Essa dimensão da lei, da qual se depreende uma moral, é um ponto comum nas críticas de Hegel e de Nietzsche, seja da moral vista como o momento dialético da exteriorização pelo 128 Cf. BURBIDGE, 1992, p. 142 129 Cf. KÜNG, 1976, p. 356 130 Ibidem, 1973, p. 166 131 Cf. KAUFMANN, 1968, p. 37 132 Cf. KÜNG, 1976, p. 479
deparar-se com o estranho, a lei133, seja pela lei entendida como aquela instância autoritária e opressiva que põe o indivíduo na posição de passividade e subserviência134. Hegel e Nietzsche, como lembra Reinier Franciscus Beerling, se colocam distantes da moral cristã, vista por ambos como uma ficção a julgar o mundo135. Por essa razão tocam o sino que anuncia a morte da moral; Hegel, em nome da reconciliação que se constitui como momento da atualidade da vida em plenitude, e Nietzsche pelos pontos culminantes de vida, como instantes da tensão trágica136. Embora Nietzsche dirija a Hegel críticas duras no que toca a toda a forma de historicismo e idealismo, nos quais combate a noção de finalidade, contudo, no que diz respeito ao Cristianismo ambos comungam da mesma crítica: o distanciamento do verdadeiro espírito cristão no destino que o Cristianismo assume. Ora, o destino cristão137, que cabe a cada um assumir é aquele que o próprio fundador do Cristianismo assumiu; não como algo estranho, uma lei positiva, mas um fato no qual se reconhece e se é acolhido com amor. O estranhamento da positividade da lei é superado com a morte de Deus, ou melhor, de uma imagem moral de Deus, seu distanciamento. Embora muitos insistam em interpretar essa morte de Deus a partir do evento da encarnação, ao assumir a condição humana, Deus já teria deixado de ser Deus. A expressão “morte de Deus” foi criada por Hegel antes mesmo de Nietzsche e Feuerbach. Fazendo isso, Hegel se coloca dentro da grande tradição cristã; pois enfatiza, pela encarnação de Deus no mundo, o Cristo Total. Franco Riccio concorda que “[…] o anúncio da morte de Deus temporaliza o complexo dinâmico do movimento e da conexão em relação a um ‘poder’ externo que promove a ‘antítese’”138. É uma absoluta independência com relação à autoridade externa, seja ela Deus ou o Mestre139, o que implica em luta e oposição. Esta famosa expressão: “[…] Deus está morto – torna instável o tornar-se ‘sem fundamentos’, elevando para o nível de partículas elementares”140. Desta oposição vai-se deslumbrando um mundo cada vez mais vasto, que tem o abismo como fundamento. Logo, se o abismo passa a ser o fundamento, aquela adesão cristã ao edifício sistemático conceitual do idealismo metafísico conceitual sob a noção de Ser é destronada. Portanto, tal fundamento longe
133 Hegel apresenta a reação de Jesus frente à lei positiva. “Sobre esta maneira poder-se-ia esperar que Jesus se colocasse contra a positividade do mandamento moral, contra a legalidade, […] cada mandamento, na verdade, anuncia-se como um estranho” (HEGEL, ECD, TWS, 1994, p.322-3).
134 Nietzsche vê no Cristianismo o atentado contra a humanidade, precisamente pela inoculação da culpa. “A noção de culpa e castigo, toda a ‘ordem moral do mundo’ foi fundada contra a ciência – contra a desligamento do homem em relação ao sacerdote ...” (NIETZSCHE, AC, KSA, § 49, 1999, p. 228).
135 Cf. BEERLING, 1961, p. 240. 136 Ibidem, p. 246
137 O tema do destino, muito caro aos autores românticos, não é determinismo, mas ao contrário abertura. Tanto Hegel como Nietzsche são influenciados por Hölderlin, que derivou o destino da tragédia grega. (Cf. INWOOD, 1997, p. 137).
138 Cf. RICCIO, 2004, p. 66 139 Cf. ALDRED, 2004, p. 05 140
de ser cristalizado, é sempre uma suprema transformação consignada sob a imagem da inocência reconciliadora da criança, uma Leistungsfähigkeit (potencialidade) para se atingir algo, que é a plenitude diante da qual se pensa Deus fora daquelas categorias tradicionais. Assim, a compreensão moral de Deus é condição de existência e desenvolvimento da dialética, tal como a figura de Apolo para a configuração da tragédia; contudo, tanto a moral como Apolo devem ser ultrapassados, seja pela reconciliação dialética, seja pela transvaloração trágica. Com isso preservamos o princípio da afirmação da diferença, fundamental na leitura tanto dialética como trágica. Alguns filósofos, como Max Horkheimer e Theodor Adorno têm, segundo Elliot Jurist “[…] apresentado relutância a aceitar Hegel e Nietzsche como opostos. Do lado da teoria crítica […] inclusive […] argumentam que Nietzsche foi um dos poucos que, depois de Hegel, reconheceu a dialética do esclarecimento […] Filósofos da linha francesa, como Georges Bataille, dizem que há […] ligação orgânica entre Hegel e Nietzsche”141. Pela dialética, Nietzsche apresenta diversos temas de seu pensamento, o que já fora apontado por Belkiss Silveira Barbuy:
No fundo, ele, que tão acirradamente combateu o hegelianismo, punha mais do que qualquer outro, a dialética hegeliana em prática. E, se para nós, hoje, se torna mais clara e compreensível essa atitude; Nietzsche não a explicou a ninguém, viveu-a como quem coloca sobre o rosto uma possível máscara. Existe assim também, todo um processo dialético na posição de Nietzsche frente ao Cristianismo; […] vencido por sua atitude deliberadamente hostil a todos os quadros do Cristianismo cultural e histórico; não se deu a síntese da oposição conscientemente assumida e, por isso, é este um dos aspectos de seu pensamento mais difíceis de serem analisados142.
Essa dialética hegeliana que se apresenta na forma como Nietzsche expõe diversos temas de seu pensamento, de modo especial na tragédia, se dá pela confluência das disposições artísticas, dionisíaca e apolínea. O terceiro momento, que é o da síntese, é o mais problemático, porque não há reconciliação estática, mas luta contínua, ou seja, uma síntese momentânea aberta à transvaloração de todos os valores: em pontos culminantes de potência.
Nietzsche compreendeu a aproximação dualista e simbólica pela semântica da tragédia grega, através das divindades Apolo e Dionísio, o que o jovem Hegel já, por seu lado, operou em termos de superação dos limites da ideia de racionalidade143. Assim, para Hegel, a razão
141 Cf. JURIST, 2000, p. 4-5 142 Cf. BARBUY, 2005, p 123-124
143 Viriato Soromenho-Marques, em sua pesquisa a respeito das possíveis aproximações entre Hegel e Nietzsche, afirma que aquela aproximação semântica nietzschiana com os gregos antigos já fora compreendida tempos antes pelo Jovem Hegel: “Nietzsche empreendeu uma abordagem dualista, simbólica para o núcleo semântico da tragédia grega antiga, consubstanciada nas entidades de Apolo e Dionísio. Foi em grande parte dependente do trabalho de Hegel, que, desde a sua juventude, lutou para superar os limites estreitos da idéia de racionalidade”. (SOROMENHO-MARQUES, 2000, p. 04).
não pode se restringir àquelas categorias do entendimento, mas perpassa o ser como um todo. Tanto para Hegel como para Nietzsche a racionalidade humana não se identifica com a sua capacidade de cálculo, erro já herdado daquela confusão entre razão e entendimento, incapazes de dar o contorno do ser: a razão dialética de Hegel inverte a razão kantiana; une, assim, o que Kant separou. Da mesma forma opera Nietzsche, com as figuras de Apolo e Dionísio, que deixam de ser opostos para se tornarem duas faces de uma mesma moeda, como um todo orgânico em movimento144. Hegel e Nietzsche veem, na tragédia grega, o propósito da verdade concreta que abraça a pluralidade histórica e filosófica, com um sistema concreto por considerar a vida em sua universalidade, que reconcilia a singularidade fragmentária145 orgânica num todo em plenitude. Portanto, aberto a destruir para construir, “Do ser para o tornar-se, o ‘anúncio’ que traz luz para a dinâmica da natureza do universo físico e de partículas elementares. O tornar-se é explicativo, mas não físico”146.
Logo, a totalidade reconciliada nas suas partes fragmentárias, conduz ao reconhecimento da lei externa como uma força hostil que obriga e cria escravidão. Essa força assume, nas críticas de Hegel e Nietzche, a moral cristã. Ambos os autores, como foi visto, viveram o ambiente do pietismo protestante: se em Hegel temos o início de uma crítica ao Cristianismo, enquanto manifestação de uma lei positiva, expressa pela fé, da mesma forma, em Nietzsche, temos uma radicalização daquelas críticas. Ambas as críticas, portanto, atacam um ponto comum: a lei positiva, de cuja vivência se deriva uma moral. O Cristianismo, compreendido como estranho, exterior, ou seja, como lei moral, é no fundo uma compreensão que designa um ponto comum: a maneira despótica e autoritária com que o mesmo tem conduzido o destino dos indivíduos. Ao invés de se acolher de maneira inclusiva todo o fato, utiliza-se este como um contraponto à existência, resultando a exterioridade alienada, a
143 O termo “plenitude”, dentro do contexto romântico, é utilizado para expressar uma postura holística. Sob tal
postura se trata a parte e o todo, de modo e se perceber uma interconexão entre ambas, a parte remete ao todo e o todo à parte.
144 Viriato Soromenho-Marques, ainda, a respeito da tragédia grega como vínculo entre Hegel e Nietzsche, afirma: “Hegel radicalmente inverte a tese kantiana sobre o destino da razão dialética. Em vez de kantiana negativa de autodisciplina contra o perigo de ilusão e fantasia, Hegel deu um sentido amplo, positivo para ambos os objetos e métodos da razão dialética. Sublinhe-se que, no mesmo sentido, a relação entre as duas principais figuras nietzschianas (Gestalten), Apolo e Dionísio, foi desenvolvido de uma forma muito semelhante ao utilizado na dialética hegeliana, afirmando que Apolo e Dionísio não eram noções opostas propensas à exclusão mútua”. (SOROMENHO-MARQUES, 2000, p. 04).
145 Assim, em Hegel assistimos a uma verdadeira revolução no que diz respeito à transição do ser para o tornar- se: “A revolução introduzida pela dialética hegeliana foi a mudança radical de Ser para o Tornar-se. Mas, no final, os conceitos utilizados para expressar o movimento temporal do Ser como Werden se cristalizou e se paralisou nos sonhos do absoluto em suas diversas faces. As criações ideais do sistema de Hegel tornaram-se concretas, formas universais que foram consideradas para ter mais vida do que as entidades abstratas universais da experiência singular e fragmentária dos seres humanos concretos”. (SOROMENHO- MARQUES, 2000, p. 08).
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fraqueza, a doença e a resignação. Ambas essas posturas veiculadas pela lei, põem a filosofia moral de Hegel e Nietzsche em comum acordo: um projeto de crítica ao Cristianismo. Com isso, fazem emergir aquilo que se lhe corresponde, de fato – o de ser uma prática de vida, uma religião do coração, que é a vida expressa em sua plenitude147, como Leistungsfähigkeit (potencialidade).
Assim, Hegel e Nietzsche defendem o Cristianismo autêntico, que se caracteriza como religião do coração, como plenitude da existência. A superação dialética de contradições conduziria a essa plenitude da existência, ou tal plenitude somente é conquistada pela transvaloração dos valores, ou seja, pela dissolução da moral?