Esta subseção se dedica a pensar os primeiros casos de representação da ideia de ciborgue na literatura7, antes de suas representações mais populares em produções au-
diovisuais e literatura de ficção científica e fantasia dos séculos XX e XXI. Ciborgues usualmente foram um tema de fascinação na literatura e na cultura popular como um
7 Em suma, as referências aqui apresentadas e na subseção posterior remetem ao compêndio apresentado
símbolo de evolução futura na ficção científica e especialmente como elementos de inter- rogação acerca do que nos faz humanos. Tais figuras fictícias permitem também uma série de maneiras de questionar acerca da subjetividade humana, percepção, consciência e inclusive como formas de avaliar e compreender o contexto cultural, político, social e técnico do momento de sua manifestação. O que caracteriza, em última instância, o ser humano? Há alguma forma de definir um marco em que o ser humano deixe de ser humano e torne-se híbrido com a máquina? Há a possibilidade de se perder uma humanidade ao realizar essa integração com a artificialidade?
Pode-se dizer, com certa segurança, que a manifestação mais antiga da ideia de ciborgue já se afigura na mitologia grega com a figura do mito de Ícaro, onde o jovem tem próteses de asas acopladas a fim de fugir de Creta voando. Tais asas são construídas por seu pai, Dédalo, que as faz utilizando cera de abelhas e penas de gaivota. Tal figura ancestral já demonstra como as possibilidades de modificação do corpo humano e do uso da tecnologia a fim de expandir capacidades e superar limitações do aparato físico orgânico humano. É importante citar aqui também essas figuras mitológicas como forma de trazer à tona uma reflexão comum acerca do uso de tecnologias ciborgues: o perigo inerente à tentativa de se modificar um elemento dado pela ordem natural - nesse caso, o corpo humano como moldado pelos deuses - e às consequências punitivas de se trazer essa ordem.
Na era contemporânea é comum que a primeira referência utilizada para se falar da ideia de ciborgue na literatura do século XIX seja a obra de Poe, O Homem que fora consumido. Contudo, gostaria de levar a atenção para outra obra: Frankenstein, de Mary Shelley. Usualmente, o romance Frankenstein é icônico quando se trata do gênero de ficção científica, porém é também ignorado na literatura de referência quando se trata da ideia de ciborgue. Porém, viso aqui fazer essa consideração a fim de entender que o monstro ficcional já aponta para essa ideia de uma forma de vida artificial e híbrida.
A criatura de Frankenstein é um ser criado a partir de partes de cadáveres de homens e animais, que recebe a vida a partir de intricados métodos não descritos a fundo na obra. Além da mistura de espécies distintas, o protagonista faz uso de métodos mistos, unindo a ciência fisiológica de seu tempo à alquimia dos antigos para dar vida ao monstro. Por mais que a princípio possa se entender essa criatura como uma entidade orgânica, ela não é uma entidade orgânica natural, mas sim uma entidade que carrega uma artificialidade inerente a si mesma. A criação de um ser humanoide artificial, dotado de uma consciência natural num corpo orgânico é um marco para como pensamos o ciborgue hoje.
Como citado anteriormente, outro trabalho icônico ainda no século XIX é o conto de Edgar Allan Poe, O Homem Que Fora Consumido. Nesta obra, um brigadeiro com o sugestivo nome de John A. B. C. Smith passa seus dias numa pilha de peças espalhadas no
chão. Smith foi reduzido a uma parte de gente, depois de desmembrado quando capturado por nativos americanos. Quando deseja se apresentar, ele monta a si mesmo, peça a peça, auxiliado por seu criado.
Esta obra, de 1853, é tida como canônica pois é a primeira que descreve com clareza esse híbrido - por mais que próteses para membros já existam pelo menos desde o século XV -, parte homem, parte máquina. Além disso, o conto de Poe mostra como o uso dessas tecnologias se mostra útil no momento em que se necessita repor funções naturais do corpo biológico humano. É de grande interesse ver como a ideia de ciborgue se afigura para além da tentativa de superar limites do aparato físico padrão que o humano, indo também à consideração de como essas tecnologias poderiam reparar ou normalizar um corpo mutilado ou limitado por fatalidades.
Seguindo a mesma linha da obra supracitada de Edgar Allan Poe, tem-se uma peça de 1917 publicada por Perley Poore Sheehan e Robert H. Davis, intitulada Blood and Iron (sem tradução para o português). Esta obra, caracterizada por seu discurso antibelicista, traz à tona preocupações que seguem atuais quanto a corpos mutilados na guerra. Seu protagonista, o Soldado 241 é uma das mais marcantes manifestações iniciais do ciborgue, sendo composto meio a meio por partes mecânicas e orgânicas. Sua partes mecânicas incluem mãos com força sobrehumana, olhos dotados de telescópios e dentes reforçados como ouro, que o tiraram da condição de inválido e o transformam num homem dotado de corpo eficiente.
Outro trabalho de destaque acerca da figura do ciborgue é a novela The Clockwork
Man, de 1923, escrita por E. V. Odle. Esta obra apresenta como personagem protagonista
um homem do futuro que tem um mecanismo de corda construído em sua cabeça, regu- lando, alterando e controlando o funcionamento de todo seu ser, desde as ações físicas até a sua percepção de realidade. Este dispositivo fictício regularia suas emoções, seus atos resultantes das mesmas, seus pensamentos, forneceria acesso a uma grande quantidade de informações e inclusive permitindo representações mentais multidimensionais.
Gostaria de dar destaque a esta obra dado que ela já evoca de que forma tecnolo- gias ciborgues podem modificar inclusive o domínio do que é considerado mental no ser humano, mostrando o uso de um dispositivo que regula inclusive o espaço de afetividade do personagem retratado. Considerando as diversas tecnologias atuais de medicamentos psiquiátricos, por exemplo, pode-se pensar de que forma essas tecnologias podem ser uti- lizadas de forma a estabelecer controle ou superveniência sobre aquilo que é pensado pelo indivíduo. Tais possibilidades são de grande interesse para se pensar filosoficamente a ideia de ciborgue como um espaço de modificação mental. O tema da mente estendida se manifesta nessa concepção fictícia do ciborgue, que trata de um ser humano aperfeiçoado, com suas capacidades expandidas para além das supostas limitações de seu corpo natural. Em uma novela de 1952 escrita por Bernard Wolfe, intitulada Limbo, tem-se uma
das primeiras manifestações do uso de tecnologias ciborgue em um futuro distópico. Se passando na década de 1990 num cenário pós-apocalíptico de terra devastada por uma guerra nuclear, retrata como protagonista um neurocirurgião que vive por quase duas décadas numa comunidade primitiva afastada. Ao retornar para sua terra natal - o que restou dos Estados Unidos da América - se depara com uma situação na qual os indivíduos decidiram voluntariamente amputar seus membros e substituí-los por próteses movidas a energia nuclear, que dão a eles capacidades sobrehumanas. Nesta sociedade, amputa- ções e próteses são símbolos de superioridade social, normalmente portadas por homens, demonstrando já uma preocupação em como a ordem social pode ser modificada com a incorporação de tais tecnologias.
Com a intenção de finalizar esta subseção, cito a obra literária de maior divulgação no que tange à ideia de ciborgue: a novela Cyborg, de 1972, escrita por Martin Caidin. Nesta obra, a NASA se dedica a uma empreitada de recuperar o corpo de um astronauta acidentado em vôo experimental, transformando-o num misto de robô e humano, tendo suas capacidades físicas ampliadas quando em comparação a seus pares. Mais uma vez tem-se a ideia de ciborgue aliada a tecnologias médicas, permitindo a restauração de capacidades corpóreas perdidas e permitindo a expansão de potencialidades. Essa obra possui adaptação para a televisão, numa produção intitulada O Homem de Seis Milhões
de Dólares, citada na seção seguinte.