Os ativistas entrevistados escolheram um trabalho, de maneira geral, mais instável, com ganhos menores, se comparado com outras escolhas a que teriam acesso, como empregos e ocupações, cercados de encantos diversos como ostentação, dinheiro e glamour. Essa renúncia traz riscos de duas ordens: de ordem material quando, por exemplo, comprometem o próprio futuro,
porque deixaram de investir na construção de um patrimônio; de ordem subjetiva, porque com o decorrer dos anos podem perceber que o local que queriam estar não era bem esse, que não era bem isso que estava na ordem do seu desejo, e assim já não há mais tempo de refazer a história.
Porém, por mais que tenham relatado perdas, essa ideia de renúncia é minorada em função da esperança de um futuro melhor. Eles não lamentam e não culpam pessoas ou organizações, eles tomam para si os possíveis ônus de suas escolhas e cuidam de suas renúncias, assim como não se veem presos em uma organização específica, muito menos trabalhando em empresas tradicionais, com fins lucrativos, como destacado no primeiro tema da análise. O fato de não se submeterem plenamente ao trabalho direto nas ONGIs permite afirmar que nessa relação os ativistas estão sujeitos a um sistema de mediação organizacional (PAGÈS et al., 1987) mais ideológico e psicológico do que econômico e político. E mais: é dentro do espaço sócio-mental (PAGÈS et al., 1987), sistema de correspondências entre as estruturas psicológicas e estruturas sociais, que acontecem os embates que alimentam a constante negociação de poder entre esses trabalhadores e as organizações.
No campo social exterior às organizações e aos grupos diretamente envolvidos com elas, relatos de incompatibilidade de seus planos com os de suas famílias ficaram evidentes, expondo tensões emocionais. Em algum momento, os sujeitos dessa pesquisa perceberam que planos familiares tradicionais (aqui entendido como casamento, filhos, sucesso financeiro) não eram os caminhos a seguir, não tinham a ver com o seu plano de vida (sujeito do pensamento) nem com a própria vida do sujeito (do inconsciente). Se continuassem na família ou naqueles grupos sociais primários, não saberiam ao certo o que aconteceria, mas escolheram outro caminho e apesar dos vários conflitos relatados, apontaram ganhos subjetivos de algo mais significativo, “essas coisas não passam sem deixar uma marca na vida”, não importando, por exemplo, acumular nada material para si.
Outro exemplo dos paradoxos envolvidos nas escolhas refere-se à imagem de “louco”, termo recorrente na definição dos outros (família e amigos das relações primárias) em relação a esses indivíduos, por conta de seu trabalho e vida social incomuns. Eles se contrapõem a toda uma determinada lógica social dominante e às vezes até tomam para si esse título, como se dissessem: “Você é louco”! E a resposta seria: “Sim, e daí?”.
As escolhas podem contrariar a todos, mas é o sujeito quem diz algo como: “Eu quero, eu banco o preço dessa escolha”, ou “Eu estou fazendo uma coisa que para mim faz sentido, mesmo que eu seja uma gota d’água no oceano, uma agulha no palheiro, mesmo que seja um grão de areia no deserto!”. Porque “O mundo pode ter razão em relação a muita coisa, mas a vida é minha e quem tem que dar sentido a ela sou eu!”.
São afirmações frutos de um diálogo do indivíduo com ele mesmo, no seu foro íntimo (ASSOUN, 1995; ENRIQUEZ, 1995), aquele espaço de julgamento que no final cabe a ele, o indivíduo, decidir por escolhas que por vezes podem contrariar a todos.
Essas tensões, nas primeiras análises de campo dessa tese, foram postas como uma crise característica da atividade ativista. Posteriormente, com os diálogos teóricos, percebeu-se que tais conflitos não podem ser considerados sinônimos de crise porque não se relacionam diretamente a um sofrimento. O conflito psíquico é um fenômeno natural na vida humana, enquanto a crise se atrela a sofrimentos, como abandonos, culpas, ou quando o sujeito achou que perdeu tempo de vida, por exemplo. Nada nesse sentido foi relatado. É uma ambuiguidade, mas não é uma crise e se não é crise, não é sintoma. Relaciona-se com a constante (re) arrumação do campo psíquico do sujeito, e os conflitos e incertezas relatados são, dessa forma, entendidos como parte dessa contínua construção de sentidos. Porque refletem “Eu sou feliz, mas talvez não tenha tido tempo de pensar em mim”!
É o foro íntimo conferindo força e ao mesmo tempo calma ao indivíduo para assumir as suas decisões. Esse espaço de julgamento e reflexão é indesejável aos líderes de todas as organizações, porque impede a entrega do indivíduo a um novo tipo de individualismo esvaziado de sua interioridade, que extrapola o campo organizacional (ASSOUN, 1995; BERARDI, 2005; ENRIQUEZ, 2001; SIBILA, 2002). É o cultivo do foro íntimo entre os ativistas que permite compreender a relação crítica que possuem com as ONGIs, que os permitem desvincular-se delas caso elas destoem de seus ideais.
O foro íntimo pode ser compreendido a partir da segunda tópica do aparelho psíquico como um diálogo entre as instâncias psíquicas Ego e Superego, capaz de propiciar a reflexão sobre as escolhas dos cursos de ação a seguir. O Superego é a instância vinculada ao dever e ao seu cumprimento, enquanto o Ego é a instância responsável por agir na modificação do mundo externo e gerir as exigências das outras instâncias (FREUD, 1923/2011). O Ideal do Ego é
relacionado àquilo que é tomado como sublime e o Superego observa o Ego e o julga de acordo com esse ideal. Logo, no foro íntimo, o Ego, sede da consciência, considera os mandamentos do Superego e os avalia no momento de tomar uma decisão. Com base nisso, é possível considerar o pleno desenvolvimento do foro íntimo nos entrevistados, os quais ao sublimar, aproximando o Ego do Ideal do Ego, favorecem que o Ego seja menos achincalhado pela instância censora, do que decorre que suas relações se deem no âmbito da consciência e sejam construtivas, direcionando o Ego para seus ideais sem gerar sintomas (FREUD, 1914/2010).
O Quadro 3 – Análise Consolidada – resume as relações entre objetivos da tese, temas emergentes selecionados, conceitos subjacentes à análise e conclusões decorrentes que serão detalhadas no próximo e último capítulo.