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Para testar as hipóteses estabelecidas neste estudo, analisou-se um conjunto de dados primários para caracterizar a implementação de práticas lean na indústria de transformação.

Para realização deste estudo utilizou-se o modelo desenvolvido por Shah e Ward (2007), adaptado por Godinho Filho, Ganga e Gunasekaran (2016) em 45 elementos operacionais agrupados em 10 práticas lean (Apêndice A – questionário de pesquisa, Blobo 2). Tal escolha se deve em função desse modelo ser o mais utilizado e evidenciado na abrangente revisão da literatura disponibilizada no presente trabalho. Todos os elementos operacionais foram respondidos em uma escala Likert de sete pontos que variam de (1) “discordo totalmente” a (7) “concordo totalmente”.

4.3.1 Amostra e procedimentos de coleta de dados

A população deste estudo concentra-se na indústria de transformação localizada na Região Metropolitana de Belém/PA, Região Amazônica do Brasil, totalizando 1387 empresas.

O questionário foi administrado pela Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), cuja base de filiação empresarial foi considerada particularmente adequada para o propósito desta pesquisa. A aplicação do questionário ocorreu entre os meses de setembro a

dezembro de 2014, enviado via e-mail as 1387 empresas acompanhada de uma carta de apresentação discorrendo sobre o proposito da pesquisa e a utilização dos dados informados somente para fins científicos.

Do total de e-mails enviados inicialmente, 62 retornaram acusando destinatário inválido. Ao passar um mês do envio do questionário às empresas, encaminhou-se outro e- mail lembrando que a equipe de pesquisadores estaria aguardando o questionário devidamente preenchido. O mesmo procedimento foi repetido por mais duas vezes, sempre anexando o questionário na mensagem eletrônica, seguindo recomendações de métodos de pesquisas realizadas pela internet (DILLMAN, 2000). Em dezembro de 2014, após o terceiro lembrete enviado por e-mail, foram contabilizados 233 questionários retornados preenchidos completamente e considerados válidos para a pesquisa, após análise das respostas. A taxa de resposta da pesquisa foi de 17,6% da população. Essa taxa se assemelha a outros estudos de pesquisa de grande escala em gestão de operações (por exemplo, BRAUNSCHEIDEL; SURESH, 2009; HULT; KETCHEN; ARRFELT, 2007; BARDHAN; MITHAS; LIN, 2007).

4.3.1.1 Caracterização das empresas e respondentes

As características das empresas pesquisadas constam na Tabela 4.3. Ao todo foram mapeados 16 setores da indústria de transformação, com predominância para os fabricantes de produtos alimentícios (27%) e produtos de madeira (14,2%), dentre outros. A tipologia produtiva principal adotada pela maioria das empresas (81%) é a produção para estoque (make to stock – MTS). Quanto ao tamanho das empresas medido pelo número de funcionários (segundo o IBGE (2015), pequenas empresas empregam menos de 100 funcionários, as médias empresas ocupam até 500 pessoas e as grandes empresas geram mais de 500 empregos), observa-se que 71% das empresas são de pequeno porte.

Tabela 4.3 – Caracterização das empresas.

Setor industrial n % Processo n % Funcionários n %

Produtos alimentícios 63 27 MTS 189 81 Até 19 38 16

Bebidas 14 6 MTO 36 16 20 a 99 127 55

Produtos de madeira 33 14,2 ETO 8 3 100 a 499 51 22

Produtos químicos 14 6 Mais de 500 17 7

Produtos de borracha e de material plástico 17 7,3 Produtos de minerais não metálicos 29 12,4 Produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos 26 11,2

Outros* 37 15,9

Total 233 100 Total 233 100 Total 233 100

*produtos têxteis, artigos do vestuário e acessórios, couros e artefatos de couro, celulose, papel e produtos de papel, produtos farmoquímicos e farmacêuticos, metalurgia, máquinas e equipamentos, outros equipamentos de transporte exceto veículo automotores, produtos diversos.

As características dos respondentes constam na Tabela 4.4. A maioria dos entrevistados ocupam cargos gerenciais (81%) e de supervisão (12%), no departamento de produção (83%). Acumuladamente, 77% de todos os entrevistados estão em suas respectivas empresas por mais de cinco anos. Com base nessas características, os entrevistados foram considerados qualificados para completar esta pesquisa.

Tabela 4.4 – Caracterização dos respondentes.

Nível hierárquico n % Departamento n % Tempo de atuação n % Analista 3 1,3 Compras 2 0,9 Menos de 1 ano 8 3 Assistente 1 0,4 Qualidade 14 6 De 1 a 3 anos 11 5 Engenheiro 3 1,3 Planejamento 3 1,3 De 3 a 5 anos 35 15 Gerente 189 81 Logística 14 6 De 5 a 7 anos 72 31 Supervisor 28 12 Engenharia 1 0,4 De 7 a 10 anos 59 25 Diretor 9 4 Financeiro 1 0,4 Mais de 10 anos 48 21

Administração 5 2 Produção 193 83

Total 233 100 Total 233 100 Total 233 100

Fonte: Dados da pesquisa (2016).

4.3.2 Análise dos dados

Inicialmente os 45 elementos operacionais foram avaliados quanto aos diferentes níveis de adoção pelas empresas pesquisadas e se os mesmos são significativamente implementados de forma holística seguindo os preceitos da manufatura enxuta. Para tal, usou- se um teste não paramétrico (teste de Friedman). Esse teste tem o intuito de comparar tratamentos, ou variáveis, observados mais de uma vez em uma mesma unidade experimental (FRIEDMAN, 1937).

Visando avaliar a estrutura de dependência entre os 45 elementos lean, utilizou-se a Análise Fatorial Exploratória (EFA). Segundo Johnson e Wichern (1998), essa análise tem como principal objetivo descrever a variabilidade de um conjunto de dados utilizando um número menor de variáveis não observáveis, denominados fatores comuns ou variáveis latentes. Neste modelo, parte da variabilidade dos dados é atribuída aos fatores comuns e a restante às variáveis que não foram incluídas no modelo, ou seja, o erro aleatório.

Como método de extração dos fatores na EFA, utilizou-se a Análise de Componentes Principais (CPA) considerando a variância total dos dados. Para seleção do número de fatores a serem utilizados, considerou-se, segundo Hair et al. (2006): (i) Critério da raiz latente (seleção de fatores que possuam autovalor > 1); e (ii) Critério de percentagem de variância explicada (seleciona-se o número de fatores que atingem ou superam um valor mínimo fixado para variabilidade total explicada).

Na interpretação dos fatores na EFA, considerou-se a estimativa da matriz fatorial, a rotação fatorial (oblíqua promax que permite que os fatores sejam correlacionados), e por fim a interpretação e reespecificação de fatores após a rotação fatorial objetivando visualizar a estrutura de práticas que corresponde ao modelo implementado pelo objeto pesquisado.

Com os fatores determinados, os mesmos foram submetidos a análise de confiabilidade segundo o Alfa de Cronbach (CA) e a Correlação Total do Item Corrigido (CITC) para verificar se esses constructos são consistentes medindo a mesma dimensão. O valor considerado bom para CA está entre 0,7 a 0,8, e quanto mais próximo de 1, maior a fidedignidade das dimensões do constructo (KLINE, 2005; FIELD, 2005). O CITC mede o quão cada elemento se correlaciona com seu fator (constructo ou prática lean), sendo recomendáveis valores > 0,3 para cada medida/elemento (FIELD, 2005).

Utilizou-se também a Análise Fatorial Confirmatória (CFA) para verificar a validade discriminante e convergente dos constructos e, por conseguinte, o caminho de implementação das práticas lean. A validade discriminante refere-se ao grau em que os fatores são distintos e não correlacionados, sendo que a regra é que os elementos medidos devem relacionar-se mais fortemente ao seu próprio fator que a outro fator, e a validade convergente significa que as variáveis dentro de um fator são altamente correlacionadas (HAIR et al., 2006).

Problemas de validade convergente indicam que os elementos não se correlacionam bem uns com os outros dentro de um mesmo fator, ou seja, a variável latente (fator) não explica bem seus elementos operacionais observados. Problemas de validade discriminante indicam que os elementos se correlacionam mais fortemente com os elementos fora de seu fator do que com os elementos dentro, ou seja, a variável latente é mais bem explicada por outros elementos (de um fator diferente) que por seus próprios elementos operacionais.

Após comprovada a validade dos constructos, avaliou-se a validade do modelo de mensuração/medição (caminho de implementação das práticas lean) por meio de índices de qualidade de ajustes absoluto e incremental pelo método da máxima verossimilhança. As medidas de qualidade de ajuste busca comparar a teoria (manufatura enxuta) com o modelo de mensuração representado pelos dados coletados.

No modelo de mensuração, inseriu-se as variáveis de controle listadas na Tabela 3 para avaliar o grau de adoção das práticas lean. O método utilizado foi a Análise de Variância Multivariada (MANOVA). Tal técnica consiste em comparar “k” grupos independentes (variáveis de controle) segundo “m” variáveis (práticas lean) (MARDIA; KENT; BIBBY, 1979). O teste de Friedman, a EFA e a MANOVA foram realizados por meio do software IBM SPSS 20 e a CFA pelo software AMOS. O nível de significância para todos os testes foi

de 5%. Assim, pelo p-valor obtido em cada teste rejeitou-se a hipótese testada quando o p- valor < 0,05.