O processo de incorporação das NTIC na organização do trabalho pedagógico, articulado os fins do ato educativo, não pode secundarizar a importância da transmissão de conhecimentos (SAVIANI, 2008), mas, ao contrário, deve ser instrumento de mediação para garantir a transmissão de conhecimentos sistematizados; neste sentido, afirma Saviani;
Uma pedagogia revolucionaria centra-se, pois, na igualdade essencial entre os homens. Entende, porém, a igualdade em termos reais e não apenas formais. Busca converter-se, articulando-se com as forças emergentes da sociedade, em instrumento a serviço da instauração de uma sociedade igualitária. Para isso, a pedagogia revolucionária, longe de secundarizar os conhecimentos descuidando de sua transmissão, considera a difusão de conteúdos, vivos e articulados, uma das tarefas primordiais do processo educativo em geral e da escola em particular (idem, p. 52). Cabe destacar, dessa citação, que a tarefa de uma pedagogia revolucionária, comprometida com a transformação social é de se articular as forças emergentes para se
converterem em instrumento de superação da forma histórica de organização social vigente, e para a instauração de uma sociedade igualitária.
Nessa perspectiva, considerando que as NTIC têm se colocado como uma força emergente na sociedade contemporânea, elas são instrumentos que devem ser apropriados pela pedagogia revolucionária e colocados a serviço do processo de humanização. Desse modo as tecnologias devem ser incorporadas à prática pedagógica a partir da relação dialética entre fins e meios e não como fim em si mesmo, meios que devem enriquecer e melhorar as condições objetivas para o desenvolvimento da prática educativa, do processo de transmissão, assimilação e produção do conhecimento elaborado.
No entanto, é importante destacar que o processo de inserção das NTIC na educação escolar se articula com a dinâmica social mais ampla, onde tais tecnologias são consideradas elementos centrais do desenvolvimento e de modernização de produtos e processos. Nessa lógica, as NTIC, ao serem inseridas na educação escolar, devem “modernizar” a prática pedagógica e o processo de transmissão do conhecimento.
Desta forma, o processo de inserção das NTIC na educação se articula com determinado projeto de educação e de sociedade, o que significa que esse processo é orientado pelos princípios do projeto a que esteja articulado. Cabe destacar que existem projetos distintos (e até mesmo antagônicos) de sociedade e de educação em disputa; de um lado, os projetos que tem como finalidade a manutenção do sistema capitalista pelo processo de alienação, e de outro lado, os projetos cuja finalidade é o fim da divisão da sociedade em classes, ou seja, a superação do sistema capitalismo, condição sine qua non para que se realize plenamente o processo de humanização.
No âmbito da educação escolar, esses projetos se manifestam, ou seja, são expressos através das concepções pedagógicas. Neste sentido, as concepções podem ser caracterizadas de acordo com a sua perspectiva histórica em relação à sociedade capitalista. As concepções que se omitem no que diz respeito à questão da superação do sistema capitalista, também denominadas de “concepções hegemônicas” são constituídas por uma diversidade de teorias pedagógicas (construtivismo, pedagogia das competências, pedagogia de projetos, pedagogia multiculturalista, pedagogia do professor reflexivo etc.), mas com a mesma perspectiva que é a manutenção da forma de organização social vigente.
É importante ressaltar, que a defesa da forma de organização social vigente; a sociedade capitalista, nem sempre ocorre de forma explicita, pela via afirmativa, mas de forma implícita, pela via negativa, assim a defesa ocorre pela ausência da perspectiva de superação e pelo processo de negação das formas clássicas de educação escolar; o que significa, em síntese, a
secundarização do processo de transmissão dos conhecimentos clássicos (elementos culturais) sistematizados historicamente pela humanidade, o que coloca tais concepções na contramão do processo de humanização, e, portanto, pode-se afirmar que elas são instrumentos de alienação. Por outro lado, as concepções que têm como perspectiva histórica a defesa da educação como instrumento de luta para a superação da sociedade capitalista (Psicologia histórico- cultural, pedagogia histórico-crítica), e que são, portanto, concepções críticas da educação, têm a convicção de que a escola sozinha não é capaz de transformar a sociedade, mas que, pensada e assumida numa perspectiva crítica, como espaço de contradição e de disputa, sem dúvida pode e deve contribuir com o processo de superação do modelo de sociedade baseado na divisão social de classe. Assim,
a pedagogia revolucionária é crítica. E por ser crítica, sabe-se condicionada. Longe de entender a educação como determinante principal das transformações sociais, reconhece ser ela elemento secundário e determinado. Entretanto, longe de pensar, como o faz a concepção crítico-reprodutivista, que a educação é determinada unidirecionalmente pela estrutura social dissolvendo-se a sua especificidade, entende que a educação se relaciona dialeticamente com a sociedade. Nesse sentido, ainda que elemento determinado, não deixa de influenciar o elemento determinante. Ainda que secundário, nem por isso deixa de ser instrumento importante e por vezes decisivo no processo de transformação da sociedade(SAVIANI, 2008, p. 52-53).
Neste sentido, a pedagogia crítica compreende a relação educação e sociedade numa perspectiva dialética, em que o elemento que determina é também determinado, ou seja, a sociedade determina a educação, mas é por ela determinada ainda que de forma secundária, o que não reduz a sua importância como instrumento de luta no processo de superação da sociedade capitalista. Desta forma, a educação de modo geral e a educação escolar em particular na sociedade capitalista, pode contribuir tanto para o processo de humanização quanto para a alienação do indivíduo, dependendo da perspectiva histórica em que é desenvolvida.
Nessa perspectiva, o processo de inserção das NTIC na educação escolar, nos pressupostos de uma concepção pedagógica que parte do princípio de que as tecnologias, quaisquer que sejam, são resultado de um processo de objetivação humana que precisa ser apropriado pelas novas gerações para produzir novas objetivações a partir de uma relação dialética entre objetivação e apropriação. “O objeto, ao ser transformado em instrumento passa a ser uma objetivação, pois o ser humano objetivou-se nele, transformou-o em objeto humanizado, portador de atividade humana” (DUARTE, 2013, p. 30). Assim, o uso pedagógico das NTIC precisa ser compreendido tanto como conhecimento produzido pela humanidade no seu processo histórico, quanto como “instrumentos que possibilitam o acesso ao saber elaborado” (SAVIANI, 2013a, p. 14), ou seja, as NTIC precisam ser incorporadas à organização
do trabalho pedagógico, como meios que, se utilizados de forma adequada, podem contribuir para o processo educativo.
A inserção das NTIC no trabalho pedagógico, na educação escolar, tendo como perspectiva histórica o processo de humanização do indivíduo, pressupõe, portanto, a superação da “fetichização” das tecnologias, fenômeno que vem ocorrendo com intensidade na sociedade contemporânea, principalmente com o advento do chamado pós-modernismo onde tudo é relativo, transitório, e fragmentado, inclusive a produção do conhecimento (Duarte, 2011).
No entanto, é importante ressaltar que, na sociedade capitalista dividida em classes sociais, a inserção das NTIC na educação escolar, na perspectiva da humanização, só será possível a partir do princípio da contradição, ou seja, a contradição como origem de todo movimento, e elemento fundamental de todo processo de transformação (KONDER, 2009). As NTIC nessa perspectiva são concebidas como possibilidades, como meio e não como fim, o que exige que a prática pedagógica seja fundamentada em um referencial teórico que tenha como perspectiva histórica a superação da sociedade capitalista.
Neste sentido, a pedagogia história-critica, por ser uma pedagogia de base marxista é a teoria pedagógica que se articula ao processo de superação da forma de organização social vigente, na medida em que nos permite estabelecer a relação entre o singular e a totalidade (MARX, 2008), captando, assim, o real movimento do objeto, sua historicidade e suas múltiplas determinações; permitindo, assim, compreender as múltiplas possibilidades e limites de uso das NTIC na educação escolar.
Assim, é importante destacar que as possiblidades de uso das NTIC no trabalho pedagógico, que vão dos recursos multimídia (textos, vídeos, imagens, animação etc.) às redes sociais, precisam estar articuladas “a um projeto pedagógico concebido autonomamente, sob pena de se incorrer em prática fetichista, onde os fins são tomados como uma eficaz solução em si” (Ferreira, 2015 p. 94). Desse modo, o uso adequado das NTIC na educação escolar, na prática pedagógica, significa a sua necessária articulação e submissão aos objetivos e finalidades da educação que, em síntese, é o processo de humanização individual e coletiva do ser humano pelo processo de assimilação e apropriação dos elementos culturais historicamente produzidos pelo gênero humano.
2 A INSERÇÃO DAS NTIC NA EDUCAÇÃO ESCOLAR E A FORMAÇÃO DE