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Reflections and Future Research

7 Concluding Remarks and Reflections

7.2 Reflections and Future Research

Poderíamos, tendo em mente tais considerações, formular uma outra indagação importante: a indústria, que criou um mercado de bens culturais, desempenharia, neste jogo de transgressão e normalização, uma ação semelhante àquela desempenhada anteriormente pela paródia? Tentaremos responder a esta pergunta relacionando-a, principalmente, com o desenvolvimento de uma ideologia de dominação que utilizou vários instrumentos de manipulação, entre eles, o riso e a diversão produzida em série.

Acreditamos, considerando as próprias características do funcionamento da indústria cultural, que a contestação dadaísta recebeu, por um breve período, uma espécie de permissão ou condescendência para atacar os valores da cultura burguesa das sociedades ocidentais européias. Entretanto, as suas atitudes de provocação, o seu riso, suas intervenções iconoclastas e o seu niilismo irônico foram, logo em seguida, assimilados como elementos da própria arte mercadoria ou do simples entretenimento combatido pelo Dada. O riso dadaísta adquiriu, portanto, um novo estatuto; como mais uma vítima do poder econômico, ao ser transformado em mercadoria, ele passou a servir a outros interesses, ou seja, seus virulentos ataques foram anulados, podendo, inclusive, servir como estratégia de publicidade para atrair o olhar das massas e fomentar o desejo para os novos lançamentos promovidos pela indústria cultural.

Poderíamos dizer que Dada representou, neste contexto histórico do desenvolvimento capitalista, muito mais uma suspensão temporária das normas estéticas e morais prevalecentes do que uma efetiva destruição das mesmas. Tal situação foi percebida pelos seus próprios participantes, afinal, já na época dos primeiros manifestos e soirées, eles afirmavam que Dada somente poderia realmente permanecer fiel ao espírito dadaísta negando tudo, inclusive a si mesmo, esta negação sistemática, realizada, em muitos casos, através do riso, constituiu-se, assim, no único princípio admitido como válido na concepção de muitos dos artistas que participaram deste debate sobre o papel da arte na sociedade industrial.

Os dadaístas, tendo como premissa à elaboração de intervenções artísticas em que o acaso, consciente e inconsciente, desempenhou um papel determinante para que o público reconhecesse as características das suas atividades críticas e agressivas, gargalharam dos valores da sociedade burguesa de sua época. Eles puderam rir de quase tudo, do Imperador, do patriotismo, da barriga de cerveja do fariseu, da pretensão da arte feita no ateliê, do conhecimento científico, da pretensão do intelectual e, coerentemente, da sua própria atividade. Somente o riso foi levado a sério, tornando-se, desse modo, uma garantia da seriedade com que a maioria dos artistas vinculados ao Dada buscou elaborar suas atividades niilistas e antiartísticas.

O seu riso poderia ser compreendido, como observamos até agora, como a melhor expressão que tais artistas encontraram para transmitir suas experiências e frustrações diante das inúmeras contradições vividas naquele momento marcado por importantes transformações sociais, econômicas e políticas. Considerando a sua íntima relação com a característica da negação absoluta, podemos entender melhor porque os dadaístas utilizaram o riso como uma expressão bastante particular, mas de forma alguma exclusiva dessa vanguarda, para manifestar sua revolta contra os problemas da sociedade capitalista. Ele funcionou, desse modo, como uma maneira de refletir a angústia daqueles artistas diante da falta de sentido dos

acontecimentos suscitados nas sociedades industrializadas logo após o período da Primeira Guerra Mundial.

O riso tornou-se fundamental, nesse sentido, para definirmos o caráter das suas manifestações e, por isso mesmo, pode ser encontrado em todas as suas intervenções, ou seja, a proposta Dada de destruição dos valores burgueses, os seus princípios anárquicos e as suas atitudes extremamente agressivas para com o público aconteceram como algo marcado pelo riso.

A simples alteração em alguma lei da pintura, a criação de uma técnica poética que privilegiasse o simultâneo, uma modificação mais radical no metro dos versos, enfim, qualquer reformulação nos princípios estéticos, como, por exemplo, os futuristas e os cubistas propunham, já não era suficiente para contentar os anseios, as críticas e as reflexões dos dadaístas. Já não se tratava do mero desenvolvimento de uma outra maneira inovadora de olhar o objeto artístico. Entretanto, o artista deveria, segundo os argumentos defendidos nos manifestos elaborados pelo Dada, estar disposto a se entregar a uma criação vigorosa que colocasse em questão a própria realidade social criada pelo capitalismo:

Toda a obra pictórica ou plástica é inútil; ainda que seja um monstro capaz de meter medo aos espíritos servis e suficientemente não adocicada para ornamentar os refeitórios dos animais vestidos de gente, ilustrações desta triste fábula que é a humanidade.- Um quadro é a arte de fazer com que duas linhas geometricamente verificadas paralelas se encontrem, sobre uma tela, perante nossos olhos, dentro da realidade dum mundo transposto e segundo condições e possibilidades novas. Esse mundo não está especificado nem definido na obra, pertence nas suas inúmeras variações ao espectador. Para o seu criador, é um mundo sem causa e sem teoria. Ordem=desordem; eu=não-

eu; afirmação=negação: supremas cintilações duma arte absoluta. Absoluta

em pureza de caos cósmico e ordenada, eterna no segundo globular sem duração, sem respiração, sem luz, sem controlo. (...) Os autores que ensinam moral e que discutem ou pretendem melhorar a base psicológica têm, para além do desejo escondido de ganhar, um conhecimento ridículo da vida, que classificaram, repartiram, canalizaram; obstinam-se em ver dançar as categorias ao som do compasso que marcam. Os respectivos leitores sorriem e continuam: para quê? (TZARA, 1987, p. 14).

Os artistas ligados ao Dada mostraram-se, portanto, desejosos de promover um rompimento total com os valores culturais de uma sociedade que utilizou a tecnologia para exterminar milhões de vidas. Basta, para imaginarmos as razões para tal repúdio, lembramos que as potências centrais lançaram um violento ataque a Verdun em fevereiro de 1916, quando tal ofensiva terminou, em julho do mesmo ano, não havia nem vencidos e nem vencedores na batalha, entretanto, franceses e alemães contabilizaram milhares e milhares de mortos pela ação inédita de tanques, aviões caças e outras novidades tecnológicas empregadas em uma batalha em que os soldados entrincheirados passavam meses sem avançar um centímetro no campo inimigo.

Podemos, através dos violentos ataques realizados pelos dadaístas, compreender todo o repúdio destes jovens artistas em relação à guerra. Provenientes de vários países e refugiados em Zurique eles não quiseram, portanto, aceitar a vida numa sociedade que considerava os seres humanos, sobretudo, aqueles capazes de passar em alta velocidade com um veículo motorizado sobre milhares de cadáveres nos campos de batalha, ou seja, qualquer idiota ou canalha que estivesse de acordo com os padrões culturais estabelecidos, como se fossem heróis que merecessem todas as honrarias possíveis.

O riso, elemento comum nas virulentas provocações Dada, expressou o repúdio desta geração de poetas que observou a criação de mecanismos de coerção que, na verdade, impuseram certa maneira de ver o mundo, de acordo, evidentemente, com critérios pragmáticos ou utilitaristas. O desenvolvimento destes elementos de dominação, baseados em certas práticas sociais, econômicas e culturais, representou a destruição de toda e qualquer possibilidade de interpretar e criar uma visão de mundo mais poética. O riso dadaísta revelou, neste sentido, a não concordância com a racionalidade utilizada para a dominação do homem e da natureza em prejuízo do próprio homem. Devemos sempre notar que Dada escarneceu a existência cotidiana das massas como uma forma de protesto contra a sua banalização. Certo riso, suscitado por muitas de suas costumeiras zombarias, precisaria ser interpretado como uma maneira para desmoralizar a ideologia patriótica fomentada, através da ciência e dos meios de comunicação de massa, pelas nações imperialistas. O seu escárnio, além disso, refutou a burocratização de todos os aspectos da vida cotidiana e também significou um protesto na tentativa de evitar que a arte se transformasse em uma simples mercadoria destinada à diversão das massas alienadas, ou ainda, em uma, valorizada, porém, morta, peça de museu.

O riso dadaísta presente em Zurique, Colônia, Berlim ou Paris adquiriu, como podemos observar pela discussão do parágrafo anterior, uma determinada conotação agressiva, ou seja, ele passou a significar, de um modo geral e irrestrito, uma eficiente forma de atacar e contrariar os valores morais, econômicos, educacionais, estéticos e políticos defendidos pela opinião pública.

As tradicionais exposições dadaístas já não eram suficientes, nesse sentido, como forma de confrontar o espectador comum. Nem todos os filisteus vinham, afinal, ver os quadros, poemas e espetáculos promovidos pelos grupos de artistas ligados ao Dada. Houve, por isso mesmo, a premente necessidade de inventar e provocar, ininterruptamente e em escala cada vez maior, escândalos, através, inclusive, de veículos de comunicação de massa como os jornais, tornou-se, com o tempo, algo importante em todas as cidades que foram palcos de suas atividades críticas:

Certo dia, os jornais suíços trouxeram a notícia de um duelo de pistolas, que teria sido travado na Rehalp entre dois caciques dadaístas, Tzara e Arp. A testemunha de uma das partes teria sido o poeta J. C. .Heer (‘Rei da Bernina’, etc.), amado e famoso em toda a Suíça. Quando a notícia apareceu, uma boa parte da opinião pública torcia para que pelo menos um dos contendores, de preferência os dois, tivesse morrido na disputa. Ao mesmo tempo, porém, a mesma opinião pública perguntava-se o que um senhor tão maduro e nem um pouco extravagante como J. C. Heer tinha a ver com uma disputa destas? Já na manhã seguinte os mesmos jornais que haviam trazido a notícia do duelo continham um desmentido indignado de J. C. Heer. Dizia que ele não estivera em Zurique, e sim em St. Gallen, e que, evidentemente, não se prestara a este empreendimento totalmente contrário à lei. Na noite do mesmo dia, seguiu-se um desmentido do desmentido, cujo primeiro parágrafo provocou um suspiro de pesar na população de Zurique: nenhum dos dois duelistas se ferira (pois ambos haviam atirado na mesma direção, fazendo a bala passar ao lado do alvo). O segundo parágrafo, entretanto, confundiu completamente os leitores. Duas testemunhas (ambos dadaístas, é bem verdade) afirmaram que, evidentemente, compreendiam que uma figura insigne como J. C. Heer não haveria de querer ver o seu nome oficialmente ligado às disputas indômitas dos jovens; mas que era necessário honrar a verdade (com uma polida reverência diante do digníssimo poeta): ele estivera presente como testemunha e padrinho. (RICHTER, 1993, p. 85).

A técnica da inquietação, do ataque e da ofensa aos valores do público foi amplamente utilizada nos espetáculos, manifestos e notícias, quase todas, falsas (o duelo, por exemplo, não aconteceu e o poeta Heer realmente estava em St. Gallen) criados pelos dadaístas. Ela desenvolveu-se amplamente não só na sua fase inicial em Zurique, mas, também em Berlim, Praga e, principalmente, no período final em Paris.

Os dadaístas, no entanto, rapidamente descobriram que o público gostava de suas provocações e que ele começou até mesmo a acalentar o desejo consumi-las. O seu riso passou a ser considerado como se fosse parte de um agradável entretenimento, pois, a massa de espectadores terminou por se imunizar completamente, permanecendo insensível, ou pior ainda irascível, contra as suas mais chocantes provocações. As atitudes mais iconoclastas e niilistas, com o tempo, deixaram de ter efeito que o artista esperava, ou seja, o público não refletia ao se deparar com certa atitude provocativa e se exímia de qualquer sentimento de culpa. O indivíduo, tendo sua consciência entorpecida pela indústria cultural, podia encarar todos os novos xingamentos e blasfêmias criadas pelos dadaístas como uma simples diversão. O riso como forma de manifestação de um pensamento crítico transformou-se, portanto, em mais uma mercadoria explorada pelos interesses da sociedade burguesa.

Podemos ressaltar, dessa maneira, a existência de uma diferença significativa entre o contexto social da modernidade e o universo medieval, principalmente, quando pensamos na relação do riso com outros aspectos ideológicos e políticos do capitalismo industrial. Trata-se de evidenciarmos que a vitória das forças populares, através da contestação cultural, não ocorreu efetivamente, pelo contrário, sua massificação, realizada pelo capitalismo industrial moderno, transformou-a, como procuramos discutir neste capítulo, em uma lucrativa mercadoria e também em um importante fator de alienação das massas.

Devemos, portanto, apontar, completando, na verdade, o quadro que começamos a elaborar tendo como referência inicial às características da paródia moderna, para outros problemas contidos no sentido que o riso assumiu numa sociedade unidimensional, ou seja, para as possíveis implicações existentes entre a ideologia da indústria cultural e as práticas adotadas pelos dadaístas no seu questionamento radical dos valores burgueses.