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Quais seriam as vantagens que a história poderia obter se passasse a considerar a narrativa histórica um esboço de explicação científica? Na perspectiva da leitura de Stegmüller6, realizada por Veyne, não teríamos muito a ganhar. Se, mais freqüentemente, a tendência dos esboços de explicação científica é a de que estes sejam substituídos e não completados, então tudo o que os homens pensaram desde sempre pode ser considerado esboço de explicação científica (Ibid., p. 200-202); entretanto, o abismo existente entre a explicação histórica7 e a científica consiste no fato de que para se passar de uma à outra é preciso haver uma adequação da história aos critérios científicos de análise. Tal adequação mostra-se inviável para a história, uma vez que não podemos formular leis científicas dos acontecimentos sublunares.

[...] Eis-nos agora preparados para mostrar que a explicação histórica não é um ‘esboço de explicação’ científica ainda imperfeita e de dizer porque a história não se transformará nunca numa ciência: ela está presa à explicação causal de onde parte; mesmo que as ciências humanas descobrissem amanhã inúmeras leis, a história não seria, no entanto, transformada, ela permaneceria o que é (Ibid., p. 204-205).

Após apresentarmos alguns elementos a respeito da compreensão histórica e das dificuldades da história se tornar uma ciência, trataremos a partir deste ponto do progresso do conhecimento histórico.

Da mesma maneira que a história não possui teoria, tipos, ela também não possui método. Entretanto, não suponhamos que, à falta de método, qualquer pessoa possa forjar-se historiador sem preparo prévio: ela possui uma cultura (Ibid., p. 255-256).

Essa cultura histórica se alarga com o passar do tempo, com o prolongamento do número de questões que colocamos aos documentos e com a conceituação. Atualmente podemos formular questões sobre a Guerra do Peloponeso que não eram possíveis a

6 STEGMÜLLER, Wolfgang. (apud Veyne, 1984, p. 181, nota 2).

7 Note que Veyne usa a expressão explicação história quanto passa a tratar da história como esboço de

Tucídides; todavia, isso não significa que saberemos melhor do que Tucídides o que fora essa guerra. Como declara Veyne:

A formação do pensamento histórico consiste no seguinte: a inteligência da história enriqueceu-se desde os gregos até nós; não porque conheçamos os princípios ou os fins dos acontecimentos humanos, mas adquirimos desses acontecimentos uma casuística bastante mais rica desses acontecimentos. Este é o único progresso de que a historiografia é susceptível. (Ibid., p. 255)

O enriquecimento da visão acerca do passado só é possível com a criação de novos conceitos. Dispomos de alguns que S. Tomás ou Tucídides não tinham acesso em suas épocas, tais como:

[...] classes sociais, modos de vida, mentalidades, atitudes econômicas, racionalismo, paternalismo, conspicuous consumption, ligação da riqueza com o prestígio e o poder, conflitos, mobilidade social por curto-circuito, nobreza da cidade e do campo, riqueza mobilizável, riqueza imobilizada, procura da segurança, dinastias burguesas [...] (Ibid., p. 256).

Ao prolongamento do questionário do historiador, Veyne dá o nome de tópica ou topoi. A tópica, se não permite descobrir uma nova perspectiva sobre os acontecimentos, ao menos possibilita percebermos a acumulação de um conhecimento maior do passado, pois, o “[...] enriquecimento de lugares é o único progresso que o conhecimento histórico pode fazer [...]” (Ibid., p. 270). Dessa maneira, quando trabalhamos com determinados acontecimentos já temos estabelecida uma lista de questões levantadas e, a partir daí, sabemos quais delas são pertinentes e, assim, forjar novos conceitos, novas intrigas, perceber o não-acontecimental. Na pena do autor:

O enriquecimento secular do pensamento histórico faz-se através de uma luta contra a nossa tendência natural para banalizar o passado. Traduz-se por um aumento do número de conceitos de que dispõe o historiador, e, por conseguinte, por um prolongamento da lista de questões que saberá colocar aos seus documentos [...] (Ibid., p. 260).

Seguindo o exemplo de Veyne, vejamos como se opera com uma tópica das sociedades pré-industriais. Para estudar as sociedades pré-industriais, o historiador dispõe de uma tópica, na qual poderá enumerar, a priori, um certo número de questões e interrogar-se a respeito da presença ou ausência de certas particularidades: de um lado, a perspectiva de

progresso, a forma de governo, os produtos artesanais, os ofícios, a agricultura; por outro lado, outras tópicas são mais difíceis de serem formuladas: definir a existência e importância das cidades, a mobilidade social, a vida política entre pequenos grupos; essa dificuldade resulta da falta de documentos, de conceitos que nos permitam ter uma dimensão mais apropriada dessas sociedades.

A tópica não deve ser concebida como uma tipologia, que reuniria as intrigas e os conceitos, “[...] os topoi não são para reunir, mas para separar [...]” (Ibid., p. 264). Se nos propomos estudar a Revolução de 1917, dispomos de uma tópica sobre o conceito de Revolução, o que nos ajudará a entender melhor como esse conceito se modifica e se amplia ao longo da história; todavia, ela não nos explicará o que fora a Revolução de 1917. Os conceitos não podem ser transportados de um período a outro sem que sejam levadas em conta as transformações históricas, pois, caso se faça uso dos conceitos sem atentar para suas mudanças e acontecimentos envolvidos por eles em cada momento histórico, estabelecer-se-á, então, o anacronismo histórico, justamente um dos elementos que se procura evitar quando se formula uma tópica. A tópica, “[...] Longe de desembocar numa ciência ou numa tipologia, não deixa de confirmar que o homem é matéria variável sobre a qual não se pode fazer um juízo definitivo [...]” (Ibid., p. 270).

A história pode elaborar conceitos e tópicas que permitem um acúmulo de cultura historiográfica e uma percepção mais refinada da originalidade dos acontecimentos (que seria a única forma de progresso possível em história), mas continua a ser descrição sem método e prestando-se mal a uma formalização científica. Essa formalização não é apenas a das ciências da natureza, como a física ou a química, mas também a das ciências dos homens, isto é, as ciências humanas.