2. The legal framework for refugee protection
2.1 Refugee status
CAPÍTULO 3
AS PNEV’s E A PINTURA: OS PRIMEIROS CONTATOS
Neste capítulo apresento um relatório da visita de 10 PNEV’s à Pinacoteca do Estado, a fim de observar o comportamento de cada um deles e destacar os comentários e as observações do grupo, diante do monitoramento e apresentação da educadora responsável pelos visitantes cegos do Programa Educativo para Públicos Especiais (PEPE)
3.1 Estação Pinacoteca do Estado
47A Pinacoteca do Estado de São Paulo é uma instituição cultural brasileira subordinada à Secretaria da Cultura do estado de São Paulo. Sua sede principal encontra- se localizada no Jardim da Luz, na capital paulista. Além desta, ocupa ainda o espaço chamado Estação Pinacoteca, antigo prédio do DEOPS/SP48, e um edifício no Parque do
Ibirapuera.
Um dos mais importantes museus de arte do país, a Pinacoteca do Estado reúne em seu acervo mais de seis mil obras, entre pinturas, esculturas, colagens, desenhos, tapeçarias, porcelanas e louças. A coleção abrange, majoritariamente, a história da pintura brasileira entre os séculos XIX e XX.
A Pinacoteca do Estado de São Paulo, tem como uma de suas prioridades a ampliação de ações educativas e defende a necessidade de tornar os acervos cada vez mais acessíveis ao público. Dessa forma, foi criado em 2003 o Programa Educativo Públicos Especiais (PEPE), como parte das iniciativas da Ação Educativa dessa instituição (TOJAL, 2007, p.108).
3.2 Programa de Ação Educativa para Públicos Especiais (PEPE) e
Descrição do que as PNEV’s fizeram na Pinacoteca Estado
4947
. Os dados históricos da Estação Pinacoteca do Estado estão no ANEXO 2.
48 DEOPS/SP – foi criado em 1924 com a função de controle político social e repressão aos crimes
políticos (CARDOSO, sem data).
49
O PEPE visa atender grupos especiais, compostos por pessoas com limitações sensoriais, físicas ou mentais, como também grupos inclusivos, compostos pela integração entre pessoas com e sem essas limitações, tendo como objetivos incentivar e ampliar o acesso desses públicos aos importantes patrimônios artístico e cultural brasileiro (TOJAL, 2007, p.108).
A Pinacoteca do Estado é um órgão público, e com o seu acervo de 1200 obras tem o dever de cumprir seu papel de representação cultural dos habitantes do Estado. Além do mais, a arte exposta nos museus é resultado de uma seleção da cultura material humana. Podemos compreendê-la como parte do que somos e como reveladora do como somos, contribuindo para o auto-conhecimento, conhecimento do contexto social em que vivemos e auxiliando de maneira positiva na formação dos indivíduos (CHIOVATTO, 2008, p.4).
O Programa Ação Educativa da Pinacoteca tem como objetivos: a) estimular e facilitar a compreensão e a fruição de obras da arte pertencentes à exposição de maneira
não visual, mas também multissensorial50, possibilitando a percepção e o conhecimento da
arte por meio de outros sentidos como o tátil, o olfativo, o sonoro, o cinestésico etc.; b) desenvolver ações educativas por meio das obras do acervo; c) promover a qualidade da experiência do público no contato com as obras; d) garantir a acessibilidade ao museu; e) transformar em assíduos freqüentadores (CHIOVATTO, 2008, p.4).
Para as visitas educativas, devemos fazer o agendamento no Núcleo de Ação Educativa – Programa Educativo para Públicos Especiais (PEPE). Para o percurso da exposição de cerca de 1200 obras do acervo da Pinacoteca, o PEPE desenvolve visitas dirigidas a 42 obras do acervo acessibilizadas, onde é liberado o toque orientado em esculturas originais selecionadas para essa finalidade. No caso das obras bidimensionais para o mesmo público, foram reconstruídas em relevos de resina e borracha, permitindo o toque e aumentando a percepção sensorial do seu formato e contorno. Também, a partir da obra, foram construídas maquetes e jogos sensoriais de características 3D manipuláveis aliadas aos recursos sonoros, o que facilita a compreensão dos conceitos das obras.
As visitas agendadas previamente são acompanhadas por educadores especializados, que conhecem as obras de arte selecionadas do acervo, de forma não somente visual, mas também sensorial, por meio dos sentidos do tato, audição, olfato e cinestésico. Durante esse atendimento foram realizados os seguintes percursos:
50
Multisensorial – são percepções elaboradas entre: ouvido e tato, nariz e tato, boca e tato etc. (BALLESTERO- ALVAREZ, 2003, p.13).
Primeiramente passamos pela porta do detector de metais e paramos um pouco para todos receberem um crachá de identificação, em seguida, viramos à direita e descemos a escada para encontrar no pátio central as maquetes visuais e táteis51 da Pinacoteca do
Estado (Figuras 1 e 2) e da Praça da Luz e a Estação Ferroviária da Luz (Figura 3).
Figura 1 Maquete da Pinacoteca do Estado de São Paulo Escala 1:100.
Fonte: foto de Roberto Wataya
Figura 2 Observando com os sentidos,por meio do tato a entrada da Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Escala 1:100.
Fonte: foto de Roberto Wataya
Figura 3 Observando com os sentidos,por meio do tato, o entorno da Pinacoteca, Praça da Luz e a Estação Ferroviária da Luz.
Escala 1:600.
Fonte: foto de Roberto Wataya
As PNEV’s, todas elas, e uma por uma, fizeram o reconhecimento do edifício da Pinacoteca e seus arredores incluindo a planta baixa de localização da exposição no acervo do museu. Isto foi possível, devido ao fato de ser a única forma de apreensão espacial do edifício do museu, considerado patrimônio arquitetônico da cidade de São Paulo. Durante o período de exploração dessas maquetes foram fornecidos, além das informações técnicas e estéticas sobre a arquitetura da época, dados sobre a história dessa região e da utilização desse edifício desde sua inauguração (TOJAL, 2007, p.112).
Questionamento: P1, cega congênita, 35 anos, declarou: “Normalmente o telhado
vai um pouco além do início da parede, mas esta é diferente e parece que tem um murinho”. Esta participante parece aqui destacar que a representação proposta apresenta uma falha no que se refere à função de cobertura do telhado ou estar tomando como base sua experiência perceptiva do telhado que ultrapassa a verticalidade da parede.
3.3 Relato das PNEV’s sobre o que elas aprenderam e como essa
experiência foi útil ou não do ponto de vista de aprendizagem
As PNEV’s, ao visitarem a Pinacoteca do Estado de São Paulo poderão apreciar as obras selecionadas de oito artistas que integram a Galeria Tátil, primeira exposição do acervo permanente de um museu brasileiro totalmente destinada ao público com necessidades especiais visuais, onde estes poderão explorar e reconhecer, de forma autônoma e por meio do toque, doze obras que integram o acervo da instituição, apresentadas segundo um criterioso padrão de acessibilidade
A primeira obra visitada pelas PNEV’s, foi do autor Rodolfo Bernardelli cujo trabalho, é a escultura de Moema. Essa obra, conforme a descrição de Silva (2007, p. 359) destaca os fatores que influenciaram Bernardelli na confecção dessa escultura:
A escolha do momento a ser representado pode ter surgido ao artista a partir do poema “A voz de Moema”, que se inicia com uma citação de trecho de Caramuru: “A Diogo cruel!”, disse com mágoa. E sem mais ser vista sorveu-se n’água. Dessa maneira, é possível notar que Bernardelli preferiu recorrer ao momento em que o corpo da índia afogada ainda não chegou a praia, está à deriva no mar, dando dessa forma grande intensidade dramática à cena.
Escultura - as PNEV’s diante da escultura da índia Moema morta na praia – a
educadora responsável faz uma exposição oral. Primeiramente fala da biografia do autor da obra, e em seguida, os motivos que o levaram a ‘construir’ a escultura. Depois, faz uma síntese do livro Caramuru e descreve com detalhes o contexto ressaltando as causas da morte desta personagem, tendo como apoio sonoro, uma mídia player “tocando” o som das ondas do mar, fazendo com o público “cego”, tenha a sensação real de entrar no contexto da história. Ao finalizar esse ato descritivo da escultura, , as PNEV’s iniciam suas explorações e passam a tocar a obra (Figura 4), sempre tentando revisar as informações, associando-as dos detalhes da escultura.
Figura 4 Observando com os sentidos,por meio do tato, a escultura da índia Moema. Fonte: foto de Roberto Wataya
Questionamento: P2, cega congênita, 30 anos, declarou: “a índia Moema tem um
cabelo muito bonito é liso e comprido, mas porque está parecendo bem grosso?“ Outra pergunta contextual é dada por P2, quando diz: “tem índio com cabelo bem crespo,
assim como dos negros?” Sobre a afirmação sobre os cabelos de Moema, como foi dito “ parece bem grosso”, a educadora responsável explicou que, o fato do cabelo estar com esta característica, indica que o cabelo está com barro e outros materiais presentes na beira do mar. E quanto ao cabelo crespo, a mesma falou que os índios de uma maneira geral não apresentam esse tipo de cabelo, e sim bem liso e grosso, ou seja em comparação com os nossos.
A seguir passamos a apreciar a obra de Alfredo Ceschiatti52, a escultura Guanabara, da
década de 1960 feita de bronze e dimensões de 61x166x38cm. Essa obra
52 Alfredo Ceschiatti nasceu na capital mineira em 1918. Escultor, desenhista e professor, Alfredo Ceschiatti
ingressou na Escola de Belas Artes, no Rio de Janeiro, em 1940 manteve contato direto com arte renascentista. A convite de Oscar Niemeyer, realizou as seguinte obras: relevo da igreja de São Francisco de Assis na Pampulha em Belo Horizonte, As Banhistas, A Justiça, Os Candangos e os Anjos da Catedral. Ceschiatti, faleceu em 1989. (NORMANDIE, 2008).
Figura 5 Observando com os sentidos,a posição reclinada da mulher. No detalhe a mão que apoia o rosto, por meio do tato, a escultura “Guanabara” de Alfredo Ceschiatti.
Fonte: foto de Roberto Wataya
Figura 6 Observando com os sentidos,os olhos e nariz, por meio do tato, a escultura “Guanabara” de Alfredo Ceschiatti.
Fonte: foto de Roberto Wataya
Figura 7 Observando com os sentidos,o rosto, por meio do tato, a escultura “Guanabara” de Alfredo Ceschiatti.
Fonte: foto de Roberto Wataya
A escultura Guanabara, conforme as Figuras 5, 6 e 7, destaca uma obra de Alfredo Ceschiatti, a escultura “Guanabara” – apresenta uma mulher reclinada e apoiada sobre a lateral, cuja cabeça é circundada pelo braço esquerdo, enquanto o outro sustenta o cotovelo apoiado. As formas são redondas e abundantes, denotando sensualidade. Toda esta exposição é feita pela educadora responsável com um fundo musical.
Questionamento: Participante A, cego congênito, 34 anos, declarou: “Por que
esta escultura de uma mulher tem o nome de Guanabara? Pois o que sei, o que lembro, quando falam de Guanabara, é a Baia de Guanabara, Pão de Açúcar e o Bondinho”. A educadora responsável, explicou que as formas do corpo da mulher, faz alusão ao Pão de Açúcar, dessa analogia, explica a razão do nome dessa escultura.
Passando para o outro lado do prédio no 2º andar, observamos o quadro assinado por Almeida Júnior53, o artista que melhor representou o homem do interior, e o quadro
Caipira Picando Fumo de 1893, é emblemático.
Quadro bidimensional – os DV’s diante do quadro “O caipira picando o fumo” – a
educadora responsável faz uma exposição oral, primeiramente, fala da biografia do autor da obra, o período em que viveu, sua formação, suas características e depois motivos que o
53 Almeida Júnior - José Ferraz de Almeida Júnior nasceu em Itu, 8 de maio de 1850 – Piracicaba, 13 de
novembro de 1899. Foi um ilustre pintor brasileiro da segunda metade do século XIX. É frequentemente aclamado pela historiografia como o precursor da abordagem de temática regionalista, introduzindo assuntos até então inéditos na produção acadêmica brasileira. O amplo destaque conferido a personagens simples e anônimos e a fidedignidade com que retratou a cultura caipira, suprimindo a monumentalidade em voga no ensino artístico oficial em favor de um naturalismo. Foi certamente o pintor que melhor assimilou o legado do Realismo de Gustave Courbet e de Jean-François Millet, articulando-os ao compromisso da ideologia dos Salons parisienses e estabelecendo uma ponte entre o verismo intimista e a rigidez formal do academicismo, característica essa que o tornou bastante célebre ainda em vida. De forma semelhante, sua biografia é até hoje objeto de estudo, sendo de especial interesse as histórias e lendas relativas às circunstâncias que levaram ao seu assassinato: Almeida Júnior morreu apunhalado, vítima de um crime passional (WIKIPEDIA, 2008).
levaram a ‘pintar’ o quadro. Depois, faz uma síntese do quadro e descreve com detalhes a pintura e os elementos que a compõem. Neste caso, também há o apoio sonoro, uma mídia
player “tocando” o som dos pássaros e dos ventos, fazendo com o público cego tenha a
sensação real de entrar no contexto da história. Nesse momento, a educadora responsável coloca nas mãos de um cego, o boneco que representa o homem caipira (Figuras 8 e 9) sentado e picando o fumo, com um pedaço de palha na orelha esquerda.
Figura 8 Observando com os sentidos,por meio do tato, o boneco que representa o caipira. Fonte: foto de Roberto Wataya
Figura 9 Observando com os sentidos, por meio do tato, o boneco que representa o caipira.
Fonte: foto de Roberto Wataya
Após explorar o boneco do homem caipira, a educadora responsável, pede que o cego explique sobre o caipira. Feito isso, ela passa para o cego a palha de milho e o fumo (Figura 10), com os quais são feito os cigarros de corda.
Questionamento: P5, cego congênito, 53 anos, declarou: “Vocês falaram dos
ingredientes que o caipira tem em mãos, gostaria de saber como se faz o cigarro de fumo.” - Esse participante sempre morou na cidade de São Paulo e seus familiares, muito religiosos, nunca permitiram o uso do cigarro e muito menos fumo.- Dessa forma, interpretamos essa indagação como uma ausência de conhecimento do processo de elaboração do cigarro de fumo, ou estar tomando como base sua experiência perceptiva do cigarro comum, que é fabricado em uma indústria e vem embalado em uma caixinha. Em seguida, a educadora responsável detalhou o processo de confecção do cigarro de fumo. Primeiro ela colocou nas mãos do P5 um canivete e o fumo, também colocou a palha na orelha esquerda, como está o caipira no quadro. Na etapa seguinte, após picar o fumo, é feito um amassamento do fumo picado com as duas mãos, para depois colocar na palha como fosse fazer um... “você conhece o rocambole?” “sim”. “Bem o processo é o mesmo, enrola-se o fumo picado com a palha e coloca-se na boca, em seguida acende-se o cigarro de palha e aprecia-se os seus efeitos”.
Figura 10 Observando com os sentidos,por meio do tato e olfato o fumo e a palha.
Fonte: foto de Roberto Wataya
Figura 11 Observando com os sentidos,por meio do tato, o chão, banquinho etc.
Fonte: foto de Roberto Wataya
Figura 12 Observando com os sentidos,por meio do tato, as paredes do quadro.
Fonte: foto de Roberto Wataya
Finalmente, ela entrega uma maquete que representa apenas a frente da casa do caipira (Figuras 11 e 12) e pede aos participantes que descrevam as características da casa; como o tipo de tijolo, a janela, a porta e o banquinho do caipira. O último desafio que a educadora faz às PNEV’s é colocar o boneco que representa o caipira no banquinho para que elas montem o quadro 3D do “Caipira picando o fumo” (Figura 13).
Figura 13 “Montando” o quadro. Fonte: foto de Roberto Wataya
Ao finalizar esse ato de observar com os sentidos o quadro 3D, a educadora
responsável, coloca nas mãos da PNEV o quadro do caipira picando fumo em relevo
(Figura 14), para que esta ‘passe’ as mãos a fim de ‘enxergar’ o quadro. Por fim, ela descreve oralmente o quadro a tinta do “caipira picando o fumo” (Figura 15), e ao findar essa descrição a educadora pergunta “viram como é bonito o quadro?”. E as PNEV’s responderam que sim.
Figura 14 Observando com os sentidos,por meio do tato, o quadro em relevo.
Fonte: foto de Roberto Wataya
Figura 15 Observando com os sentidos,por meio da descrição da educadora.
Fonte: foto de Roberto Wataya
Quadro bidimensional – as PNEV’s diante do quadro “O violeiro” (1899) Figura 16 –
novamente a educadora responsável faz uma exposição oral primeiramente, fala da biografia do autor da obra, o período em que viveu, sua formação, suas características e depois motivos que o levaram a ‘pintar’ o referido quadro.
Figura 16 Observando com os sentidos,por meio do tato, o quadro “O Violeiro”.
Fonte: foto de Roberto Wataya
Depois, faz uma síntese do quadro e descreve com detalhes a pintura e os elementos que a compõem. Neste caso também há o apoio sonoro, uma mídia player “tocando” o som de um cantor de música sertaneja, fazendo com o público cego, tenha a sensação real de entrar no contexto da história. Nesse momento, a educadora responsável coloca nas mãos de uma PNEV o boneco que representa o violeiro (Figura 17) sentado e com o vilão como se estivesse tocando, e em seguida, uma boneca representando uma
donzela (Figura 17) muito bonita apreciando o violeiro e a sua música. Após explorar os bonecos do violeiro e da donzela, a educadora responsável, pede para que o cego explique sobre os personagens.
Figura 17 Observando com os sentidos, por meio do tato,os bonecos, que representam o viloeiro e a moça.
Fonte: foto de Roberto Wataya
Figura 18 A educadora, apresentando a parte da casa com a janela, onde o violeiro ficará sentado. E depois será entregue aos DV’s, para observarem com os sentidos, e depois “montar” o quadro em 3D.
Fonte: foto de Roberto Wataya
Feito isso, ela passa para a PNEV uma maquete (Figura 19) que representa apenas a frente da casa com a janela, onde o violeiro se aloja para tocar uma música, e pede para que descreva o tipo de tijolo e a janela da casa. Finalmente, o último desafio que a educadora faz à PNEV é colocar os bonecos que representam a pintura “O Violeiro”, e ‘montar’ o quadro 3D (Figuras 19, 20 e 21).
Figura 19 As PNEV’s “montando” o quadro “O violeiro”.
Fonte: foto de Roberto Wataya
Figura 20 O quadro do “Violeiro” em 3D, já montado pelas PNEV’s.
Fonte: foto de Roberto Wataya
Figura 21 O quadro “O Violeiro” já pronto.
Fonte: foto de Roberto Wataya
Questionamento: P4, cego congênito, 20 anos, declarou: “Como pode ser, uma
janela grande assim, a ponto do violeiro poder esticar sua perna, pois as que conheço não cabem nem um moleque.” A educadora responsável, imediatamente explicou que antigamente as casas das fazendas apresentavam essas características, e que “não era exagero não.” Percebemos que, pelo fato do P4 ser jovem e não ter nenhuma experiência com esse contexto, ele particularizou o seu comentário.
Ao finalizar esse ato de “ver” o quadro 3D, a educadora responsável, coloca nas
mãos do cego o mesmo quadro, só que desta vez, em relevo (Figura 22 e 23), a fim de que
a PNEV ‘passe’ as mãos para novamente ‘enxergar’ o quadro do “violeiro”.
Por fim, ela descreve oralmente o quadro bidimensional do “violeiro na janela cantando uma canção, e tendo como ouvinte uma bela jovem”, ao findar essa descrição ela pergunta “viram como é bonito o quadro?”. E os cegos respondem que sim.
Figura 22 O quadro O Violeiro em relevo. Fonte: foto de Roberto Wataya
Figura 23 - Observando com os sentidos, por meio do tato, o quadro “O Violeiro” em relevo.
Fonte: foto de Roberto Wataya
3.4 Motivação para sensibilização de representação 3D
Após a visita feita à Pinacoteca por meio do PEPE, certificamo-nos que esta instituição vem demonstrando o real cumprimento de seus objetivos, e esperamos que seu exemplo e pioneirismo possa contagiar outros museus brasileiros a adotarem o Programa de Educação para Públicos Especiais, pois certamente estarão contribuindo para a inclusão das pessoas com necessidades especiais.
Apesar de ser interessante, o PEPE deixou de elucidar muitos outros elementos importantes da pintura que não foram explicitados por dificuldades e a inexistência de mecanismos que permitissem isso. Como por exemplo, mostrar a linha de fuga, mostrar as tonalidades, mostrar as cores, mostrar a oclusão.
A Pinacoteca, apesar de ser uma das poucas instituições que tentam “mostrar” quadros para as PNEV’s, utiliza procedimentos simples no sentido de estar se abstraindo de uma série de características que seriam interessantes analisar, e que aparentemente não seriam possíveis ao cego, por isso, essa tese vai no sentido de procurar mostrar como essas coisas realmente podem ser colocadas.
Também, percebemos um anseio muito grande quanto à inclusão das PNEV’s em relação às imagens, atuando de maneira ainda tímida, limitada e rudimentar. Por isso este estudo poderá contribuir de maneira ampla e eficaz.
A metodologia para o estudo da representação 3D, utilizada pelo PEPE é feita em seis etapas: 1) fazer uma exposição do quadro todo; 2) falar a biografia do autor da obra; 3) o contexto e os motivos da criação da obra; 4) apresentar os componentes da obra; 5) com a ajuda das PNEV’s “montar” a obra 3D; e finalmente, 6) pedir que as PNEV’s descrevam o quadro 3D, que estão “vendo”.
No próximo capítulo será apresentado o sistema de RA, e o SACRA para percepção e representação 3D, a história do SACRA, suas funcionalidades, os marcadores de ações, cadastramentos de pontos e a definição dos componentes do sistema de percepção de representação 3D com o SACRA.