4 Research Method
4.5 Own reflections
Os periódicos científicos, tanto em sua versão impressa quanto eletrônica, desempenham importante papel no processo de comunicação científica. Dentre as principais funções desempenhadas pelos periódicos, podem ser citadas:
disseminar informações de interesse dos cientistas (HERSCHMAN,1970);
servir como registro oficial público da informação (HERSCHMAN,op.cit), e como arquivo do conhecimento (MEADOWS, 1979). Nesse sentido, ao desempenhar a função de memória da Ciência, a revista científica torna-se fonte para o início de novas pesquisas;
estabelecer a prioridade da descoberta científica (HOUGHTON, 1975); proporcionar status científico e social a uma disciplina (LE COADIC, 2004); apresentar-se como um meio de atualização permanente (MEADOWS, op.cit); e permitir a ascensão do cientista para efeito de promoção, reconhecimento e
conquista de poder em seu meio (ZIMAN, 1979). Sabe-se que, aquele periódico que recebe o maior número de citações na literatura e que, consequentemente, se torna o mais prestigiado em uma determinada área, tende a atrair os melhores pesquisadores.
É válido ressaltar que neste trabalho as expressões “periódico científico” e “revista científica” serão utilizadas com a mesma denotação. Meadows (1999) elucida que o termo revista (journal, em inglês) é uma maneira abreviada de se referir a uma coletânea de artigos científicos escritos por diferentes autores. Afirma, ainda, que tais artigos são reunidos a intervalos e distribuídos sob um título único. Já o termo periódico, apesar de se referir a qualquer publicação que apareça a intervalos determinados e de conter diversos artigos de diferentes autores, é um termo muito utilizado, aqui no Brasil, com o sentido da expressão inglesa “journal”. Sendo assim, ambos os termos serão tratados como uma coletânea de artigos científicos escritos por diferentes autores.
A fim de melhor compreender o que venha a ser periódico (ou revista) científico(a) de uma maneira geral, é pertinente utilizar a definição de Garvey (1979). Ele o conceitua como um conjunto publicado de artigos, postos em forma ordenada e formalizada. Le Coadic (2004) explica que a “conjunto publicado” deve se entender que qualquer membro da sociedade científica pode submeter um manuscrito a uma revista tendo em vista sua publicação. E, por conseguinte, qualquer um pode a ela ter acesso. Quanto a “conjunto
ordenado”, Le Coadic (op.cit) elucida que os artigos são selecionados segundo seu mérito científico. O que significa dizer que os trabalhos relatados foram efetivamente realizados e que seus resultados aperfeiçoam resultados anteriores e abrem novas perspectivas de pesquisa. É importante notar que essa seleção é feita por comitês editoriais ou de redação, que servem, portanto, como filtros cognitivos. Por fim, quanto a “conjunto formalizado”, entende-se que somente após os manuscritos dos artigos terem sido revisados é que se autoriza sua publicação na revista, na qual podem ser encontrados e citados sem ambiguidades.
É interessante ressaltar que o surgimento dos primeiros periódicos científicos impressos data do século XVII, mais precisamente do ano de 1665. Até essa época, os cientistas utilizavam correspondências pessoais e atas ou memórias de reuniões para transmitirem suas idéias aos seus pares. De acordo com Stumpf (1996), as cartas eram enviadas pelos homens das Ciências aos seus amigos para relatar suas descobertas mais recentes. Há que se observar que essas correspondências circulavam entre pequenos grupos de interessados que, por sua vez, as examinavam e discutiam criticamente. Subentende-se, dessa forma, que, àquela época, a divulgação das pesquisas era direcionada, uma vez que seus autores dificilmente enviavam a pessoas que pudessem refutar suas teorias ou rejeitar seus experimentos. Sobre as atas ou memórias, Stumpf (op. cit) diz que esses documentos consistiam em transcrições das descobertas que eram relatadas durante as reuniões de uma sociedade científica e depois impressas na forma resumida. Serviam de fonte de consulta e referência aos membros dessas sociedades. Contudo, dadas as suas peculiaridades de apenas atingir pequenos círculos de pessoas, tanto as cartas quanto as atas não se constituíram em um método ideal para a transmissão dos resultados científicos. É nesse cenário que surgem os periódicos científicos. O intuito principal era formalizar o processo de comunicação científica.
Meadows (1999) descreve a origem das revistas científicas ao citar o Journal des Sçavants (mais tarde, chamado de Journal des Savants), publicado em janeiro de 1665, em Paris, e a Philosophical Transactions, publicada em março de 1665, pela Royal Society, em Londres. De acordo com o autor, ambas as publicações tinham o propósito de divulgar informações de interesse dos homens letrados. Contudo, a Phil. Trans. limitava-se a informações de estudos “experimentais”, diferentemente do Journal des Savants, que se concentrou em temas não-científicos. Dessa forma, Meadows (op. cit) conclui que a Phil. Trans. foi a precursora do moderno periódico das Ciências e o Journal des Savants, precursor do periódico moderno de Humanidades.
Nota-se que, no Brasil, os periódicos científicos começaram a surgir em meados do século XIX, ou seja, dois séculos após o aparecimento dos exemplares europeus. A primeira publicação foi a Gazeta Médica do Rio de Janeiro, criada em 1862 e, a seguir, surgiu a Gazeta Médica da Bahia, em 1866. Entretanto, a primeira revista regularmente publicada no Brasil foram os Anais da Academia de Ciências, em 1917, com o nome de Revista da Sociedade Brasileira de Ciências (SOUZA, 2006).
Ressalta-se que o surgimento das revistas não substituiu por completo as outras formas de comunicação. Pelo contrário, todas coexistiram. Contudo, e como já mencionado, a criação dos periódicos científicos significava uma formalização do processo de comunicação. Como esclarece Meadows (1999), o principal motivo para o seu surgimento foi a necessidade de comunicação, do modo mais eficiente possível, com uma clientela cada vez mais crescente e interessada em novas realizações.
Vale dizer que apesar de se já terem passado mais de três séculos desde o surgimento das revistas científicas, verifica-se que o sistema tradicional de publicação de periódicos científicos carece de modificações a fim de atender as necessidades atuais da comunidade científica. Os altos preços das assinaturas das revistas se destacam como uma das principais reclamações dos cientistas. Nesse cenário, o crescimento exponencial no número de títulos de publicações, consequência da fragmentação dos campos em áreas cada vez mais especializadas tem dificultado a manutenção das coleções de periódicos em muitas bibliotecas de universidades e de centros de pesquisa, em vista dos poucos recursos que dispõem.
Ademais, outro fator que tem provocado descontentamento entre os cientistas é o relacionado à morosidade na produção e distribuição das revistas científicas Vale dizer que até a década de 80 do século passado, os periódicos só existiam em formato impresso, e foi justamente nessa época que se assistiu ao ápice da crise dos periódicos científicos. Nas palavras de Mueller (2006, p. 31):
O gatilho da crise foi a impossibilidade de as bibliotecas universitárias e de pesquisa americanas continuarem a manter suas coleções de periódicos e a corresponder a uma crescente demanda de seus usuários, impossibilidade decorrente da falta de financiamento para a conta apresentada pelas editoras, cada ano mais alta, mais alta mesmo que a inflação e outros índices que medem a economia. Isso já vinha acontecendo nos países em desenvolvimento, inclusive no Brasil, cujas bibliotecas já não conseguiam manter suas coleções atualizadas, mas a crise só detonou quando atingiu as universidades norte-americanas.
Iniciativas no sentido de reverter tal quadro têm sido buscadas desde então. É preciso ressaltar que a introdução das tecnologias de informação e comunicação no ambiente de pesquisa tem contribuído para a promoção de mudanças. O surgimento dos periódicos científicos eletrônicos, dos repositórios digitais, dentre outros, são exemplos claros. Uma discussão mais aprofundada sobre esse assunto será tratada mais adiante.
Antes, torna-se oportuno relatar que apesar de existirem uma variedade de tipos de periódicos científicos, uma exigência se torna comum a eles: a de estarem em consonância com as exigências e necessidades de seu público-alvo. Ou seja, é imperativo que os editores de tais veículos se atenham aos padrões de comunicação da área do conhecimento a que se destinam. Diante desse fato, o tema “padrões de comunicação científica”, assim como outras questões relacionadas serão discutidas a seguir.