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O instrutor do Empretec, explicou que cada dia do seminário há um desafio a realizar. É dado a todos os grupos mesmo material, tempo e condições de realização. Ao fim, cada um apresenta a sua “empresa” e os resultados. Então, é feito um “processamento” (sic), isto é, analisa-se o porquê um grupo teve sucesso e os outros não, já que as condições foram as mesmas. Neste processamento, é identificado qual o comportamento empreendedor que estava faltando e que ainda precisa ser desenvolvido. Segundo ele, isto serve para evitar que as pessoas pensem que o problema é externo, é o mercado, é o Lula, etc. é fundamental que assimilem que o problema está nelas mesmas (sic).

Além das dinâmicas realizadas no local, também há atividades para serem feitas em casa, que correspondem a buscas de informação e planejamento. Há apenas um dos dias do Seminário em que é preciso fazer uma pesquisa na cidade para buscar informações.

O instrutor considera que o Empretec é um “espelho” das pessoas. Por isso, costuma aconselhar que não realizem juntos, nem sócios, nem marido e mulher, pois um vai querer falar do outro e depois o Seminário pega a fama de “separa casal”(sic). O Seminário visa isolar o indivíduo, criar situações simuladas pelas dinâmicas, nelas o indivíduo está na sua forma mais desgarrada das relações pessoais, em que se esquece a família e mesmo o sócio, pessoas com quem compartilha do negócio na “vida real”.

Quanto à necessidade do Seminário, é justificada ao traçar-se um vínculo entre a saúde do empresário e a saúde da empresa. Se a empresa não está bem é porque o empresário não o está. Essa explicação cria uma metáfora que naturaliza a empresa uma vez que é comparada a própria saúde do empresário. É importante retomar aqui a entrevista exploratória para esta pesquisa em que a entrevistada explicou o trabalho do consultor comparando com o do médico ou o do padre.

As pessoas que participam do Empretec assinam um contrato se comprometendo a não faltarem (embora, não haja punição caso isso aconteça). O instrutor argumenta que se alguém faltar pode estar perdendo a chance de desenvolver um comportamento que talvez lhe seja necessário.

Há outra cláusula no contrato em que as pessoas se comprometem a não divulgar o conteúdo do Seminário. A justificativa é que as dinâmicas são iguais em todos os

Seminários, por isso, os que já participaram não devem dizer aos outros qual a solução dos desafios. Ou ainda, na conversa de um consultor-facilitador do Programa:

Eu soube pela palestra que eu participei que as pessoas assinam um contrato para não falar sobre o Empretec.. Como a metodologia de ensino é behaviorista,

totalmente comportamental então, têm atividades lúdicas, dinâmicas de grupo, discussões. Então essas discussões, isso o que é tratado ali tem que ficar ali até por uma questão de preservação das pessoas que estão participando. Tem discussão de tudo que é tipo, desde discussão amigável até quebra pau mesmo, coisa de filme de TV, Roberto Justus e tal. Tem questões pessoais ali.

Não é à toa que antes de começar a apresentar o que é o Empretec à platéia, o instrutor lançou a pergunta: “como você ficou sabendo do Empretec?” Como algumas pessoas disseram ficar sabendo através de outros que já haviam feito, ele perguntava: “e o que eles disseram?” e as respostas dos participantes era que ninguém dizia nada.

Em outra ocasião, fui ao ER do SEBRAE em São Carlos para perguntar quando aconteceria o próximo Empretec. Ouvi do funcionário responsável: “como você ficou sabendo do Empretec?” Entendi que isso é uma forma de controle e avaliação da divulgação informal e do pacto feito entre os participantes. Também procurei contactar empretecos via email me apresentando como alguém interessada em saber mais sobre empreendedorismo. Algumas pessoas me responderam positivamente mas ao perguntar o que achavam do Empretec não obtive mais resposta de ninguém.

Por outro lado, como não é permitido fazer divulgação via propaganda, entendo que o sigilo funciona como uma propaganda ‘às avessas’ pois se as pessoas falarem o que se passa nele, o Empretec não seria necessário. Como os truques de mágica que só atraem o interesse enquanto não se sabe como são feitos. A propaganda em massa destruiria a “mágica” sobre a qual o Empretec se constrói44.

O que se obtém dos relatos do próprio instrutor é que o Empretec não é tão reconhecido quanto os consultores fazem crer. As dificuldades de montar turmas e conseguir espaço físico demonstram isso. Para permanecer, o Empretec tem que ser freqüentemente reafirmado uma vez que seu reconhecimento não é inquestionável. Lembrando o trabalho de

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Essas estratégias de propaganda, seleção e contrato criam uma barreira de entrada ao treinamento e conseqüentemente ao estilo “empreteco de ser”. Mas também criam uma barreira de saída deste grupo, ao menos em termos de preservação de seu estilo de pensamento (Douglas, 1998) já que permanece o sigilo. São estas barreiras tanto formais quanto de estilo de pensamento que me impediram de participar de um treinamento do Empretec, pois estaria diante de um problema ético. Não haveria como me tornar uma empreteca e fazer uma pesquisa para analisar o Empretec sem romper com as normas, não poderia mentir minhas intenções, nem poderia fingir ter um comportamento que não são próprios do habitus de pesquisadora que venho desenvolvendo. Sequer mesmo seria aprovada na entrevista de seleção.

López-Ruiz, o empreendedorismo é um ethos de um grupo específico, mas que é difundido para as massas. No entanto, valores não se difundem às massas sem que haja quem tome essa função. O SEBRAE, através do Empretec e seus derivados, desempenha este papel.

Tendo como referência Becker (1977), tem-se que normas sociais são criadas por grupos ou indivíduos, ou seja, por empreendedores morais. O autor considera que estes se constituem tanto dos criadores quanto dos impositores de regras. O criador de regras é semelhante a um cruzado pois, para ele a norma é uma questão sagrada. “o cruzado é ardoroso e virtuoso, exigindo a virtude não só dos outros, mas também de si próprio”(p. 108)

Uma vez que as normas são criadas, devem ser aplicadas e mantidas por instituições especializadas. É o caso da polícia e também da justiça. Estas instituições especializadas precisam constantemente justificar sua existência e ganhar o respeito daqueles que devem corrigir. Segundo Becker:

Ao justificar a existência de sua posição, o impositor da regra se defronta com um duplo problema. Por um lado deve demonstrar aos outros que o problema ainda existe: as regras que ele deve impor têm algum objetivo, porque as infrações ocorrem. Por outro lado, ele deve mostrar que suas tentativas de imposição são eficazes e vantajosas, que o mal com o qual se supõe que ele vá lidar está na verdade sendo tratado adequadamente. (p. 116)

O SEBRAE pode ser interpretado a partir do referencial dado por Becker, por se apresentar, em parte, como um criador de normas (principalmente quando atua politicamente e faz lobby em torno da legislação referente às MPEs), mas também como um difusor e fiscalizador das normas e valores que alteram a percepção social quanto às micro e pequenas empresas.

Existem dois discursos aparentemente contraditórios mas que são explicados quando levamos em conta as considerações trazidas por Becker. De um lado, o SEBRAE se justifica pela existência de uma realidade hostil para as micro e pequenas empresas e que precisa ser revertida, como por exemplo, as altas taxas de mortalidade, excesso de tributação, necessidade de treinamento dos empresários, etc. Mas, por outro lado, estão sempre verificando que esta realidade permanece e reproduzem a visão de que os pequenos empresários são despreparados e tradicionais. Mas esta constatação, ao invés de questionar a atuação e eficiência do SEBRAE em reverter esta situação, serve para justificar sua existência e intensificar a legitimidade de sua atuação. Isso porque o herói só existe enquanto existir a vítima a ser salva.

Como já foi dito, o Empretec não é imune a críticas. Embora não tenhamos investigado quem são os atores que o criticam com mais freqüência e quais são estas críticas a partir de seus pontos de vistas, percebe-se com freqüência nas falas dos instrutores justificativas, isto é, a necessidade de defesas de suas posições perante o público-alvo. O instrutor apresentou 4 justificativas que rebatem críticas que costumam ser feitas ao Empretec pelo público e chamou-as de “desculpas”:

1. Não poder se ausentar da empresa por uma semana inteira. Ele responde que em uma semana nenhuma empresa vai falir e se falir é porque já tinha rachaduras há tempos.

2. A atividade profissional que exerce não permite. Responde dando exemplo de um médico que conheceu e fez o Seminário com 3 celulares tocando...mas fez!

3. Não ter dinheiro para investir em si próprio. Segundo ele, o Seminário permite ganhar dinheiro. Mostra, então, números de pesquisas que comprovam isso.

4. Tem dificuldades para vivenciar as práticas. Dá exemplo de um conjunto de agricultores que fizeram o Empretec e depois abriram um negócio para construir casas.

Estas “desculpas” são compreensíveis quando tomamos a teoria de Boltanski e Chiapello. Os autores explicam que o espírito do Capitalismo não é estático, nem homogêneo. Ao contrário, as justificativas intrínsecas a ele recebem críticas. E é no rebate a elas que o capitalismo incorpora valores de outras esferas sociais que não a economia, podendo, inclusive absorver parte das críticas e ressignificá-las.