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“Stella”

Stella

Ouvre ton aile et pars... Th. Gauthier Já raro e mais escasso

A noite arrasta o manto, E verte o último pranto Por todo o vasto espaço. Tíbio clarão já cora A tela do horizonte, E já de sobre o monte Vem debruçar-se a aurora. (...)133

“Stella” é o segundo poema das Crisálidas e sua leitura vem carregada de detalhes. O primeiro deles, e que salta aos olhos, está no título do poema. Stella é a origem do vocábulo estrela. Esse dado nos aponta a primeira publicação do poema, que aconteceu em 1º de de- zembro de 1862, no periódico O Futuro de número VI. Nessa primeira publicação, o título do poema fora “A estrela do poeta” e ele ainda não contava com a epígrafe de Theóphile Gautier, a qual também fora suprimida na terceira publicação do poema, nas Poesias Completas, de 1901.134 Ainda com relação ao título, como já apontava Massa em seu A juventude de Macha-

do de Assis (1971), a “Stella” machadiana pode ter sido escrita nas “pegadas” de Victor Hugo

(1802-1885). O poeta francês publicara sua “Stella” nos idos de 1853 no volume Les Châti-

ments. Além do título em comum e de os dois poetas terem optado por grafar o vocábulo em

133 ASSIS, 1864, p. 23.

134 Além dessa ausência da epígrafe, a publicação de 1862 difere da de 1864 em alguns versos. Em 1862, o quar-

to verso da segunda estrofe era: “debruça-se alva aurora”, e o primeiro e o terceiro versos da quinta estrofe eram, respectivamente “a ti, que o devaneio / (...) / A vaga azul e inquieta”. Não bastasse, após essa quinta estrofe há, em 1862, duas outras estrofes que não foram impressas nas publicações seguintes:

Decoras, astro amigo. Águas do mar, tomai-a A estrela que desmaia E volta ao sono antigo. Vai, loura enamorada, Vive de uma outra vida, Na vaga adormecida Da brisa acalantada. (MASSA, 1971, p. 394)

O poema “A estrela do poeta” se encerra com esses dois versos, enquanto suas demais publicações, apesar de não contarem com essas duas estrofes, têm outras cinco.

latim, alguns elementos aproximam a composição francesa e a brasileira. O primeiro e mais evidente deles é a estrela, que aparece nos poemas como um “guia” dos poetas, a responsável por dar voz aos poetas. Nos versos franceses, temos: “Ó nações! Eu sou poesia ardente. / Eu brilhei sobre Moisés e eu brilhei sobre Dante”.135 A mesma estrela que brilhou sobre Dante

brilhou sobre o eu poético machadiano: “mas tu, que o devaneio / Inspiras do poeta”.136 Te-

mos, assim, essa estrela sempre responsável pela poesia. Desse modo, o amanhecer será, en- tão, responsável por despertar o poeta de seus sonhos já no poema francês: “um vento fresco me acordou, eu deixei meu sonho”.137 Esse despertar dos sonhos está na quarta estrofe da

“Stella” brasileira, quando, com as estrelas, vão embora os sonhos do eu poético: “e vão, e vão com elas / Teus sonhos, coração”.138 Naturalmente, com o amanhecer vem o sol, “a vir-

gem da manhã”, “radioso e ardente”, “astro do dia”; no francês, l’étoile du matin, ou, “a es- trela da manhã”.139

Outro aspecto que une as duas composições é a dicotomia escuridão/luz. Ao mesmo tempo que temos a escuridão, que torna possível a visão das estrelas, os sonhos e a inspiração do poeta, temos a luz, que vem com a l’etóile du matin ao amanhecer o dia. O embate entre os elementos da noite, que vão aos poucos sumindo, e os do dia, que também aos poucos ga- nham espaço, está presente nos dois poemas. No poema francês, os versos que melhor ilus- tram essa dicotomia são: “era noite ainda, a sombra reinou em vão, / O céu foi iluminado com um sorriso divino. / A luz prateada do topo do mastro inclinando-se; / O navio era negro, mas o véu era branco”.140 O jogo de claro e escuro, ou escuro e claro, aparece no poema machadi-

ano já nas duas primeiras estrofes. Na primeira, “a noite arrasta o manto”, embora “já raro e mais escasso”, e na segunda estrofe o “clarão já cora”, embora ainda tíbio (fraco).141 Notemos

ainda, nesses dois versos, o segundo da primeira estrofe e o primeiro da segunda, a presença, em ambos, do advérbio “já” e a subjetiva antítese construída pelo adjetivo “tíbio” e o substan- tivo “clarão”. “Clarão”, normalmente, remete-nos a algo forte, que, aqui, tem sua força enfra- quecida pelo adjetivo que o acompanha.

135 No original: “Ô nations! je suis la poésie ardente. / J’ai brillé sur Moïse et j’ai brillé sur Dante” (HUGO,

2001, p. 154, tradução nossa).

136 ASSIS, 1864, p. 24.

137 No original: “un vent frais m’éveilla, je sortis de mon rêve” (HUGO, 2001, p. 152, tradução nossa). 138 ASSIS, 1864, p. 24.

139 Na Bíblia, a expressão “estrela da manhã” se refere a Jesus no Apocalipse: “eu Jesus enviei o meu anjo, para

vos dar testemunho destas coisas nas igrejas. Eu sou a raiz, e a geração de Davi, a estrela resplandecente, e da manhã” (APOCALISPSE 22, 16).

140 No original: “il faisait nuit encor, l’ombre régnait en vain, / Le ciel s’illuminait d’un sourire divin. / La lueur

argentait le haut du mât qui penche; / Le navire était noir, mais la voile était blanche” (HUGO, 2001, p. 152, tradução nossa).

Assim, nos dois poemas o eu poético é posto no papel de testemunha do amanhecer e submisso à estrela que sobre ele brilha e lhe dá inspiração, a mesma dos grandes poetas, como Dante, sobre o qual a estrela também brilhara. Essa estrela é, ainda, “divina”, como adjetiva o penúltimo verso machadiano – “espero-te, divina” –142 e como já atestara o eu poético hugoa-

no que, ao dar voz à estrela, afirma que ela brilhou sobre Moisés. Assim, o poeta, que é ilumi- nado pela estrela divina que sobre ele age, é colocado nos poemas na mesma categoria dos profetas, eles revelam a verdade por meio da poesia, são os vates.

O segundo detalhe que salta aos olhos na leitura da “Stella” machadiana é a epígrafe. Retirada do primeiro verso da quarta estrofe da II parte das Fantaisies, de Theóphile Gautier (grafado, no livro, Gauthier), a epígrafe nos remete a diferentes livros e leituras e ela, nova- mente, nos trará uma referência a Victor Hugo. Os versos da epígrafe do poema machadiano são “abre tuas asas e parte...”,143 que soam aos nossos ouvidos como os versos tecidos por

Victor Hugo em louvação a Theóphile Gautier no poema “À Theóphile Gautier”, em que te- mos, no último verso da terceira estrofe: “abre tuas asas, vai!”.144 A diferença entre os versos

de Hugo e a epígrafe de Machado está apenas verbo final. Contudo, não podemos inferir que Machado tenha sido influenciado pelos versos hugoanos, uma vez que os versos do brasileiro foram escritos em 1862 e os do francês vieram a público dez anos depois, em dois de novem- bro de 1872, em ocasião da morte de Gautier. Apesar disso, a proximidade desses versos legi- tima a força dos versos de Gautier, que ecoaram nos dois poetas.

Para esse estudo, utilizamos como leitura a segunda parte das Fantaisies que estão im- pressas no volume Première Poésies de 1870 pela Charpentier, Libraire-Éditeur. Optamos por consultar esse volume por ser o mesmo presente na biblioteca machadiana, de acordo com o levantamento feito por Jean-Michel Massa.145 No levantamento feito pelo pesquisador fran- cês, notaremos que todos os livros de Gautier são posteriores à composição de “Stella”. Figu- ravam na biblioteca machadiana os seguintes volumes de Gautier: Première Poésies (1870),

Romans et Contes (1872) e Nouvelles poésies (1876). Encontramos as Fantaisies impressas já em 1858 nas Poésies Complètes, também editado pela Charpentier, todavia, segundo os estu- dos do Visconde Charles de Spoelberch de Lovenjoul (1887), a segunda parte das Fantaisies teria vindo a público em 1832, sob o título “Le bengali” e com a dedicatória “à une fille créo- le”.146 Além disso, “Le bengali” trazia duas epígrafes, uma de Bernardin de Saint-Pierre e

142 Id. ibid., p. 25.

143 REIS, 2009, p. 38, nota de rodapé n. 5. No original: “ouvre ton aile et pars...” (ASSIS, 1864, p. 23). 144 No original: “ouvre tes ailes, va” (HUGO, 2001, p. 546, tradução nossa).

145 In: JOBIM, 2001. 146 A uma menina crioula.

outra de Mille L. A. Esse título e as epígrafes são abandonados nas publicações de 1858 e 1870.

De maneira geral, o poema de Gautier tratará de um pássaro que está em terras estra- nhas, a própria terra do eu poético daquele poema. Assim, nas três primeiras estrofes será construída a imagem dessa terra que o pássaro agora habita, mas que não é a sua de origem. Essa terra contraposta à terra natal do pássaro é mais fria e triste que aquela: “nosso sol é frio, nosso céu em fúria”,147 ao ponto de, ao final do poema, o eu poético aconselhar ao pauvre

étranger:148“abre tuas asas e parte, retorne para lá”.149

Trabalhando mais especificamente na interpretação do conteúdo do poema de Macha- do, ele é composto por dez quadras de rimas intercaladas e versos hexassílabos. Poderíamos dividi-lo em quatro partes. A primeira abriga as duas primeiras estrofes, quando o eu poético percebe que está amanhecendo, a noite já “verte o último pranto” e a aurora se debruça sobre o monte:

Já raro e mais escasso A noite arrasta o manto, E verte o último pranto Por todo o vasto espaço. Tíbio clarão já cora A tela do horizonte, E já de sobre o monte Vem debruçar-se a aurora.150

Exploramos brevemente essas duas primeiras estrofes quando as aproximamos do po- ema hugoano. Ainda sobre elas é possível notar um movimento de detalhamento da primeira para a segunda estrofe. O “último pranto” da noite era vertido “por todo o vasto espaço”151 na

primeira estrofe, enquanto na segunda o vasto espaço é apontado em lugares quando chega o “clarão” da manhã e a “aurora”, de modo que aquele se reflete no horizonte e esta surge nos montes. Grosso modo, é o dia que amanhece no “vasto espaço”, nos mares e nas montanhas.

A segunda parte, a mais longa, conta com as próximas quatro estrofes:

À muda e torva irmã, Dormida de cansaço, Lá vem tomar o espaço A virgem da manhã. Uma por uma, vão As pálidas estrelas, E vão, e vão com elas

147 No original: “notre soleil est froid, notre ciel en courroux” (GAUTIER, 1870, p. 106, tradução nossa). 148 Pobre estrangeiro.

149 No original: “Ouvre ton aile et pars, retourne-t’en là-bas” (GAUTIER, 1870, p. 107, tradução nossa). 150 ASSIS, 1864, p. 23.

Teus sonhos, coração. Mas tu, que o devaneio Inspiras do poeta,

Não vês que a vaga inquieta Abre-te o úmido seio? Vai. Radioso e ardente, Em breve o astro do dia, Rompendo a névoa fria, Virá do roxo oriente.152

Nessa parte, o eu poético descreverá os elementos da noite que aos poucos vão partin- do e os do dia, que estão chegando. A “virgem da manhã” toma lugar da “torva irmã / Dormi- da de cansaço”, e a lua dá espaço ao sol; as estrelas, “uma por uma, vão”, bem como os so- nhos do coração do eu poético; e o “astro do dia / (...) / Virá do roxo oriente”.153 A menção ao

oriente relembra o ponto no céu onde o sol nasce. Ademais, é possível ver nos versos o mo- vimento da noite para o dia cíclico no mundo, enquanto no oriente era dia, o “astro do dia” estava naquelas terras, aqui, no ocidente, o poeta sonhava à noite. O poema parece sugerir a movimentação cíclica dos astros para garantir que anoiteça de um lado da Terra enquanto no outro amanhece, contrariando a ciência que afirma a rotação da Terra e não dos astros.

A sétima, oitava e nona estrofes irão compor a terceira parte, que tratará do reflexo do amanhecer no eu poético, tudo que ele “perde” com a chegada do dia.

Dos íntimos sonhares Que a noite protegera, De tanto que eu vertera Em lágrimas a pares, Do amor silencioso, Místico, doce, puro, Dos sonhos de futuro, Da paz, do etéreo gozo, De tudo nos desperta Luz de importuno dia; Do amor que tanto a enchia Minha alma está deserta.154

Os “íntimos sonhares” de um “amor silencioso, / Místico, doce, puro” e os sonhos de um futuro pacífico e de etéreo gozo foram despertados pela “luz de importuno dia” e “do amor que tanto a enchia”,155 a alma do eu poético estava deserta. Podemos ressaltar nesses

versos o misticismo comumente relacionado à noite e nova antítese que se dá na alma do eu

152 Id. ibid., p. 24. 153 Id. ibid.

154 Id. ibid., p. 24-25. 155 Id. ibid.

poético, cheia de amor durante a noite e deserta ao amanhecer. Somamos a isso um forte re- púdio ao dia, já que sua luz é importuna. Isso faz com que relacionemos esse poeta não só ao poeta-profeta, vate, como dissemos no início do estudo desse poema, mas podemos ligá-lo ainda a certo mistério, certo ar sombrio, obscuro, vindo da noite.

Por fim, a quarta parte será a estrofe final do poema, na qual o amanhecer está comple- to:

A virgem da manhã Já todo o céu domina... Espero-te, divina, Espero-te, amanhã.156

O maior destaque aqui está num eu poético que se põe a esperar que a estrela venha no dia seguinte. Podemos estabelecer, ainda, uma relação entre “Stella” e “Musa Consolatrix”, o poema que o antecede. “Musa Consolatrix” trata da musa que inspirará o eu poético. De certo modo, essa musa está também em “Stella”, ocupando o lugar da estrela, e inspirando o eu poético em seus devaneios. Nessas duas composições o eu poético está sujeito ora à musa, ora à noite.

Dada a publicação do poema sem epígrafe n’O Futuro antes das Crisálidas, podemos inferir que esse poema ainda se encontrava em construção, ou foi fruto da autocorreção ma- chadiana constante, e a operação de epigrafar empenhada nele se aproxima de uma operação de encaixe. O poema, possivelmente, não nasceu da epígrafe e ela nem mesmo estabelece um diálogo tão claro com ele, contudo, o tal encaixe se torna possível especialmente no plano subjetivo. A epígrafe dialogará com o poema machadiano na medida em que o eu poético de “Stella” também permite que a estrela, que aqui ocupa o lugar daquele pássaro, parta, de mo- do que, na terceira estrofe, aconselha, como aconselhou aquele eu poético francês: “parte”. O partir, nos dois poemas, o partir do pássaro no poema francês e o da estrela, na composição machadiana, não causam sofrimento no eu poético dos poemas, de modo que ao final de cada poema, o tom não é de tristeza e o eu poético machadiano aceita o ciclo natural e se propõe a esperar a estrela no dia seguinte: “espero-te, amanhã”.157 Como identificamos na aproximação

com o poema de Hugo, no caso do poema de Gautier, o eu poético também é submisso ao pássaro e também é testemunha da vivência do pássaro em uma terra fria e erma, os três poe- mas colocam o eu poético na posição de testemunhas dum movimento que vai do escuro ao claro. Tal qual os pássaros naturalmente migram, o dia naturalmente amanhece e anoitece.

Como o pássaro de Gautier vai da terra sombria àquela que lhe trará a luz das coupes d’or,158

o eu poético brasileiro presencia o amanhecer, o movimento da noite ao dia, da escuridão à luz.

“O Dilúvio”

O Dilúvio

E caiu a chuva sobre a terra quarenta dias e quarenta noites. Gênesis 7, 12 Do sol ao raio esplêndido,

Fecundo, abençoado, A terra exausta e úmida Surge, revive já;

Que a morte inteira e rápida Dos filhos do pecado Pôs termo á imensa cólera Do imenso Jeová!

Que mar não foi! Que túmidas As águas não rolavam! Montanhas e planícies Tudo tornou-se um mar; E nesta cena lúgubre Os gritos que soavam Era um clamor uníssono Que a terra ia acabar. (...)159

O título desse poema deixa evidente o tratamento do episódio bíblico do dilúvio. En- tretanto, se tratando da Bíblia, é importante esclarecer que não pretendemos discutir nessas páginas a questão da literalidade da Bíblia nem mesmo entrar no campo da religiosidade. Também não mergulharemos a fundo nas questões da religião dentro da obra de Machado de Assis. Por fim, não pretendemos, de maneira alguma, contestar o valor das Escrituras, especi- almente porque cristãos de diferentes religiões têm sua vida e crença pautadas nesses escritos. Os textos bíblicos, apesar de nortearem a vida dos religiosos cristãos, não são de exclusivida- de da religião e deles se apropriam outros campos do saber, como Sigmund Freud, por exem- plo, na psicanálise. O trabalho no estudo desse poema se resume em observar a recriação do episódio bíblico nas linhas da poesia machadiana.

A Bíblia está recorrente e incansavelmente presente na obra de Machado de Assis. Em consulta ao acervo levantado pela pesquisadora Marta de Senna acerca das citações nos con- tos e romances machadianos,160 encontramos menções à Bíblia em todos os romances de Ma- chado e em 119 dos seus contos. No total dos romances, serão 113 citações bíblicas. Esses números bastariam para que reconhecêssemos Machado enquanto conhecedor das Escrituras. Porém, como este trabalho se insere no campo da poesia, no total dos poemas reunidos em livros, quatro trazem como epígrafe versículos bíblicos. Nas Crisálidas, temos, além d’“O

dilúvio”, “Sinhá”, com epígrafes do Gênesis e do Cântico dos Cânticos, respectivamente. Nas

Americanas, as epígrafes são de Naum, para “A cristã nova”; e de Mateus, para “Os semeado-

res”.161

Tratando exclusivamente do dilúvio, em diferentes trechos da obra em prosa Machado se mostra conhecedor do episódio bíblico.162Em crônica de 7 de julho de 1878, da seção “No- tas semanais”, d’O Cruzeiro, Machado cita o dilúvio a fim de marcar o espaço temporal em que se vive e como isso influenciaria nas finanças:

Se achares três mil-réis, leva-os à polícia; se achares três contos, leva-os a um banco. Esta máxima, que eu dou de graça ao leitor, não é a do cavalheiro, que nesta semana restituiu fielmente dois contos e setecentos mil-réis à Caixa da Amortização; fato comezinho e sem valor, se vivêssemos antes do dilúvio, mas digno de nota desde que o dilúvio já lá vai.163

Noutra crônica, dessa vez publicada n’A Semana, em 29 de maio de 1892, o dilúvio vem por citação de Alexandre Dumas (o pai) no início da crônica. Na sequência, novamente o fundador da Academia Brasileira de Letras utiliza o dilúvio como referência temporal, dessa vez para tratar do crescimento do mundo: “uma lágrima! Ai, uma lágrima! Quem nos dera essa lágrima única! Mas o mundo cresceu do dilúvio para cá, a tal ponto que uma lágrima apenas chegaria a alagar Sergipe ou a Bélgica”.164 No mesmo periódico, no ano seguinte, em

crônica de 29 de março, mais uma vez o dilúvio marcará o tempo, agora para falar dos libretos de teatro da temporada de outono e inverno: “o pior será o libreto, que, por via de regra, não há de prestar; mas leve o diabo libretos. Antes do dilúvio, – ou mais especificadamente, pelo tempo do Trovador, dizia-se que o autor do texto dessa ópera era o único libretista capaz. Não sei; nunca o li”.165Ainda n’A Semana, em 1º de julho de 1894, Machado se utilizará da figura

de Noé, personagem do dilúvio bíblico, para tratar do tempo chuvoso:

Quinta-feira de manhã fiz como Noé, abri a janela da arca e soltei um corvo. Mas o corvo não tornou, de onde inferi que as cataratas do céu e as fontes do abismo conti- nuavam escancaradas. Então disse comigo: as águas hão de acabar algum dia. Tem- po virá em que este dilúvio termine de uma vez para sempre, e a gente possa descer e palmear a Rua do Ouvidor e outros becos.166

E ainda:

— Pela minha parte, não é a chuva que me aborrece. O que me aborreceu desde o princípio do dilúvio, foi a vossa ideia de trazer sete casais de cada vivente, de modo

161 Consultando o volume organizado pela pesquisadora Rutzkaya Queiroz dos Reis (2009), Machado de Assis: a

poesia completa, não encontramos poemas dispersos que também tivessem como epígrafes textos bíblicos.

162 A esse respeito, valemo-nos da rica pesquisa empenhada por Proença (2011). 163 ASSIS, 1878, s/p.

164 Idem, 1992, s/p. 165 Id. ibid.

que somos aqui sete galos e sete galinhas, proporção absolutamente contrária às mais simples regras da aritmética, ao menos as que eu conheço.167

A crônica termina ao estilo diluviano:

Ontem, sobre a madrugada, tornei a abrir a janela e soltei outra vez a pomba, dizen- do aos outros que, se ela não tornasse, era sinal de que as águas estavam inteiramen- te acabadas. Não voltando até o meio-dia, abri tudo, portas e janelas, e despejei toda aquela criação neste mundo. Desisto de descrever a alegria geral. As borboletas e as aranhas iam dançando a tarantela, a víbora adornava o pescoço do cão, a gazela e o urubu, de asa e braço dados, voavam e saltavam ao mesmo tempo... Viva o dilúvio! E viva o sol!168

O dilúvio também é usado para tratar do tempo chuvoso em crônica de 6 de janeiro de 1895, no mesmo periódico. Dessa vez, o volume de chuvas fora tanto que parece ter arrasado