4. DISPOSITIVOS UTILIZADOS
4.7. REGISTRADOR DE DATOS DE TEMPERATURA PT-104
Após o advento da tipografia, a Revolução Industrial marcou os séculos XIX e XX, com alterações radicais na paisagem social e econômica, na transição de uma sociedade agrícola para a industrial. O advento da energia elétrica, aperfeiçoada após o surgimento da energia a vapor, impulsionou a dilatação dos centros urbanos, o surgimento de classes, o aparecimento de novos materiais e novos processos de produção e reprodução de imagens. A invasão de jornais, folhetins, cartazes, revistas, livros ilustrados e impressos de todas as categorias, consolidaram a imprensa e a ilustração comercial. Meggs e Purvis esclarecem a paisagem industrial da seguinte maneira:
[...] durante o século XIX, a especialização dos sistemas fabris separou as comunicações gráficas, em um componente de desenho e outro de produção [...]. A variedade de corpos e estilos tipográficos disparou. A invenção da fotografia e, mais tarde, os meios para imprimir imagens fotográficas expandiram o sentido da documentação visual e a informação gráfica. Graças ao uso da litografia em cor, a experiência estética das imagens coloridas passou de uma pequena parte de privilegiados ao conjunto da sociedade (MEGGS; PURVIS,2009, p.134, tradução nossa8).
Percebemos nesse excerto, mais uma vez, a indissociabilidade entre a figura do desenhista ou criador com a do impressor, através do qual o conhecimento das técnicas de impressão influenciam diretamente na concepção da imagem. Não apenas a imagem passava por transformações, mas também a sua disposição na página ao lado de textos ganhava significado. Para Linden, “o desenvolvimento dos procedimentos de impressão possibilita que obras reunindo caracteres tipográficos e imagens na mesma página se multipliquem.”(LINDEN, 2011, p.13). Um exemplo é o trabalho do editor francês Pierre Hetzel (1814-1886), que fundamentado nos estudos de pedagogia correntes
8[...] durante el siglo XIX, la especialización de los sistemas fabriles fracturó las
comunicaciones gráficas en um componente de diseño y otro de producción [...]. La variedad de cuerpos y estilos tipográficos se disparo. La invención de la fotografia y, posteriormente, los medios para imprimir imágenes fotográficas expandieron el sentido de la documentación visual y la información gráfica. Gracias al uso de la litografia em color, la experiencia estética de las imágenes multicolores pasó d unos pocos privilegiados al conjunto de la sociedade.
18 da época, procurou realizar em seus livros a combinação de imagens
e textos na mesma página, sob o intuito de diferenciar o tratamento gráfico do livro infantil das demais produções literárias (fig.6). As cores – um recurso em potencial – eram aplicadas manualmente por cima das gravuras, motivo pelo qual os livros ilustrados coloridos demandavam um longo tempo de produção e tornavam-se caros.
Figura 6: Página dupla de Juca e Chico: história de dois meninos em sete travessuras (1865).
Fonte: <http://www.revistaemilia.com.br/mostra.php?id=366>Acesso em: 07.09.15
Frente à inundação imagética da cultura visual daquele tempo, surgiram movimentos de resistência em favor da artesania, como o
Arts and Crafts, ocorrido na Inglaterra em meados do séc. XIX. O movimento criado por William Morris (1834-1896) buscava um retorno ao acabamento sensível do trabalho artesanal, em resposta à
massificação da produção industrial (MATSUSHITA, 2011, p.77). Ilustradores como Walter Crane e Kate Greenaway, criadores da série
Toy Books (1870), ou “Livros para Brincar” foram bastante influenciados pelo Arts and Crafts, na utilização de formas orgânicas, naturais e decorativas. Mesmo existindo por pouco tempo, o movimento favoreceu o surgimento de outros importantes afluentes que mesclavam arte e design, como o Art Nouveau na França e, mais tarde, a Bauhaus alemã.
As Vanguardas Artísticas do século XX desconstruíram o modelo canônico das belas artes, acarretaram mudanças políticas, sociais, culturais e artísticas, isto é, consolidaram as bases do Modernismo. O design, as artes gráficas em geral e a ilustração incorporaram as propostas das vanguardas, ultrapassando o vínculo com realismo figurativo, abrindo possibilidades de experimentações com o surrealismo e a abstração, por exemplo.
19 Na página do livro infantil, essas mudanças significaram a
elevação do status da imagem, resultando em mais liberdade de uso da página dupla, negociado de maneira mais equilibrada e criativa entre textos e ilustrações. Sophie Van der Linden, em nota sobre o divisor de águas na história do livro ilustrado, aponta o comentário do britânico Maurice Sendak, ilustrador e autor de Onde vivem os
monstros (1963), sobre o trabalho de Randolph Caldecott (1846- 1886):
A obra de Caldecott assinala o início do livro ilustrado moderno. Ele concebeu uma engenhosa justaposição de imagem e palavra, um contraponto que nunca acontecera antes. Abstraem-se as palavras – e a imagem fala. Abstraem-se as imagens – e as palavras falam. Em suma, trata-se da invenção do livro ilustrado (SENDAK, 1988, apud, LINDEN, 2011, p. 161).
A voz da imagem, somada ao constante avanço dos meios tecnológicos apontaram o caminho das experimentações posteriores. Editores passam a conferir aos desenhos o predomínio do espaço, explorando o formato quadrado ou horizontal de livro, no qual a diagramação se dispõe a favor da expressividade e da sequancialidade da página. Linden traz como exemplo A história de
Babar, o pequeno elefante (1931), de Jean de Brunhoff, no qual “A página dupla se vê legitmamente invadida como espaço narrativo
cujos textos e imagens, sustentando em conjunto a narração, se tornam indissociáveis.” (LINDEN, 2011,p.15).
Dentro e ao redor do livro ilustrado, o dilúvio imagético provocado pelos avanços técnicos de impressão atribuiu à sociedade transformada pelos séc. XIX e XX, o termo “civilização da imagem”9. A presença maciça destas, inicialmente nos impressos e
depois nas telecomunicações e mídias para o consumo, causou certo abalo nas antigas filosofias que defendiam a supremacia da comunicação escrita, em todo seu potencial sintático e retórico, em defesa da clareza de raciocínio. Sobre essa concepção, resgatamos a observação de Medeiros, que nos lembra do tempo que a escrita já fora alvo da desconfiança: “Tal como outrora a escrita fora considerada um meio de esgarçar a memória individual e coletiva, agora a imagem era acusada de fomentar a preguiça mental” (MEDEIROS, In. SANTAELLA; NOTH, 2008, p.217).
Como foi observado, tanto a linguagem verbal como a visual demandam o olhar e a imagem, especificamente, instaura sentidos através da aparência, da visualidade, de modo que os significados não se encontram fixados absolutamente às regras do cientificismo. É
20 nesse ponto que o entendimento da imagem como objeto de
importância menor em relação ao texto, ainda resistente nos dias de hoje, perde força quando se observa a trajetória das imagens pela reconquista do espaço no livro, especialmente o livro infantil.