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4 Experiment Design

5.2 Regression Analysis

É comum o trabalho com os conflitos entre profetas no AT. Todavia, na maioria dos casos, a temática é investigada a partir do conceito da “falsa profecia”. O que se demonstrou nesta dissertação é que essa aproximação não parece válida em alguns casos, nomeadamente em Isaías e Miquéias. Seus conflitos proféticos parecem ser de uma outra natureza.

Foi o movimento deuteronomista que cunhou a descrição do ser-profeta. Textos como Dt 18,15.18 e 2Re 17,13-14 denotam que profeta é aquele que prega a torah e que fala desde a aliança entre Iahweh e Israel. Aliás, não só esses textos esclarecem a concepção deuteronomista dos profetas. Muito provavelmente esse estereótipo influenciou a atividade redacional dos livros proféticos. Caso típico é o da obra jeremiana. Neste livro é possível identificar claramente o estereótipo profético proposto pelos deuteronomistas. Jeremias, ao possuir a missão de anunciar a ruína do reino de Judá tem a garantia da infalibilidade de sua profecia (cf. Jr 28,8-9 e Dt 18,22!). A partir dessas reflexões seria preciso avaliar em que medida esse modelo encontra-se em outros livros proféticos. A proposta da dissertação foi exatamente essa: estariam também os conflitos proféticos descritos em Mq 2,6-11; 3,5-8 e Is 28,7-13 subjugados a perspectiva deuteronomista?

A análise do material indica uma resposta negativa. Pelo que parece, essas perícopes não receberam a interpretação deuteronomista dos “servos de Iahweh”. Em nenhum momento, tanto em Miquéias, quanto em Isaías, o problema é de legitimidade profética. Não existe acusação de “mentira” (sheqer) como é comum em Jeremias (Jr 5,31; 6,13; 14,14; 27,10.16; 28,15). Exceção é Mq 2,11, mas esse pode ser um outro caso: os nebî’îm são mentirosos não por falta de inspiração; são mentirosos porque negligenciam as tradições clânicas israelitas.

Com isso, a pesquisa demonstrou que Mq 2,6-11; 3,5-8 e Is 28,7-13 são textos pré- deuteronomistas que apresentam um outro leitmotiv que não é o da “falsa profecia” ou, se

preferir, “profecia mentirosa”. A crítica sócio-política é a chave para se compreender a polêmica profética apresentada nestes textos. Como se configura essa crítica?

Baseando-se nas noções sociológicas de campo e habitus, pudemos observar que no século VIII a.C. em Judá havia espaços de possibilidade para as visões de mundo. Miquéias e Isaías falavam, pois, de um lugar do campo religioso deste tempo e este lugar diferencia suas acusações aos nebî’îm. Cada profeta possui um habitus distinto que orientará sua pregação e, portanto, o conteúdo dos debates. Se bem que temas em comum surgem, o que comprova a proximidade da datação pré-exílica dos textos e a falta, em ambos os conjuntos, da interpretação estereotipada dos deuteronomistas.

Os temas em comum são: (i) a acusação de bebedeira, com o uso dos mesmos vocábulos (yayin e shekhar – Mq 2,11 e Is 28,7); (ii) a associação dos nebî’îm com grupos dirigentes de Judá (algumas expressões a indicam: la’elleh, Mq 2,6; kôhen venavî’, Is 28,7; ha‘am hazzeh, Mq 2,11 e Is 28,11); (iii) a citação das palavras dos adversários na acusação

(Mq 2,6-7; Mq 3,5; Is 28,9-10) e, finalmente, (iv) a preocupação com a justiça social, com o uso do vocábulo hammenûhah (Mq 2,10 e Is 28,12). Quanto a esta última questão, Isaías

utiliza ainda a raiz nvh no hifil e o substantivo correlato hammarge‘ah; Miquéias fala sobre a falta de consideração dos nebî’îm que não profetizam para os pobres (va’asher lô’-yitten ‘al- pîhem veqdishû ‘alayv milhamah, Mq 3,5).

Se identificamos essas semelhanças nos conflitos proféticos em Miquéias e Isaías, é igualmente possível apontar para contrastes explícitos. Apesar de ambos os profetas perceberem que “toda essa engrenagem, já sente a ferrugem lhe comer” (Zé Ramalho), é certo que a preocupação com os humildes e com o fim do sistema clânico está mais presente em Miquéias. Este possui o habitus mosaico do campo religioso do século VIII e, assim, fala de um lugar que não incorpora as visões de mundo da monarquia. O debate de Miquéias com os

neshê ‘ammî e ‘olaleyha) e, sobretudo, de seus projetos sociais rivais. Miquéias denuncia (Mq

3,8 – ngd hifil) o crime e o pecado dos poderosos, a saber, a espoliação dos camponeses, enquanto que os nebî’îm protegem a máquina tributária e seus responsáveis. Para o profeta camponês, seus adversários perderão o ofício porque, diferentemente dele, não possuem a força, o direito e a fortaleza (Mq 3,8) para protegerem os padrões ancestrais de Israel.

Já Isaías faz parte do pólo ortodoxo do campo religioso e por isso mesmo possui o

habitus davídico-jerosolimitano. Este dado evidencia o grau diferente entre os debates de

Isaías e Miquéias. Se bem que não é possível dizer que o profeta citadino tenha apenas uma diferença ética em relação aos nebî’îm. Sua diferença é de qualidade, uma vez que seu habitus não permanece intacto. Por certo Isaías inicia sua carreira na corte, mas afasta-se cada vez mais daí, reestruturando seus pontos de vista (Is 6,9-10). Ao que tudo indica, o futuro de Jerusalém é o leitmotiv da polêmica profética: os nebî’îm apóiam estratégias políticas equivocadas que estão associadas à injustiça social (Is 28,12). Daí o castigo ser iminente – Jerusalém cairá nas mãos dos assírios (Is 28,11.13). Como se observa, a diversidade de projetos políticos e sociais entre os nebî’îm e Isaías é a tônica do conflito da perícope.

Independentemente desses diferentes motivos da disputa profética, tanto Isaías quanto Miquéias sofreram perseguições. Mq 2,6 e Is 28,9 parecem fazer parte do gênero de

Redeverbot e, se for assim, dizem um pouco destas tentativas de amordaçar os profetas. Em

seus diferentes lugares do campo, Isaías e Miquéias incomodaram. Falaram demais! Todavia, não deixaram-se calar. Prosseguiram a luta sem medo, ao denunciarem e acusarem os nebî’îm de corruptos, vendidos e bêbados. Nestas perícopes é possível ainda enxergar os conflitos pelos quais passaram os profetas do século VIII a.C. São conflitos que nada tem a ver com “inspiração divina”. A polêmica é concreta. Fala de pessoas, sofrimentos, esperanças...