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Entrevistadora: Qual ano que você está? Aluno: Eu? Tô no oitavo ano.

Entrevistadora: Quantos anos você tem, Ademar? Aluno: 13.

Entrevistadora: Você nasceu em qual cidade? Aluno: São Paulo.

Entrevistadora: Aqui em São Paulo, mesmo, na capital? Aluno: Aham.

Entrevistadora: Seu pai é boliviano? Aluno: Sim.

Entrevistadora: Você sabe de qual cidade? Aluno: Acho que é de La Paz.

Parte da entrevista não foi gravada, por problemas no aparelho de gravação. O registro realizado a partir do relato dos entrevistados.

A resposta do entrevistado à pergunta sobre se a mãe também é boliviana de La Paz e à solicitação para que falasse sobre a sua história...foi registrada por escrito, a partir do que a entrevistadora lembrou. Como a entrevista foi transferida para o pátio, o barulho

atrapalhou um pouco, pois em vários momentos necessitava repetir as respostas do entrevistado para confirmar sua resposta.

A mãe é boliviana foi confirmada pelo aluno. Disse que os pais o levaram para a Bolívia para rever os avós e conhecer o país onde nasceram.

Entrevistadora: [...] Vocês foram conhecer sua avó lá na Bolívia? Você era pequenininho, ou já era grande?

Aluno: É que assim [...] eu conheci a vó pequenininho, aí eu conheci a mãe do meu pai, mesmo. Só que os pais da minha mãe morreram já. Aí eu vou lá com meus pais [...] que é chamada Chapaque [?], que é onde meus avós moram.

Entrevistadora: Chapaque.

Aluno: Uhum, é, eu acho que é uma parte de La Paz. Entrevistadora: Como um vilarejo?

Aluno: É, aí meu pai nasceu lá. Aí a mãe dele [...] ela não tinha dinheiro, aí meu pai foi trabalhar lá em La Paz, que é uma cidade grande, que tinha bastante emprego. Aí ele resolveu vir pra cá, porque ele falou que aqui tinha bastante condição, no Brasil tinha emprego aí ele ficou costurando junto com a minha mãe.

Entrevistadora: Ele gostou de costura? Aluno: Uhum.

Entrevistadora: Eles têm uma oficina ou eles [...] Aluno: Tem uma oficina.

Entrevistadora: Você costura? Aluno: Eu não.

Entrevistadora: Você tem interesse em costurar? Aluno: Eu não prefiro jogar bola.

Entrevistadora: O que você se lembra da Bolívia? O que você gostou e o que te interessou? Aluno: Eu gostei da vista da noite, na cidade, tudo brilhando. Aí minha mãe comprou uma casinha lá, na montanha, aí depois que ter uma grana [...] depois que [ininteligivel] ela falou que a gente vai poder ver a cidade inteira de lá. Aí também tem mais três terrenos, um em Santa Cruz, e outro em Cochabamba.

Entrevistadora: Você conhece Cochabamba?

Aluno: Conheço. Meu tio [...] ele veio aqui em São Paulo. Ele ficou aqui e depois ele voltou pra lá, já tem uma casa dele, também. Aí eu conheci a família dele.

Entrevistadora: Suas irmãs também nasceram aqui? Aluno: Uhum.

Entrevistadora: Você se sente mais brasileiro ou mais boliviano?

Aluno: Eu me sinto brasileiro, só que eu tenho característica de boliviano. Aí, eu falo português melhor que espanhol, porque eu nasci aqui, aqui eu aprendi a falar português, eu não falo com meus amigos em espanhol, entendeu? Se eles falam espanhol, eu falo assim que eu não sei, porque eu nasci aqui, sei falar só português.

Entrevistadora: Você não fala espanhol?

Aluno: Não, mas meu pai tenta me ensinar. Aí ele falou que se aprender várias línguas vai ter mais oportunidade de emprego, de [...] falou porque eu vou poder ter um bom salário pra não ficar trabalhando o dia inteiro, assim.

Entrevistadora: Você gosta de morar aqui em São Paulo? Aluno: Uhum.

Entrevistadora: Você moraria na Bolívia? Aluno: Acho que eu prefiro morar aqui.

Entrevistadora: Se fosse para você explicar para alguém sua característica, a parte sua que é mais marcante, que gostaria de expressar, o que você falaria?

Aluno: Num sei direito o que eu ia falar. Acho que eu falaria que eu gosto de morar aqui porque aqui eu tenho vários amigos e lá eu não tenho nenhum, eu teria dificuldade de entrar numa escola, porque eu sei falar português e não espanhol, aí eu prefiro ficar aqui com meus amigos, que eu já tenho. Já tenho vários.

Entrevistadora: Interessante. Mas você chegou a conhecer alguma escola na Bolívia, quando você foi lá, visitar?

Aluno: Meu tio [...] ele trabalha lá numa escola. E ele ainda deve tá lá eu acho, aí quando [...] uma vez por semana, ele cuida lá da escola, aí eu posso entrar lá. Aí tem várias salas, eu já tentei [inaudível – muito ruído] pode ir de uniforme, tem que ir de gravata. Aí eu acho legal. Entrevistadora: Você acha legal? Você acha que isso deveria ter aqui, por exemplo?

Aluno: Ah, num sei. Se alguém [...] se todo mundo gostar. Entrevistadora: E seus colegas são legais com você? Aluno: Uhum.

Entrevistadora: Você têm muitos ou poucos? Aluno: Tenho vários amigos.

Entrevistadora: Brasileiro, boliviano... ou a maioria é brasileiro? Aluno: Num tenho muito amigo boliviano.

Aluno: Num sei, é que quando vem conversar comigo, vem falando em espanhol e eu num sei falar direito. Aí quando vem um amigo brasileiro eu já sei falar direito, assim... é, eu tenho vários amigos, eu tenho [inaudível – muito ruído].

Entrevistadora: Então você têm bastante amigos? Aluno: A maioria das loja me conhece.

Entrevistadora: A maioria dos alunos bolivianos fala espanhol? Aluno: É, num entendo direito eles [...]

Entrevistadora: Mas eles são mais quietos também, você não acha? Que eles são mais tímidos? Você acha que é porque não falam português?

Aluno: É, eu acho que é.

Entrevistadora: Se falassem português direito você acha que eles iam se comunicar mais? Você já tentou falar com esses amigos em espanhol?

Aluno: Eu conheci algum, eles tão aprendendo a falar português agora, só que não tão falando direito, assim. Ainda tão aprendendo.

Entrevistadora: Ainda estão aprendendo? Mas não tem na escola uma professora que ajude a falar português?

Aluno: Ah, às vezes ajuda.

Entrevistadora: Os professores são legais? Aluno: Uhum.

Entrevistadora: Por exemplo, eu estou dando aula, eu não falo espanhol e tenho algum aluno que não fala a língua portuguesa, nós não conseguimos nos entender direito. Quando ocorre isso os professores fazem alguma coisa para ele entender?

Aluno: alguns sim, outros não. Alguns continuam dando aula. Aí tem outros que já vai lá e ajuda ele a falar português. E tem professores que fala que é pra eles aprenderem [ruído]... Entrevistadora: Alguns continuam dando aula como se dissessem “Não é problema meu”? Como se ele tivesse entendendo? E os alunos, eles se manifestam falando “Oh, professor eu não entendi”?

Aluno: Acho que não porque eles têm vergonha, às vezes.

Entrevistadora: Tem vergonha de falar, mas o que você acha? Que essa vergonha é do que? Por causa da língua, por que tem vergonha ou medo do professor ser rude?

Aluno: Ah, acho que tem vergonha porque fala espanhol [...]

Entrevistadora: Porque fala outra língua? A professora de português acaba ajudando na sua aula?

Aluno: Na sala... é que eu já sei falar português, então, aí num tem ninguém lá que fala espanhol. Ela consegue explicar tudo e eu entendi.

Entrevistadora: Na sala não tem? Mas em outros anos que você teve, havia outros alunos que falavam em espanhol?

Aluno: Alguns... ela ajudava.

Entrevistadora: Bom, é isso. Se eu precisar conversar com você de novo, você conversa comigo?

Aluno: Sim.

Entrevistadora: Obrigada.