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Comparando-se as línguas orais-auditivas (português, inglês, entre outras) e as LS, há algumas características similares e outras que as diferenciam. São aspectos importantes a serem investigados quando se confrontam as LS e línguas orais: os princípios e universais linguísticos compartilhados entre as LS e as línguas orais, as especificidades de cada língua e as restrições de cada modalidade em sua percepção e produção (QUADROS; KARNOPP,2004, p. 62).

Os universais linguísticos encontrados nas línguas orais são, também, identificados nas LS, confirmando que a LS é uma manifestação da faculdade da linguagem, tanto quanto as línguas orais-auditivas, dentre os quais, destacamos dois: “Não há línguas primitivas - todas as línguas são igualmente complexas e igualmente capazes de expressar qualquer ideia. O vocabulário de qualquer língua pode ser expandido a fim de incluir novas palavras para expressar novos conceitos” e “Qualquer criança normal, nascida em qualquer lugar do mundo, de qualquer origem racial, geográfica, social ou econômica, é capaz de aprender qualquer língua à qual é exposta.” (SALLES et al.,2004, p. 85-94).

Além dos universais linguísticos, um aspecto em comum entre as LS e línguas orais são as variações linguísticas regionais. Conforme destaca (GESSER, 2009, p. 39), “dizer que todos os brasileiros falam o mesmo português é uma inverdade, na mesma proporção em que é inverdade dizer que todos os surdos usam a mesma Libras. Afirmar essa unidade é negar a variedade das línguas, quando de fato nenhuma língua é uniforme, homogênea.“ Logo, assim com o a LP e outras línguas orais, a LS também possui expressões que diferem de região para região (os regionalismos), o que a legitima ainda mais como língua.

Em relação às características que as diferenciam, destacamos três características: iconicidade/arbitrariedade, linearidade/simultaneidade e uso do espaço (SALLES et al., 2004, p. 83). A linearidade e arbitrariedade são conceitos desenvolvidos por Saussure (2012) a partir da perspectiva das línguas orais.

A arbitrariedade define que não há relação entre o significante e o significado de um signo, ou seja, entre o conceito expresso pelo signo (SAUSSURE, 2012). Por exemplo, não há uma relação entre a palavra “mesa” e o objeto a que se refere. Lima (2014, p. 55) destaca que a arbitrariedade “não deve dar a ideia de que o significado dependa da livre escolha do indivíduo falante, mas que o significante é imotivado, ou seja, não tem nenhum laço natural

com o significado.”

A iconicidade, por outro lado, prevê uma relação entre forma e significado. Diferente- mente das línguas orais, cujas palavras são em sua maioria arbitrárias, muitos sinais têm uma forte motivação icônica (e.g: árvore, telefone). Isso se dá pela sua modalidade viso-espacial e o canal perceptual próprios da LS, onde “a articulação das unidades da substância gestual (significante) permite a representação icônica de traços semânticos do referente (significado), o que explica que muitos sinais reproduzam imagens do referente” (SALLES et al.,2004). Esse foi um aspecto que pautou muitos questionamentos sobre o real status linguístico da Libras. Contudo, a arbitrariedade e iconicidade estão presentes nas duas modalidades de línguas. (e.g: as onomatopeias na LP). Logo, nem as LS são completamente icônicas, nem as línguas orais são completamente arbitrárias.

Pensando exclusivamente nas línguas orais, todo signo, de natureza auditiva, se organiza linearmente numa cadeia no tempo. A linearidade caracteriza-se por uma produção de fonemas em uma só dimensão, em uma linha. A simultaneidade é um aspecto que caracteriza a produção de mecanismos simultâneos produzidos nas línguas. Ao pronunciarmos, por exemplo, a palavra “escola”, os sons (cada fonema) são produzidos linearmente, um de cada vez. Já o sinal relativo à escola prevê a articulação simultânea de vários “fonemas” que compõem esse sinal. O signo visual trouxe então novos questionamentos aos estudos linguísticos. Conforme destaca Salles et al. (2004), a simultaneidade manifesta-se nas duas modalidades (oral-auditiva e viso-espacial).

Em línguas de sinais, são utilizadas marcas não-manuais, como expressões fisionômicas e movimentos do pescoço, em sincronia com o movimento manual, enquanto em línguas orais, é utilizada a modulação do contorno melódico (entoação e intensidade) da cadeia linguística, em sincronia com os segmentos fônicos (SALLES et al.,2004, p. 84).

Logo, as línguas orais apresentam características mais lineares que simultâneas, já que os fonemas são produzidos numa cadeia linear. A simultaneidade evidencia-se pela produção de sons e a entonação. Nas línguas de sinais, também, evidencia-se uma estrutura linear temporal

(FERREIRA-BRITO, 2010).

O uso do espaço é um elemento essencial na estruturação da comunicação em LS. As línguas de sinais são línguas tridimensionais. A comunicação em LS explora o uso do espaço à frente da pessoa que sinaliza para as suas construções linguísticas. Essa característica possibilita uma nova perspectiva de compreensão desse sistema espaço-visual, onde se estabelecem as relações gramaticais da LS. O uso do espaço também pode ser usado metaforicamente para destacar a oposição ou comparação entre duas pessoas ou diferentes períodos de tempo

(BERNARDINO, 2010).

“Uma maneira com a qual as línguas de sinais aproveitam-se de sua natureza espacial é através do uso de classificadores (CLs). Os classificadores permitem ao falante de língua de sinais mostrarem atributos do referente como tamanho, tipo, forma, movimento e extensão”

2.3. Língua de sinais 69

(LIMA, 2014, p. 38). Algumas CMs são usadas para representar a forma e o tamanho dos referentes ou as características dos movimentos dos seres em um evento. Por exemplo, “com a função de descrever o referente do nome (atuando como adjetivos), substituir o referente do nome (atuando como pronomes) ou localizar os referentes (como locativos).” Os classificadores, na LS, são utilizados para descrever ideias para os quais não há ainda sinais específicos

(BERNARDINO,2000). Ou seja, referem-se a sistema de sinais que não são lexicalizados (não

formalmente), mas estão sujeitos ao discurso pragmático de condições de uso. Por exemplo, a lexicalização da forma para CARRO em Libras (e ASL) que são representadas com as duas mãos em “S” (como se o sinalizador estivesse ao volante). Num contexto de uso em que situação de carros um atrás do outro (em fila, em congestionamento), usa-se a forma um classificador (usando a configuração de mão (CM) em “B” com a palma para baixo). A Figura 2.1apresenta esse exemplo.

Figura 2.1 – Classificadores

Fonte:Felipe(2007, p. 173)

Ferreira-Brito (1995) explica que os classificadores na Libras são marcadores de con-

cordância de gênero para pessoas, animais ou coisas. Alguns classificadores são icônicos em seu significado pela semelhança entre a forma ou tamanho do objeto ou ser; outros referem-se ao objeto ou ser como um todo e outros referem-se, apenas, a uma parte ou característica do objeto ou ser. Os classificadores são fundamentais na construção da estrutura sintática e possibilitam relações gramaticais altamente abstratas. Logo, a composição do léxico na LS origina-se de empréstimos linguísticos, os classificadores e os sinais.

Uma das diferenças entre as línguas orais e as línguas de sinais evidencia-se, também, na estruturação do sistema de escrita. Na LS, há um sistema de representação denominado SignWriting (SW). Contém, aproximadamente, 900 símbolos e é composta de informações referentes às mãos, movimento, expressão facial e corpo. “A expressão facial e os movimentos

do corpo são muito importantes para as línguas de sinais; por esse motivo, eles também são notados” (STUMPF, 2008, p. 3). Destacamos essa diferença que se configura em um desafio de comunicação para os surdos através da escrita:

Um dos grandes problemas enfrentado pelos surdos é não poder se expressar através da escrita de sua própria língua, a língua de sinais. Por isso precisam fazer uso de sua segunda língua, a língua oral, para escrever, o que é muito difícil para eles, pois o código escrito de uma língua oral está fundado em um foneticismo, grafia baseada nos sons, o que dificulta seu aprendizado. Este aprendizado é extremamente doloroso, pois para o surdo, a escrita de uma língua falada passa a ser uma união de símbolos sem significados. Para um domínio da escrita é preciso um conhecimento da língua falada, o que para eles não pode acontecer de maneira natural. Por este motivo, eles ficam limitados, muitas vezes, de realizar produções escritas (AMORIM, 2012, p. 27).

Apesar do SW não ser uma forma de comunicação muito utilizada pelos surdos, tem ganhado visibilidade como objeto de pesquisas e como uma forma de registro das LS.

2.4

Língua Brasileira de Sinais (Libras)

Libras é uma língua que se constituiu naturalmente junto à comunidade surda do Brasil. Pode ser adquirida por qualquer pessoa surda ou ouvinte, quer seja criança ou adulta. A Libras, com seu status linguístico reconhecido, é uma língua “completa, complexa, abstrata e rica”, assim como outras línguas orais-auditivas. A evidência do estatuto linguístico da Libras vem sendo objeto de estudo de várias pesquisas. Possui uma gramática que apresenta todos os planos de organização da língua, nos níveis pragmático/semântico (estuda o significado no texto e contexto), sintático (estuda os elementos estruturais das frases), morfológico (estuda as classes dos sinais) e fonológico (estuda as unidades mínimas da língua) (FERREIRA-BRITO,

1995; QUADROS, 1997; QUADROS; KARNOPP, 2004; BERNARDINO, 2000).

Toda essa estrutura gramatical da Libras é própria e independente da LP. Logo, não pode ser estudada tendo como base a LP, pois tem gramática diferenciada, independente da língua oral. “A ordem dos sinais na construção de um enunciado obedece a regras próprias que refletem a forma de o surdo processar suas ideias, com base em sua percepção visual-espacial da realidade“ (STROBEL; FERNANDES,1998). Há vários mecanismos espaciais na construção de frases em Libras: fazer o sinal em um local particular; direcionar a cabeça, os olhos em direção a uma localização particular; usar a pontuação para um referente presente; usar os verbos direcionais e com flexão (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 128–130). A estrutura da Libras, assim como de outras línguas de sinais, é constituída a partir de cinco parâmetros que se combinam, principalmente com base na simultaneidade (FERREIRA-BRITO, 2010, p. 24): (1) configuração de mão (CM), (2) ponto de articulação (PA), (3) movimento (M), (4) orientação (Or) e (5) expressões não-manuais (ENM) (FERREIRA-BRITO,1995;QUADROS; KARNOPP,

2.4. Língua Brasileira de Sinais (Libras) 71

Figura 2.2 – Parâmetros fonológicos da Libras

Fonte: Adaptado deCapovilla, Raphael e Mauricio, 2012.

(1) Configuração de mão (CM): a configuração de mão está relacionada à forma que a mão assume durante a realização de um sinal. O alfabeto manual foi criado a partir das configurações de mãos (FERREIRA-BRITO,1993). O alfabeto manual (datilologia) corresponde às letras do alfabeto em LP e permite a soletração de palavras da língua oral. Libras apresenta 46 CMs, conforme apresenta a Figura 2.3.

(2) Ponto de articulação (PA) ou locação (L): o ponto de articulação é a área do corpo ou no espaço onde será realizado o sinal. Contém todos os pontos dentro do raio de alcance das mãos em que os sinais são articulados (cabeça, mão, tronco, braço e espaço neutro). As principais locações se dividem em cabeça (topo da cabeça, testa, rosto, olhos, nariz, bochecha, queixo etc); tronco (pescoço, ombro, busto, estômago, cintura); braço, antebraço, cotovelo, pulso; mão (palma, costas das mãos); dedos (anular, médio, indicador, polegar, mínimo); ponta dos dedos e o espaço neutro (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 57–58)

(3) Movimento (M): o movimento é o deslocamento da mão no espaço, durante a realização do sinal. Os sinais em Libras podem ter movimento ou não. Os movimentos podem envolver as mãos, pulsos e movimentos direcionais no espaço. Eles podem ser unidirecional (movimento em uma direção no espaço, durante a realização de um sinal), bidirecional (realizado por uma ou ambas as mãos, em duas direções diferentes) ou multidirecional (exploram várias direções no espaço, durante a realização de um sinal). Por exemplo, retilíneo (e.g. encontrar), helicoidal (e.g. alto), circular (e.g. brincar), semicircular (e.g. sapo), sinuoso (e.g. Brasil), angular (e.g. difícil). Os movimentos, também, se caracterizam por qualidade, a tensão e a velocidade do movimento e frequência (número de repetições de um movimento) (QUADROS;

KARNOPP, 2004, p. 56). Além disso, as mudanças no movimento também podem distinguir

Figura 2.3 – As 46 configurações de mãos da Libras

Fonte:Passos(2013, p. 58) adaptado deFerreira-Brito(2010, p. 220)

(4) Orientação (Or): a orientação é a direção da palma da mão durante a execução do sinal: para cima, para baixo, para o lado, para a frente entre outros . A mudança de orientação também pode ocorrer durante a execução de um sinal. A inversão na direção de algum sinal pode significar ideia de oposição, contrário ou concordância número-pessoal (e.g. sinal de gostar/não gostar).

(5) Expressões não-manuais (ENM): as expressões não-manuais caracterizam-se na expressão facial ou o movimento do corpo: movimentos da face, dos olhos, da cabeça ou do tronco. As ENM podem traduzir alegria, tristeza, raiva, amor, dúvida. Duas expressões não manuais podem ocorrer simultaneamente, por exemplo, as marcas de interrogação e negação. São usadas para duas finalidades: “marcação de construções sintáticas e diferenciação de itens lexicais. As expressões não manuais, que têm função sintática, marcam sentenças interrogativas sim-não, interrogativas QU-, orações relativas, topicalizações, concordância e

2.5. Os surdos e suas relações com a linguagem 73

foco“ (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 60). As ENM são movimentos do rosto (sobrancelhas franzidas, olhos arregalados, lance de olhos, sobrancelhas levantadas; bochechas infladas ou contraídas, lábios contraídos e projetados e sobrancelhas franzidas, correr a língua contra a parte inferior da bochecha, franzir o nariz, contração do lábio superior), da cabeça (balanceamento para frente e para trás, balanceamento para os lados, inclinação para frente, para o lado ou para trás) ou do tronco (para frente, para trás, balanceamento alternado ou simultâneo dos ombros, balanceamento de um único ombro) (QUADROS; KARNOPP, 2004).

2.5

Os surdos e suas relações com a linguagem

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