Dimensões Facilitadoras Dimensões Dificultadoras
1) A preparação para o parto
2) Epi-no como instrumento para a
preparação e segurança no parto.
3) Informação – chave para o
empoderamento.
4) Mudança da cultura do parto através da reivindicação das classes.
5) O apoio familiar como contribuinte para a autonomia da mulher no parto.
6) O trabalho de parto com caráter único para cada mulher.
1) Dificuldade de aceitação dos profissionais e das pessoas na escolha da mulher pelo parto natural.
2) Imaginário social do parto;
Capítulo 5: RESULTADOS E DISCUSSÃO
Apresenta-se como resultados desta pesquisa as estratégias utilizadas pelas mulheres para seu empoderamento, no sentido de resgatar a autonomia na escolha do parto e o enfrentamento da medicalização do parto. Os resultados também apontaram a necessidade de capacitação da equipe de saúde, em especial da enfermagem para o atendimento ao parto e nascimento, visando esclarecimentos quanto ao parto natural, desenvolvimento de iniciativas para a formação de grupos de apoio ao parto natural em diversos locais e conquistas de espaços para a divulgação do parto natural na atenção pública e privada.
Com base nos sete relatos comunicativos, foram identificadas as temáticas abaixo, as quais foram revisadas pelas mulheres entrevistadas, agrupadas por semelhança de significados em 14 temas, os quais foram validados por um grupo de mulheres gestantes de um grupo de apoio ao parto, não participantes da pesquisa, explicado anteriormente
Temáticas identificadas:
Conhecendo sua história: “Como eu nasci?” – desmistificação do parto Imaginário social do parto
Experiências de outras mulheres Cultura da cesárea
Preparação física e psicológica para o parto: epi-no e grupo de apoio ao parto Imagem do corpo feminino como flexível e adaptável.
Escondendo o jogo 1: omitir para se proteger Escondendo o jogo 2: omitir a prática para enganar. Idealização do parto perfeito.
O apoio do profissional e da doula.
Reconhecendo as fases do trabalho de parto: mudando a cultura do nascimento Vivência empoderada do nascimento: individualidade do parto
Violência obstétrica: intervenções desnecessárias: “eu não quero isso para mim!”
5.1 Conhecendo sua história: “como eu nasci?”
Para as entrevistadas, as experiências sobre parto obtidas na infância e/ ou adolescência, por meio de familiares (mãe, tias, avós), trazem a ideia de algo quase misterioso, velado, pouco comentado, percebido quando crianças como “assunto de adultos”, parto difícil e que exigia “capacidade” da mulher, com alta probabilidade de mortalidade materna. De qualquer forma, nem tudo era escondido, as mulheres relataram lembranças de mulheres deitadas em posição ginecológica para parir, às vezes amarradas e “gritando de dor”, os partos de novela, entre outras recordações que marcaram profundamente o parto como experiência ruim, dolorida, “a pior coisa do mundo”, amedrontadora, preocupante, traumática, marcada pelo medo e recheada de intervenções (fórceps, episiotomia, manobras de Kristeler, etc).
Da mesma forma a cesárea foi recordada como um alívio ao sofrimento do parto, desmarcando o desencorajamento da mulher. Além disso, a mulher em trabalho de parto não era valorizada, era somente mais uma a ser assistida, segundo os protocolos da época. Apesar de todas as ideias e experiências negativas vivenciadas no âmbito familiar, o parto normal, para estas mulheres é visto como mais saudável que a cesárea, porém ainda marcado pelo risco e pela imprevisibilidade.
“nunca tinha conversado muito com a minha mãe ou com as minhas tias sobre parto (...) o que eu sabia da minha mãe é que ela teve (...) o Parto normal ali na década de 80 (...) Ela teve indução por soro, no primeiro parto ela teve ocitocina sintética e episiotomia, todos aqueles procedimentos que viraram protocolo nessa época (...)” (E1).
“Sofrido. Amarrada na mesa com as pernas amarradas. Sem acompanhante nenhum. E só ali sentindo dor sem nenhuma medida de alívio da dor e tal. Então quando eu comentei que queria parto normal ela (mãe) achou uma loucura por conta disso. (E4)
“De parto só conhecia através da minha mãe, de televisão, que só passavam mulheres gritando para ter nenê e a experiência da minha mãe não foi muito boa (...) ela não dizia bem do parto normal. Ela teve três partos. O primeiro foi fórceps que acho que deve ter sido pior para ela o segundo, parto normal, também não dever ter sido muito bom. (...) e o terceiro já foi cesárea. (...)”. (E8)
O parto embora seja um evento fisiológico, foi incluído ao longo dos anos na prática médica como patológico, o que inverteu os papéis da mulher e dos profissionais que lhe prestam cuidados, colocando a mulher como sujeito passivo, ou seja, deixou de ser autonomia feminina (GONÇALVES et al, 2011).
As experiências negativas das mães das entrevistadas, bem como o sofrimento propagado pela mídia, através de novelas marcam o parto normal como “o pior” e a cesárea como alívio do sofrimento. Para a entrevistada E7, o que prevaleceu em seu imaginário foram informações pouco claras e tendenciosas, que despertavam questionamentos que não foram esclarecidos no seio familiar e cujas possíveis respostas a entrevistada pôde obter somente anos mais tarde com o grupo de apoio ao parto natural.
“Não sabia muita coisa porque fui criada por uma tia solteira e uma avó (...) o que eu sempre soube é que a minha avó teve cinco filhos, todos de parto normal (...) sabia que eu nasci de cesárea porque minha mãe não teve dilatação na primeira (gestação), então não quis arriscar na segunda.” (E7)
“Na verdade não era muito dito pra gente. A gente era criança, a gente via o que tava acontecendo, mas ninguém nunca falava ou explicava pra gente. Eu não lembro de alguém explicando como era o parto (...) as poucas memórias que eu tenho na infância e adolescência é da minha mãe, das minhas tias.” (E4)
“A minha imagem de parto normal é a imagem de novela (...) aquela coisa de amarrar as pernas e a mulher ficar ali se esgoelando (...) Era horrível, parecia que a pessoa ia morrer de dor ali já naquele momento (...). (E5)
Portanto, nota-se que a experiência/ conhecimentos pessoal e familiar do parto são imbuídos por crenças, mitos que imprimem medo, terror e ansiedade à mulher, mediante dúvidas que não podem ser sanadas, somente podem ser esclarecidas com a experiência positivas de outras mulheres (Oliveira et al, 2012).