7.2 Regular Wave Analysis
7.2.1 Jack-up
Finalmente a bruma10 que pairava sobre alguns atributos e características da fotografia parece ter sido dissipada. Decorridos mais de 150 anos após sua invenção, a imagem fotográfica configura-se como uma importante fonte de informação e fonte de pesquisa histórica.
Dissipada a bruma, a exploração do caráter documental da fotografia foi reconhecida. Mas a fotografia, elevada à categoria de testemunho histórico, traz consigo a sua natureza, que a caracteriza não como reflexo ou espelho da realidade, mas como uma maneira de representar uma dada realidade, a ser construída a partir de conteúdos e significados localizados historicamente; traz consigo os atributos que a caracterizam como objeto híbrido, igualmente povoado por objetividade e subjetividade, derivando que a sua compreensão, como documento histórico, seja permeada pelo reconhecimento da sua natureza ambígua e as conseqüentes potencialidades e limites do seu uso de maneira autônoma, conforme discussões levadas a cabo no capítulo “Sobre a Fotografia” do presente trabalho.
O que nos foi revelado para além da bruma apresenta-se como um horizonte de amplitudes vertiginosas; apesar da chancela de documento ter sido outorgada à fotografia, tendo ainda sido eleita como um objeto potencialmente informativo, uma paisagem disforme, e por vezes acidentada, parece estar presente quando tratamos de conceber e alicerçar uma metodologia para o tratamento documental11 de
10
A imagem de bruma foi expressa por Walter Benjamin (1992) no início do texto Pequena
História da Fotografia, o uso dessa mesma imagem no presente trabalho configura-se
como uma homenagem ao referido autor. 11
Segundo Camargo e Bellotto (1996, p. 75) o tratamento documental se refere ao “Conjunto das atividades de classificação e descrição de documentos.”.
fotografias, quando estas são transformadas em acervos fotográficos, recolhidos junto aos Arquivos Históricos, instituições de memória e de pesquisa.
As discussões que estas questões encerram, ao nosso ver, se apresentam como essenciais, e mesmo que não desbravada a extensão total dessa paisagem, e mesmo que não explorada de maneira conclusiva ou absoluta, nos propomos a desenvolver uma análise crítica sobre alguns aspectos que se sobrepõem, e ao mesmo tempo fundamentam a compreensão e uso da fotografia como documento histórico, à luz de alguns dos aportes teóricos oferecidos pela História e pela Arquivística. Percebemos ser necessário expor e discutir, em conjunto, algumas abordagens apresentadas pelas citadas disciplinas. Ao provocar este encontro, procuramos delinear, na paisagem da fotografia, alguns pontos de confronto onde habitam uma convivência incômoda de diferentes interesses, enfoques e perspectivas, que muitas vezes fundamentam de forma tênue o lidar com a fotografia quando elevada à categoria de documento histórico e, também, os lugares onde residem as possibilidades para a invenção e a construção de um conhecimento a partir do documento fotográfico.
Assim, tentaremos compreender como as novas abordagens históricas, propostas pela Nova História, bem como o surgimento de novos suportes de informação, na presente pesquisa com enfoque exclusivo no suporte fotográfico, desencadearam diferentes formas de produção do conhecimento histórico; suscitaram o estabelecimento de uma nova hierarquia no que se refere à concepção e conceituação dos recursos documentais; provocaram uma nova ordem de problemas para as instituições consagradas como guardiãs de acervos fotográficos sob a égide de históricos, na presente pesquisa com enfoque exclusivo nos Arquivos
Históricos, principalmente no que se refere à origem e natureza dos documentos a serem recolhidos e colocados sob custódia.
Desencadearam ainda uma problematização relacionada à fundamentação teórica que permeia a metodologia para o tratamento técnico dos documentos fotográficos, principalmente naquilo que incide sobre as escolhas do que guardar e do que descartar, sobre como organizar e sobre a elaboração dos instrumentos de pesquisa12, elo de comunicação entre o pesquisador e os acervos históricos.
A partir de uma nova proposta de história, os chamados Arquivos Históricos, conforme discutido por Miguel (1993), deixam então de ser instituições de guarda somente dos atos oficiais resultantes de atividades econômicas, legais ou administrativas, para tornarem-se instituições destinadas a recolher, organizar, conservar e tornar acessíveis os documentos da memória coletiva, que abrange o documento escrito, o microfilmado, o fotográfico. Cabe então aos Arquivos o desempenho de um papel fundamental, o de diversificar suas reservas documentais, contribuindo assim para a apropriação desses objetos enquanto matéria prima para a investigação histórica. E, ainda, os Arquivos Históricos apresentam-se como lugares onde se processam as escolhas, incidem sobre aquilo que deve ser recolhido, sobre aquilo que merece permanecer como testemunho, pois conforme apontado por Rousseau e Couture (1998, p. 47), “[...] o arquivista contemporâneo tem o mandato de definir o que constituirá a memória de uma instituição ou de uma organização.”.
A discussão proposta, no presente capítulo, não objetiva responder de maneira definitiva a todas as questões que as novas abordagens históricas impõem
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Segundo Oliveira (1992), os instrumentos de pesquisa integram o programa descritivo do acervo, são voltados ao usuário externo pois configuram-se como instrumentos de socialização das informações, apresentam-se como Guia, Inventário e Catálogo.
aos Arquivos Históricos, tampouco estabelecer em que medida esta nova realidade deve ser absorvida pela Arquivística. Não pretendemos apontar quais os melhores critérios ou fórmulas definitivas para a compreensão da fotografia como documento histórico; tentaremos apenas desvelar parte daquilo que a sustenta como tal e discutir as possibilidades de um tratamento técnico arquivístico onde estejam presentes e delineados os atributos e a natureza inerentes à fotografia.
Ao nosso ver, a paisagem que a fotografia constrói, como documento histórico, convida, provoca e suscita a promoção de um possível diálogo, entre os vários e múltiplos possíveis diálogos, entre a Fotografia, a História e a Arquivística.
Aceitamos o convite e, a seguir, apresentamos algumas reflexões. No que diz respeito à História, não trataremos aqui de desenvolver um estudo sobre a história da fotografia, nem tampouco promover um exame profundo sobre todos os aparatos conceituais e teóricos da História enquanto disciplina científica, da qual deriva a produção de diferentes métodos para a análise e compreensão do passado. A nossa discussão objetiva abordar alguns posicionamentos relativos à compreensão do documento histórico e dos recursos teórico-metodológicos, dos quais deriva a construção de uma trama narrativa sobre o passado, baseando-nos para tanto, fundamentalmente, nos autores Jacques Le Goff (1994), Peter Burke (1992) e Keith Jenkins (2001).
Quanto às reflexões sobre a Arquivística e os Arquivos Históricos, pretendemos compreender as bases teóricas que fundamentam o lidar com os documentos e as resultantes concretas desse lidar, que tem lugar nas instituições de guarda de documentos, aqui considerados somente os Arquivos Históricos; para tanto apresentamos como basilares os trabalhos dos autores Heloísa Liberalli
Bellotto (1991), Jean-Yves Rousseau e Carol Couture (1998), Daíse Apparecida Oliveira (1992) e Silva et al (1999).
As reflexões propostas configuram-se como fundamentação teórica para a análise desenvolvida no capítulo 5 do presente trabalho, do conjunto de fotografias que integram o Fundo José Pedro Miranda, sob a custódia do Arquivo Público e Histórico de Ribeirão Preto.