Para Macêdo (2009, 2010) os escritores utilizam a sublimação como mecanismo defensivo inconsciente para lidar com a angústia. Conforme vários autores psicanalistas, a sublimação é considerada, inclusive por Freud (1982), como o mecanismo defensivo “superior”, pelo fato de ela proporcionar uma satisfação do desejo pulsional, de forma que a pessoa consegue satisfazer seu desejo encontrando uma forma socialmente aceita.
Quando se olha a partir da abordagem Psicodinâmica do Trabalho, deve-se considerar que há dois tipos de sofrimento: o patogênico e o criativo, de acordo com Dejours (1992). O patogênico, como o próprio nome diz, é aquele que não é capaz de promover na pessoa que o
sente um movimento psíquico interno capaz de transformá-lo em outra coisa socialmente aceita ou em prazer. Já o sofrimento criativo é aquele que, via utilização do mecanismo de sublimação, capacita a pessoa a transformar o sofrimento em vivência de prazer, conforme está ilustrado na Figura 2. Esse mecanismo pode ser ilustrado na Figura 2, apresentada a seguir.
FIGURA 2 Representação do processo criativo como mecanismo utilizado pelo escritor literário para enfrentar e transformar o sofrimento.
Fonte: Desenvolvida pelo pesquisador
O julgamento de outras pessoas, da família e da comunidade tem como objetivo, para o sujeito, o seu reconhecimento frente às relações sociais que ele estabelece para sua vida. Tal fato é reconhecido por Dejours (1993) como a sublimação. Assim, para o autor, a sublimação desencadeia o reconhecimento social e, consequentemente, interfere na identidade e na saúde mental do sujeito.
O reconhecimento subjetivo do sujeito de seus esforços advém para conseguir controlar a angústia e o seu sofrimento; em seguida, o indivíduo vai procurar outras formas de superar o ressurgimento do sofrimento, desenvolvendo novas estratégias de enfrentamento.
Quando não consegue beneficiar-se do trabalho para dominar seu sofrimento e transformá-lo em trabalho criativo, há a desestabilização do sujeito, levando-o à doença, tratado pelo autor como “sofrimento patogênico” (DEJOURS, 1993).
Sublimar é uma Arte? Ou fazer “Arte” é sublimar?
Arte (Latim ARS, significando técnica e/ou habilidade) geralmente é entendida como a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepção, emoções e ideias, com o objetivo de estimular essas instâncias de consciência em um ou mais espectadores. A arte está por todos os cantos, pois não se restringe apenas em uma escultura ou pintura, mas também em música, cinema e dança. O ser que faz arte é definido como o artista. O artista faz arte segundo seus sentimentos, suas vontades, seu conhecimento, suas ideias, sua criatividade e
sua imaginação, o que deixa claro que cada obra de arte é uma forma de interpretação da vida (PINHEIRO, 2007, p.1).
Com o advento da Psicanálise na Cultura, a "arte" sempre é citada como algo simbólico da sublimação. Às vezes é até confundida com a própria sublimação. Freud (1969) criou a noção de sublimação a partir da indicativa de que para existir a civilização houve a "necessidade" de sublimar os instintos.
Para Pinheiro (2010), em seu artigo sobre a sublimação e idealização e a pós- modernidade, afirma que falar sobre sublimação talvez seja uma das tarefas mais difíceis de realizar em Psicanálise; a autora diz que é uma situação, no mínimo, curiosa, pois, se de um lado falta à definição ao conceito de uma costura metapsicológica, por outro lado, parece que todos sabem do que estão falando. Pinheiro (2010) cita que Freud (1919) apontava que a sublimação seria como única saída para a humanidade, pois o que se espera ao final de uma análise é da ordem da sublimação. Birman (2000) diz que a sublimação na obra freudiana tem o “estatuto de passagem”, funcionando sempre como argumento para demonstração de outro conceito. “Ou seja, Freud jamais construiu uma teoria da sublimação”. Em seu artigo sobre a “Sublimação e idealização e a pós-modernidade”,
Em “Mal-estar da civilização”, Freud (1930) cita uma definição de sublimação “A sublimação das pulsões constitui um dos traços que mais sobressaem do desenvolvimento cultural; é ela que permite as atividades psíquicas elevadas, científicas, artísticas ou ideológicas, desempenhando um papel bastante importante na vida dos seres civilizados”.
A Psicanálise freudiana dá ênfase à questão da sublimação da pulsão sexual. A definição de sublimação dada por Freud em 1914 é a seguinte: “A sublimação é um processo que concerne à libido de objeto e consiste no fato de que a pulsão se dirige para outro objetivo, distante da satisfação sexual; o que é acentuado aqui é o desvio que distancia do sexual”.
Freud (1914) faz uso da sublimação para designar a mudança de um estado psíquico para outro por meio de uma “transformação” de uma pulsão, a pulsão sexual. A sublimação é algo simbólico de “quando se consegue intensificar suficientemente a produção de prazer a partir das fontes do trabalho psíquico e intelectual”. Segundo ele, tais satisfações parecem mais refinadas e mais altas. Como diz ele em seu livro “O Mal-Estar da Civilização” (1930- 1936), a intensidade da sublimação “se revela muito tênue quando comparada com a que se origina da satisfação de impulsos instintivos grosseiros e primários; ela não convulsiona o nosso ser físico”. Diz ainda:
A sublimação do instinto constitui um aspecto particularmente evidente do desenvolvimento cultural; é ela que torna possíveis às atividades psíquicas superiores, científicas, artísticas ou ideológicas, o desempenho de um papel tão importante na vida civilizada. Essas pessoas se tornam independentes da aquiescência de seu objeto, desviando-se de seus objetivos sexuais e transformando o instinto em um impulso com uma finalidade inibida (FREUD, 1914, p.112).
Em seus raros momentos de dúvida, Freud (1914, p.112) fala sobre a sublimação e a pulsão sexual: “Às vezes, somos levados a pensar que não se trata apenas da pressão da civilização, mas de algo da natureza da própria função (sexual) que nos nega satisfação completa e nos incita a outros caminhos. Isso pode estar errado; é difícil decidir”.
Para Garrido (2012), a atividade artística é aquela em que há um acesso controlado de conteúdos do próprio inconsciente, inconscientemente, havendo quase que uma passagem sublime de uma instância a outra. A sublimação funciona como uma ponte entre a pulsão do inconsciente e o desejo em realizar uma obra de arte. Para o autor, uma atividade criativa só pode ser entendida a partir de si mesma. Já para o psicanalista Lucas Napoli, da UFRJ (2012), um exemplo paradigmático disso ocorreu com o conceito de sublimação. Até Freud (1969) não havia nenhuma dificuldade para definir tal conceito. Qualquer incauto que tivesse lido o texto “Pulsões e destinos da pulsão” (1915) ou “Os instintos e suas vicissitudes” sabia perfeitamente que a sublimação era uma das saídas possíveis que o sujeito encontra para lidar com a pulsão sexual, cuja peculiaridade seria o fato de utilizar a energia sexual para a realização de atividades culturais como escrever, pintar, organizar um manifesto etc. Partindo da própria etimologia da palavra, segundo Napoli (2009), podemos dizer que sublimar significa transformar a baixeza das paixões da carne em matéria-prima de coisas sublimes.
Para Freud (1920/1987), a felicidade está relacionada à noção de prazer no trabalho. O prazer no trabalho é o destino feliz do sofrimento no trabalho; ele é o produto secundário do sofrimento quando a sublimação é social e eticamente possível.
O conceito de sublimação refere-se à mudança da satisfação do desejo, ou da pulsão do campo erótico para o campo social (LAPLANCHE; PONTALIS, 2001). O desejo encontra uma via de satisfação nova, a pulsão desemboca em um objeto socialmente valorizado. Nesse sentido, a sublimação significa uma defesa criadora. Tal valorização, de relativo interesse para a Psicanálise individual, é central para a Psicodinâmica do Trabalho.
A sublimação é indissociável das exigências do ideal do eu. O ideal de eu é “instância da personalidade resultante da convergência do narcisismo (idealização do eu) e das identificações com os pais, com os seus substitutos e com os ideais coletivos” (LAPLANCHE; PONTALIS, 2001, p. 222).
1.8 Sublimação como processo de ressignificação do sofrimento em prazer: sublimação,