6.2 Model 2: DD
6.2.1 Regression
A construção deste breve histórico conceitual da Economia Solidária buscou reconhecer que a mudança ocorre no processo histórico não como um processo inevitável do desenvolvimento tecnológico, ou como resultante das contradições presentes nas relações de produção, mas como possibilidade de ruptura com o “progresso” capitalista quando suas
interrupções são denunciadas e assumidas pelos oprimidos.292 Para o autor, há um elemento
revolucionário que se faz presente em momentos de tensão, para Benjamin “as revoluções não são a “locomotiva da história”, mas a interrupção de um progresso catastrófico, o “progresso” capitalista”.293
A concepção de história deste trabalho se fundamenta nos estudos de Benjamin por compreender que este autor procura valorizar as diferentes vozes que são ouvidas no resgate da história, considerando não somente a história oficial, mas os pequenos e grandes relatos de cada evento. Esta possibilidade de multiplicidade na construção histórica complementa a concepção desta pesquisa que, no contexto de um estudo sobre ambigüidade, circula entre o resgate histórico e teórico da Economia Solidária, a construção de uma história a partir dos relatos dos cooperados e dos técnicos da incubadora, a reflexão teórica a partir da interdisciplinaridade e que procura valorizar a multiplicidade de sentidos presentes na sociedade complexa, heterogênea, fundamentalmente contraditória e desigual, na qual se destacam as relações de poder e a manutenção do status quo.
A crítica de Benjamin294 à concepção de história como um progresso linear o leva a integrar à teoria marxista a busca de compreender a luta por emancipação dos povos oprimidos em outros momentos históricos, valorizando suas falas para a compreensão dos processos históricos. E Benjamin cita Nietzsche para enfatizar que a concepção histórica deve contribuir no presente “para favorecer o acontecimento de um tempo futuro”. Portanto, o estudo e o resgate de uma história devem ter como objetivo a construção e a busca de um projeto de sociedade, um processo de transformação das relações de dominação e dos fatores que oprimem os grupos.
Da mesma forma, aqueles que buscam a mudança, procuram em cada oportunidade histórica a possibilidade de emancipação, de buscar o fim da opressão. A história ao ser vista com suas brechas para a mudança permite aos seus sujeitos que pensem o passado buscando reconhecer no presente as possibilidades de mudança das relações de poder.
Essa concepção não reduz a história ao aspecto econômico, mas reconhece a permanência da dicotomia entre oprimidos e opressores, reconhecendo este antagonismo histórico sem tentar mantê-lo estático, mas buscando denunciar os entraves da mudança. Para Benjamin é preciso compreender que mesmo quando os projetos se querem progressistas eles encontram uma forma de manter o status quo, lembrando que os representantes do poder irão sempre tentar tornar a história como algo estático, linear e com caráter de verdade universal. Portanto, para Benjamin é importante resgatar o ponto de vista das vítimas da história, das vítimas da civilização, daqueles que foram oprimidos e ouvir o que tem a dizer de sua história.
292 BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: BENJAMIN, Walter. Magia, técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.
293 ARRAES NETO, Enéas. Entrevista com Prof. Dr. Michael Löwy. Revista Labor, v. 1, n. 2, 2009. Disponível em: <http://www.revistalabor.ufc.br/Artigo/Entrevista_sobre_marxismo.pdf>. Acesso em: fev. 2010.
294 BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: BENJAMIN, Walter. Magia, técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.
Para Benjamin a mudança viria com a rememoração e a redenção a fim de libertar os oprimidos do presente e do passado. Para que seja integral, a rememoração deve valorizar tanto os grandes como os pequenos acontecimentos, para que a sociedade ao ser integrada possa se apropriar de sua história em sua totalidade. Esta concepção de história e de transformação parece reconhecer a importância da multiplicidade de sentidos que envolvem a construção dos diferentes relatos históricos, seja daqueles que detém o poder, como daqueles que são oprimidos. Para Benjamin295 “o cronista296 que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história.”
A concepção de história desenvolvida por Benjamin297 considera a cultura como um dos
aspectos principais para pensar a construção da história. Para Benjamin a concepção positivista, que supervaloriza o conhecimento científico, conquista tanto o desenvolvimento tecnológico quanto a barbárie. A crítica empenhada por Benjamin298 contra a concepção de história cultural baseada no pragmatismo utilitarista, considera esta desprovida do "elemento destrutivo que confere autenticidade tanto ao pensamento dialético como à experiência do pensador dialético", é uma crítica que encontrou em Simmel uma crítica da cultura em relação a outras esferas sociais. Segundo Kang299 “Benjamin considera Simmel um dos fundadores da Kulturkritik [crítica da
cultura...] Benjamin ressalta que Simmel300 apontou corretamente a relevância teórica da distinção
entre as esferas de autonomia no idealismo clássico e o “conceito de cultura que tanto tem favorecido a causa da barbárie””. Segundo este autor, Benjamin se inspira em Simmel para fazer a crítica às tradições filosóficas, levando Benjamin a valorizar a experiência301 como historicamente específica de um sujeito em um contexto e condicionada por fatores como o desenvolvimento tecnológico, aproximando os termos que antes apareciam dicotômicos: Erfahrung (experiência adquirida) e Erlebnis (experiência vivida). Segundo Kang302 atenção especial aos fundamentos
históricos e antropológicos ligados ao desenvolvimento da tecnologia.
A concepção de experiência está apoiada na concepção de experiência de Benjamin, composta a partir dos estudos de Simmel, que critica as “duas tradições filosóficas - a versão excessivamente racional de Erfahrung (experiência sensória externa) e a suposta imediaticidade e
295 BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: BENJAMIN, Walter. Magia, técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.
296 Segundo Lowy (2005:54) Benjamin “escolheu o cronista porque ele representa essa história ‘integral’ que ele afirma ser seu desejo: uma história que não exclui detalhe algum, acontecimento algum, mesmo que seja insignificante, e para a qual nada está ‘perdido’”. Cf.: LÖWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio: uma leitura das teses “sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005.
297 BULLOCK, Marcus et al. (Eds.). Walter Benjamin: selected writings. Cambridge, MA: Harvard University, 2004. p. 291. 298 BULLOCK, Marcus et al. (Eds.). Walter Benjamin: selected writings. Cambridge, MA: Harvard University, 2004. p. 291. 299 KANG, Jaeho. O espetáculo da modernidade: a crítica da cultura de Walter Benjamin. Revista Novos estudos, n.
84, 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/nec/n84/n84a12.pdf>. Acesso em: 01 jan. 2010.
300 Simmel diferencia os domínios estético, científico e ético da cultura. Cf.: KANG, Jaeho. O espetáculo da modernidade: a crítica da cultura de Walter Benjamin. Revista Novos Estudos, n. 84, 2009. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/nec/n84/n84a12.pdf>. Acesso em: 01 jan. 2010.
301 KANG, Jaeho. O espetáculo da modernidade: a crítica da cultura de Walter Benjamin. Revista Novos estudos, n. 84, 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/nec/n84/n84a12.pdf>. Acesso em: 01 jan. 2010.
302 KANG, Jaeho. O espetáculo da modernidade: a crítica da cultura de Walter Benjamin. Revista Novos estudos, n. 84, 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/nec/n84/n84a12.pdf>. Acesso em: 01 jan. 2010.
falta de sentido da Erlebnis (experiência interna vivida)”.303 A partir da integração destes dois
conceitos “a experiência aparece como um conceito de mediação entre a estrutura econômica da sociedade e a criação artística”,304 que revela novos sentidos à experiência e que pode-se compreender aqui como criação discursiva da ambigüidade, no que ela tem de inusitada e original, trazendo novos sentidos para pensar a dinâmica das relações sociais. Portanto seu conceito se relaciona tanto à memória individual quanto coletiva, tanto ao conteúdo inconsciente quanto às estruturas macrossociais.305
A concepção de história em Benjamin “se constrói sem correlação de causa e efeito entre tempos e fatos, sem continuidades lineares entre fenômenos, e prioriza, ao contrário, a concomitância dos acontecimentos na história, em uma palavra, a sua ambigüidade”.306 Ao
mesmo tempo em que o contexto da modernidade implica em barbárie, ela também carrega em si seu potencial revolucionário, de técnicas e sensibilidades, uma faceta que desumaniza o homem e outra que aponta para sua emancipação.307 O ato de escrever a história é um ato de ligação entre as esperanças não realizadas do passado e o apelo a um futuro diferente, para a construção de um presente transformador.
A produção da história individual é determinada por uma modernidade que anula a diferença, levando ao “desaparecimento histórico do indivíduo diferenciado”.308 Reconhecer as
produções discursivas individuais a partir da construção da história do indivíduo e dos grupos é uma forma de reconhecer outras vozes que compõem a história da Economia Solidária. Desta forma, este capítulo acerca da re-construção de uma breve história da Economia Solidária se complementa com a construção da história da cooperativa apresentada no capítulo 1 da análise de dados.
Esta reconstrução histórica da cooperativa foi possível pela história oral. A história oral tem um caráter metodológico interdisciplinar e psicossociológico que teve como um de seus precursores o historiador Jules Michelet (1798-1874). Este historiador reconstruiu uma versão da Revolução Francesa através dos relatos daqueles que não escreveram a história oficial. Outros autores utilizando a história oral como modo de reconstruir a história não-oficial.309
303 KANG, Jaeho. O espetáculo da modernidade: a crítica da cultura de Walter Benjamin. Revista Novos estudos, n. 84, 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/nec/n84/n84a12.pdf>. Acesso em: 01 jan. 2010.
304 MURICY, K. Benjamin: política e paixão. In: CARDOSO, S. et al. Os sentidos da paixão. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 500.
305 BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1985.
306 PAULA, Fátima de. Tensões e ambigüidades em Walter Benjamin: a modernidade em questão. Revista Plural, n. 1, p. 106-130, 1994. p. 107.
307 PAULA, Fátima de. Tensões e ambigüidades em Walter Benjamin: a modernidade em questão. Revista Plural, n. 1, p. 106-130, 1994
308 MURICY, K. Benjamin: política e paixão. In: CARDOSO, S. et al. Os sentidos da paixão. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 500.
309 THOMPSON, Paul. A voz do passado: história oral. São Paulo: Paz e Terra, 1992. BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: T.A. Queiroz, 1987.
LE VEN, Michel. História oral de vida: o instante da entrevista. In: SIMSON, Olga Rodrigues de Moraes von (Org). Os
5.2 AS DIVERSIDADES NAS PROPOSTAS SEMELHANTES À ECONOMIA SOLIDÁRIA: