Com influências diretas do rap estadunidense, o rap produzido no Brasil, com forte presença em São Paulo, tem como eixo a questão da negritude e letras com temáticas ligadas à realidade social, com ênfase na violência e nas drogas. A origem do movimento hip-hop no Brasil remete aos bailes black na periferia das grandes metrópoles nos anos 1970. Segundo Dayrell (2005), em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, equipes de som promoviam os eventos nos finais de semana como uma alternativa de lazer e que buscava a valorização da cultura negra, seja nas músicas, nas roupas e nos penteados.
Em Belo Horizonte, de acordo com o autor – que fez um percurso histórico do rap na cidade –, o estilo aportou nos anos 1980, com a proliferação de pequenos salões de dança em bairros da periferia, sobretudo em quadras cobertas, como as do Vilarinho, na região de Venda Nova, e do Chiodi, no Bairro Industrial, em Contagem, que é limítrofe à capital. No Centro de Belo Horizonte, havia o Máscara Negra, tradicional danceteria de black music da época.
No caso dos dançarinos de break, tanto nos bailes quanto nas ruas havia competição entre as gangues, geralmente formadas por grupos de um mesmo bairro. No espaço urbano de Belo Horizonte, os jovens escolhiam pontos estratégicos de visibilidade: a Savassi, região tradicional da cidade; o saguão entre os edifícios Sulacap e Sulamérica, na Avenida Afonso Pena, no Centro; o coreto da Praça da Liberdade e o Terminal Turístico JK.
Na primeira metade da década de 1990, o movimento hip-hop em Belo Horizonte cresceu, porém, de forma muito tímida. No total, cerca de 20 grupos estruturados de rap atuavam na cidade. Havia também alguns adeptos do estilo, mas sem qualquer articulação entre eles e os grupos existentes, tampouco entre as diferentes linguagens, com poucos momentos de encontros e troca de informações. O coletivo mais conhecido na cena hip-hop da época era o Black Soul, que chegou a gravar CDs. No mesmo período, também se popularizavam em todo o país as batalhas, em que o rap é feito de forma improvisada numa disputa de rimas entre MCs.
Além da ausência de articulação e difusão precária de informações sobre o movimento, o hip-hop belo-horizontino era, até 1995, considerado incipiente também por outros fatores. A maioria se identificava apenas com a linguagem a que cada um aderia e pela linha de protesto social que ela expressava, sem a intenção de criar uma organização coletiva. Não havia formação daqueles que começavam a aderir ao estilo, tampouco maior enraizamento nos próprios bairros de origem – com exceção dos grupos do Alto Vera Cruz, na região Leste da cidade, conhecidos por sua coesão – e ações para conquistar um público que os acompanhasse e consumisse a produção musical que realizavam.
Outro fator que contribuiu para a pouca visibilidade dos grupos de rap foi a baixa qualidade de sua produção musical. Em muitos casos, supervalorizavam as letras e as mensagens que queriam transmitir em detrimento da base musical, vista apenas como pano de fundo. Na época, a tecnologia ainda não estava tão popularizada e havia dificuldades financeiras para o acesso aos meios necessários para uma boa produção.
Sob a influência de artistas nacionais, como os Racionais MCs, e o rapper Gabriel, o Pensador, que ganharam visibilidade nas rádios comerciais e programas de TV e permitiram a popularização do hip-hop entre jovens de classe média, o ano de 1995 foi marcado pelo crescimento da cena hip-hop na cidade, com maior número de grupos, festas e shows. Rádios comunitárias, como a Rádio Favela, do Aglomerado da Serra, tiveram importante papel na difusão do rap na cidade.
Entre os espaços criados para o público que consumia rap, destaque para a Broaday, bar temático em Santa Tereza, bairro de classe média na região Leste da capital, especializado em estilos underground, como hard rock, funk e rap. O local chamava a atenção por congregar pela primeira vez jovens da periferia e da zona sul, num contato interclasse inexistente em outros espaços da capital mineira.
Após pressão de moradores vizinhos, a Broaday foi fechada em 1997, mesmo ano em que o número de eventos e festas diminuiu gradativamente pela cidade, trazendo novo refluxo do movimento hip-hop belo-horizontino. O crescimento de grupos, espaços e eventos, verificado a partir de 1995, não se traduziu no fortalecimento do movimento hip-hop na cidade. Nessa época, casas como o Estrela Night Club, Calabouço e Dançarte, no Centro, eram considerados os redutos do hip-hop. Apesar de inegável, a cena rap foi sempre reduzida e com um espaço marginal no circuito cultural de Belo Horizonte.
O Duelo de MCs trouxe novo impulso à cultura hip-hop em Belo Horizonte. Envolvido com o movimento desde 1999, MC Monge conta que, no início dos anos 2000, aconteceram várias iniciativas, como o surgimento de grupo de grafiteiros, dança, rap, DJs, além da realização de encontros, eventos e debates. No entanto, não ganhavam visibilidade externa. Em meados da década, rodas de improviso ganharam adeptos com um encontro quinzenal organizado por alguns coletivos na Praça Sete, no Centro. Com a chegada do Duelo de MCs, em 2007, o hip-hop feito em Minas Gerais, especialmente o de Belo Horizonte, ganhou força.
Dessa forma, boa parte dos grupos de hip-hop da cidade tem no Duelo uma vitrine para seus trabalhos, o que gerou união dos envolvidos e novas parcerias. Muitos deles, inclusive aqueles que até então tinham visões opostas sobre o movimento, se juntaram para a produção de projetos maiores, como a Cidade Hip Hop e o Palco Hip Hop. Nesse sentido, a participação de
grupos de Belo Horizonte em festivais nacionais tem crescido e feito do movimento em Minas uma referência nacional.
Como ponto de encontro entre artistas, o Duelo se tornou referência para a troca de informações, ideias e o desenvolvimento de projetos artísticos coletivos, que antes não aconteciam com a grande intensidade que hoje acontecem em Belo Horizonte e entorno.
Um exemplo é a Casa Amarela, no bairro São Mateus, em Contagem, na região metropolitana. A Família de Rua apoiou os projetos do espaço cultural, que promoveu batalhas de MCs depois que alguns jovens da região que treinavam breaking no espaço começaram a frequentar o Duelo de MCs. Nesse sentido, o Duelo de MCs trouxe estímulo a outros grupos de hip-hop, e a Família de Rua começou a orientá-los para que pudessem promover iniciativas parecidas. Na cidade vizinha de Betim, o “MC Confronta” promove batalhas periodicamente. Em Belo Horizonte há outros encontros para batalhas de freestyle como o “Rapa do Papa”, “Batalha da Estação” e “Batalha da Pista”.
Como um grupo de hip-hop, a Família de Rua segue os principais valores do movimento: paz, união, amor e diversão. A concepção artística vem, segundo MC Monge, de uma realidade cruel, de discriminação, de marginalização, em que a cultura nasce para poder unir pessoas em prol do que elas verdadeiramente são. Criar e afirmar identidades e união para que isso se torne ainda maior.
O MC Monge lembra dos jovens do Bronx, na periferia de Nova Iorque, na década de 1970. Dançavam, rimavam, discotecavam, pichavam e faziam graffiti. E descobriram que, por meio de festas, confraternizações, comemorações, eles se uniam e ganhavam força. De poderem falar que são negros, latinos, asiáticos e pobres nos Estados Unidos, mas que também são hip- hop. A conquista maior era a autoafirmação, de poder andar do jeito que andavam, vestir-se do jeito que se vestiam.
É uma cultura que está espalhada no mundo inteiro, e as pessoas do mundo inteiro se comunicam através do hip-hop. Hoje existem competições e competições, eventos e eventos, principalmente de DJ, graffiti e dança, que unem pessoas no mundo inteiro. E um não precisa falar um do outro porque a arte está falando por eles, você se comunica através da arte, porque os termos são os mesmos, independente de onde você está, seja aqui, na China, nos Estados Unidos, onde for. Top rock, foot work, scratch, tag, bomb, drown up,
war style existem no mundo inteiro. Isso é o grande valor do hip-hop (MC Monge16).
A Família de Rua concebe o hip-hop como uma linguagem artística que ultrapassa as barreiras do preconceito, da exclusão, da segregação. Mesmo que o hip-hop tenha entendido, durante muito tempo, que só negros de baixa renda podiam fazer parte dele, o coletivo acredita que o hip-hop contemporâneo surge para acabar com esse estereótipo. Durante as apresentações do Duelo de MCs, o que se vê são pessoas com perfis diversos se respeitando e consumindo juntos o hip-hop.
O hip-hop é hoje espaço de discussão de questões ligadas ao direito da mulher, discriminação, preconceito racial, desigualdades sociais, homossexualidade. MC Monge explica que o weak é uma dança que foi trazida para o hip-hop por Shabba Doo, coreógrafo da cantora Madonna, após visitas a boates gays dos Estados Unidos. Ou seja, é uma dança do universo gay que foi trazida para o hip-hop.
Nesse contexto, MC Monge destaca as infinitas possibilidades de uso do hip-hop. Valores e reflexões que são trazidos, digeridos e trabalhados conjuntamente. Para ele, o hip-hop se alimenta dessa diversidade.
E se essa cultura não dá conta dessa diversidade, ela definha em si mesma, ela não dá conta dela mesma. No hip-hop a tendência é sempre abrir, receber...a dificuldade existe o tempo inteiro, porque somos humanos e limitados, então sempre haverá barreiras, dificuldades, diferenças, divergências...não existe um dono da parada, não existe alguém que estabelece uma ordem de cima pra [sic] baixo. Mas é amplo, e se a gente souber lidar com essa amplitude, a gente pode crescer ainda muito mais, abrigar muito mais, ser muito mais sábio, mais inteligente, ocupar de uma forma muito mais massa os espaços, justamente pelas possibilidades (MC Monge17).
Dessa maneira, MC Monge demonstra como o Duelo de MCs é parte de um movimento hip-hop que encarna o processo de desterritorialização e reterritorialização cultural, com o alargamento de fronteiras e a busca de referenciais heterogêneos. O grupo dá ênfase à troca de informações e joga por terra o estereótipo das territorialidades. Entende que o espaço de socialização de jovens criado pelo Duelo de MCs no Centro de Belo Horizonte, ainda que traz as
16 Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 25 out. 2012. 17 Entrevista concedida ao autor, conforme metodologia apresentada, em 25 out. 2012.
demandas da juventude periférica, pode ser compartilhada com pessoas das mais diversas origens econômicas, sociais e culturais.
Portanto, o Duelo de MCs cria um espaço de convivência e respeito às diferenças. Com influências de uma expressão cultural da juventude negra e periférica estadunidense, que teve sua história marcada pelo preconceito racial e exclusão, os organizadores idealizam um ambiente de tolerância e respeito e seguem os valores do hip-hop, como paz, união e amor. Dessa forma, estabelecem um local de prática democrática e cidadã no espaço público na cidade.