A zona costeira contempla a região entre a borda do continente e a quebra da plataforma continental (talude), a qual fica em torno de 200 metros de profundidade e uma ou duas centenas de quilômetros de distância da costa. Esta região é extremamente rica, concentrando grande parte da biodiversidade marinha. Alguns dos ecossistemas costeiros típicos da costa brasileira são os manguezais, marismas, praias, costões rochosos, planícies de marés e recifes de coral. As águas costeiras e os fundos arenosos / rochosos rasos também são considerados ambientes costeiros.
Por serem regiões costeiras, estes ecossistemas são bastante vulneráveis ao impacto dos vazamentos de óleo pelos seguintes motivos: a grande maioria dos acidentes ocorrem em águas costeiras, onde se concentram os navios, terminais e operações de carga e descarga. Os ecossistemas costeiros, com sua elevada biodiversidade estão sujeitos a uma variedade de impactos ambientais, especialmente os mais sensíveis como os manguezais, os ambientes abrigados das ondas e os recifes de coral.
Uma vez que o óleo flutua na água do mar, as manchas atingem a zona entre- marés destes ambientes, onde os impactos podem ser severos. Os ecossistemas costeiros e seus principais agravantes são reações ocorridas nos: manguezais, marismas, praias arenosas, costões rochosos, recifes de coral, substratos marinhos e em águas oceânicas.
Manguezais
O manguezal é um ecossistema costeiro de transição entre os ambientes terrestres e aquáticos, característicos de regiões tropicais e subtropicais e sujeitos a regimes de marés. Ocorre em regiões costeiras principalmente abrigadas e apresenta condições propícias para a alimentação, proteção e reprodução de muitas espécies animais, sendo considerado importante gerador de bens e serviços.
No que diz respeito à energia e à matéria, são sistemas abertos recebendo, em geral, um importante fluxo de água doce, sedimentos e nutrientes do ambiente terrestre e exportando água e matéria orgânica para o mar ou águas estuarinas. Peixes, aves, crustáceos, moluscos e outros invertebrados encontram nos manguezais alimento, refúgio contra predadores e área para reprodução e crescimento.
Entre os ambientes costeiros, o manguezal pode ser classificado, em termos de potencial de vulnerabilidade aos impactos de derramamento de óleo, como o ecossistema
mais sensível. Tal vulnerabilidade é baseada na interação da costa com processos físicos relacionados com a deposição do óleo, permanência deste no ambiente e extensão do dano ambiental. Além disso, é importante ressaltar também que não existem técnicas que permitam limpar ou remover completamente o petróleo dos manguezais.
Alguns exemplos de manguezais podem ser vistos na Figura 3.3.
Figura 3.3 - Exemplos de maguezais
Marismas:
Os marismas são áreas úmidas freqüentemente inundadas, caracterizadas por vegetação herbácea emergente adaptada às condições saturadas do solo (Figura 3.4).
Figura 3.4 - Exemplos de marismas
Os marismas constituem sistemas ecológicos utilizados por larvas e jovens de numerosas espécies de peixes e invertebrados, que procuram abrigo e alimento nos canais de maré e nas depressões do substrato. Aves aquáticas migratórias procuram os marismas como escala para repouso e alimento.
O impacto do óleo nos marismas varia em função de alguns fatores, incluindo a quantidade de óleo, tipo e eficiência da atividade de limpeza, tipo de óleo, estrutura física e biológica do marisma, latitude e estação do ano. Um derrame de óleo antes ou durante a floração pode causar uma redução na floração e produção de sementes.
Os marismas, assim como os manguezais, estão nos níveis mais altos da escala de vulnerabilidade a derrames de óleo. Os marismas, em termos gerais, são consideradas como habitats altamente susceptíveis ao dano por óleo, requerendo proteção onde for possível, cuidados durante a limpeza e, em alguns casos, restauração.
Praias Arenosas:
As praias são depósitos de sedimentos inconsolidados, constituídos geralmente por areias, cascalhos, conchas, entre outros, acumulados predominantemente por ação das ondas que, por apresentarem mobilidade, se ajustam às condições hidrodinâmicas. Representam, por esta razão, um importante elemento de proteção costeira, ao mesmo tempo em que são amplamente usadas para o turismo e o lazer (Lima 2004).
As praias, em primeira análise, aparentam ser um ambiente desértico uma vez que a grande maioria dos organismos que compõem sua fauna encontra-se no interior do sedimento. Exemplos de praias arenosas são mostrados na Figura 3.5.
Figura 3.5– Em (a) vista geral de uma praia arenosa abrigada, e em (b) praia arenosa com forte ação de ondas.
O ambiente de praias está sujeito a fatores ambientais diversos que moldam a comunidade biológica associada. Entre eles destacam-se o regime de marés, ação das ondas, declividade, temperatura, salinidade, oxigênio e conteúdo orgânico do sedimento. A diversidade e abundância das espécies decrescem com o aumento do grau de exposição de praia. Diversos fatores influem no grau de impacto de um derrame de óleo, sendo os principais o declive, hidrodinamismo, marés, granulometria e composição biológica.
Costões Rochosos:
Costões rochosos são afloramentos de rochas na linha do mar, e sujeitos à ação das ondas, correntes e ventos, podendo apresentar diferentes configurações como, falésias,
(b) (a)
matacões e costões amplos (Figura 3.6). Integrantes das zonas costeiras, os ambientes entre-marés encontram-se permanentemente sujeitos a alterações dos níveis do mar no local. Com isso, nos níveis mais altos dos costões prevalecem condições ambientais muito diferentes daquelas que ocorrem nos níveis mais próximos da água.
Figura 3.6 – Vista geral de um costão rochoso
Os costões rochosos comportam uma rica e complexa comunidade biológica, a qual representa um importante papel como ecossistema costeiro. O substrato duro favorece a fixação de larvas e esporos de diversas espécies de invertebrados e de macroalgas.
Em costões rochosos atingidos por petróleo, processos como o hidrodinamismo e marés são fatores importantes a serem levados em consideração. Assim como em praias de areia, o grau de contaminação do entre-marés está ligado à maré atuante durante o evento (maior exposição em marés de sizígia). Com relação ao hidrodinamismo, costões expostos à ação das ondas são pouco sensíveis a derrames, já que o óleo é retirado rapidamente do ambiente. Costões rochosos abrigados da ação das ondas, entretanto, constituem ambientes sensíveis a impactos já que o tempo de residência do óleo pode ser muito alto.
Recifes de Coral
Recifes de coral são estruturas calcárias tropicais, de água rasa, que dão suporte a uma variada associação de organismos marinhos (Barnes 1984). São classificados em três tipos principais: recifes de franja, recifes de barreira e atóis (Figura 3.7). Os primeiros dois tipos são paralelos à linha de costa, com recifes de franja sendo localizados em águas rasas rente à costa e recifes de barreira mais afastados da costa, maiores e
usualmente contínuos por grandes distâncias. Atóis constituem ilhas de coral em forma de anel contendo uma lagoa central (API 1985).
Figura 3.7 – Exemplos de recifes de coral.
Os recifes de coral são encontrados tipicamente em águas rasas. Há, entretanto, aqueles que se encontram parte do tempo expostos durante a maré baixa. Estes são muito susceptíveis a derrames, já que o óleo pode alcançar a zona costeira durante marés baixas e atingi-los diretamente.
O tipo do óleo é um fator muito importante a ser considerado. Óleos leves, por apresentarem frações tóxicas solúveis, exibem elevado perigo aos recifes de águas rasas. Óleos mais grossos dificilmente entram em contato com corais das regiões do sublitoral. Águas com altas temperaturas, necessárias ao desenvolvimento de corais, asseguram um rápido crescimento de microorganismos capazes de degradar hidrocarbonetos. Entretanto, a natureza calcária formadora do esqueleto desses animais, é um fator agravante, pois nesse substrato o petróleo adere e é absorvido.
Recifes de coral são ambientes sensíveis, e os derrames podem causar impactos desastrosos. O fato dos recifes de coral necessitarem de muita luz para seu desenvolvimento os torna mais vulneráveis aos derrames de óleo, uma vez que o recobrimento afeta diretamente a incidência luminosa sobre os corais.
Substratos marinhos
Fundo marinho é a porção do substrato oceânico permanentemente submerso. Segundo as características do substrato, os fundos marinhos podem apresentar-se como arenosos, lamosos ou rochosos (Figura 3.8).
Figura 3.8 – (a) Fundo marinho arenoso, e (b) fundo marinho rochoso.
Por promover um local protegido (refúgios) devido à presença de tocas, fendas, rochas sobrepostas, entre outros, os fundos rochosos abrigam uma comunidade biológica associada igualmente rica, sobretudo em peixes, moluscos e crustáceos.
Devido à sua menor densidade e conseqüente flutuabilidade na água, o petróleo raramente atinge os ambientes de fundo diretamente. Com isso, em termos gerais, esses ambientes são pouco susceptíveis a derrames de óleo. Contudo, em águas rasas, os habitats de fundo podem eventualmente ser contaminados. Óleos pesados ou muito intemperizados podem também alcançar o fundo através da coluna d'água.
No caso de ambientes de fundo inconsolidado contaminados, a tendência do óleo se acumular ou se misturar com o sedimento assegura uma longa persistência do mesmo no meio. O petróleo pode persistir no sedimento por 5 a 10 anos ou mais, especialmente em locais abrigados.
Águas abertas, costeiras e oceânicas:
A comunidade biológica presente nas águas abertas é composta basicamente por fitoplâncton (algas microscópicas), zooplâncton (larvas de peixes e invertebrados, animais microscópicos), peixes, répteis, mamíferos e aves marinhas. A zona pelágica é dividida em águas costeiras e águas oceânicas, cujas características são:
Águas costeiras
Abrangem os corpos d'água desde a zona intermarés até os limites da plataforma continental (cerca de 200 metros de profundidade, e de 50 a 200 km de distância da costa). Tanto em termos de quantidade como em diversidade, a zona costeira comporta a
(a)
grande maioria dos organismos marinhos, como reflexo principalmente das condições favoráveis de nutrientes presentes nas águas desta zona (Figura 3.9).
Figura 3.9 - Águas costeiras, ambientes de elevada produtividade.
Águas oceânicas
São as águas além da plataforma continental, com profundidade acima de 200 metros, as quais são caracteristicamente pobres em nutrientes e conseqüentemente comportam comunidades biológicas mais pobres (Figura 3.10).
Figura 3.10 – Águas Oceânicas.