspectos sobre essa rigorosa e polêmica teoria da literatura. Uma das atitudes mais contestadas diz respeito ao fato de que há uma tendência, no estudo da literatura, de ser ambígua e pouco dada ao rigor da reflexão científica. Ela chega a denominar de posturas pseudo-científicas. Outro tema que alimenta as reuniões de especialistas é o próprio caráter de ciência para o estudo literário. Existem modelos de trabalho cotidiano com o uso de ferramentas e parâmetros matemáticos, gráficos e estatísticas para a manipulação de dados objetivos. A pesquisadora explica que a teoria construída em torno de Schmidt está montada a partir das idéias da ciência do sujeito de Humberto Maturana, das diversas ciências de Wilhelm Dilthey e do construtivismo de Peter Finke.
Em “A teoria na prática é outra?”, H. Olinto oferece a ponte de articulação entre as posições de leitura marcadas dentro do jornal e a construção de uma história da literatura nos perfis explicitados até aqui: “O modelo unilateral da teoria da literatura privilegiando processos produtivos já tinha sido contestado pela Estética da Recepção ao atribuir ao leitor uma função básica na constituição do significado textual.”37 O leitor conquista um lugar privilegiado na engrenagem do sistema e
provoca a urgência de uma série de mudanças metodológicas na feitura e fatura da historiografia da literatura.
Nesse caso, postulação do leitor, da teoria de H. R. Jauss e W. Iser, antropológica do ser, de Heidegger, e a ciência centrada no sujeito, de Maturana a Schmidt, não são somente pressupostos teóricos que se afinam numa tradição argumentativa, mas configuram enfeixes teóricos que, se muito bem explicitados, formariam uma malha difícil de ser rompida na flexão cotidiana do questionamento científico. O sujeito é o centro. A literatura é o sujeito. O sistema é a literatura. A historiografia narra a literatura de jornal enquanto sujeito leitor. É Heidrun quem nos oferece uma pista fundamental para o enfeixe teórico descrito acima:
37 OLINTO, Heidrun Krieger (sel., trad. e apres.). A teoria na prática é outra? In: ______. Ciência da
literatura empírica: uma alternativa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989. p. 27. (Biblioteca Tempo
Schmidt convida a abandonar a fixação exclusiva em textos individuais e substituir a atividade pseudo-científica da interpretação da obra em favor do 'rico e fascinante panorama de questões que aguardam uma ciência da literatura empírica', tais como a investigação de passado e presente do sistema literatura, suas instituições e ações potenciais, seus sistemas normativos e convenções, suas possíveis funções sociais, psíquicas e estéticas e seus gêneros e discursos articulados com os indivíduos que lidam com a literatura. Um projeto que ele chama de 'arte pelo homem'.38
É preciso descartar a postulação radical da “leitura cerrada” como “pseudo- ciência” da afirmação acima, mesmo porque, a depender das projeções metodológicas, essas leituras fazem parte do sistema de literatura e não podem ser desqualificadas a priori. O próprio teórico alemão afirma a importância da crítica literária para não se perder o contato entre os leitores e as reflexões sobre os textos literários. De resto, na orientação de Schmidt, qualquer abordagem sobre a literatura não pode se arvorar a tomar um lugar de verdade ou de totalidade, todos estariam na contingência do incompleto, da emergência de sofrer do exame daquele sistema.
De todo modo, o paradigma, não compreendido como o limite epistemológico, mas ponto de partida provisório, é a “arte pelo homem”. A literatura é o homem. A satisfação de uma comunidade de cientistas e os confrontos e questionamentos dos mais diferentes sistemas atingidos garantem a legitimidade da teoria científica. O relacionamento entre a teoria construtivista da ciência da literatura empírica (CLE) e o sistema da literatura pressupõe uma série de papéis muito bem explicitados. Heidrun verifica a existência de papéis acionais, ou que ela toma dos esquemas de Schmidt como a teoria da ação comunicativa literária, cujos trabalhos são simultâneos ou organizados numa temporalidade fixa:
Em relação ao sistema literário, esses papéis correspondem à produção, mediação, recepção e à elaboração pós-recepcional de comunicação literárias e se relacionam do seguinte modo: a produção é a condição prévia da transmissão e a antecede; do mesmo modo, esta garante a recepção subseqüente que, por seu lado, é pressuposto para o processamento posterior. No âmbito deste relacionamento, o sistema acional explica, portanto, os papéis de indivíduos que lidam com textos literários. Uns produzem estes textos, outros os transmitem a leitores que os recepcionam
de múltiplas formas, e há aqueles que produzem textos sobre os textos literários antes recepcionados. Um texto vive como texto literário tão somente nestas constelações acionais sociais concretas em sistemas históricos definidos por determinados processos de socialização e determinadas necessidades, capacidades cognitivas, sentimentos, intenções e motivações gerais e, ainda, por condicionamentos políticos, sociais, econômicos e culturais que correspondem aos 'sistemas de pressupostos' de sua ação. Agentes o julgam e lhe atribuem sentido em função destas articulações.39
Não preciso mencionar que a literatura constrói seu discurso de identidade forjando narrativas ideológicas para as nações, ou seja, ninguém mais do que ela para saber imbricar indissoluvelmente narrares desinteressados e discursos nacionais de classe. Esse é um dos motivos para que todos os partícipes do sistema devam decodificar com competência a sua mensagem.