Appendix G Data Documentation
REF: INVITATION TO PARTICIPATE IN RESEARCH ON HOUSEHOLD DECISION‐MAKING
Para tal empreendimento, a metodologia da cartografia pode respaldar nossa atividade, e vêm de encontro com justamente o que pretendemos destacar nessas vivências que serão compartilhadas: as relações de amizades e os processos desejantes dos entrevistados. Como explica Suely ROLNIK (1989: 66) a cartografia: “diz respeito,
fundamentalmente, às estratégias das formações do desejo no campo social.”.
O método cartográfico se incide sobre os discursos e experiências vividas pelos entrevistados, tendo os processos desejantes como condutores dessas experiências de composição das amizades. Em nenhum momento é esperado revelar algo, encontrar verdades absolutas e universais ou aderir a modelos prontos, “a cartografia visa acompanhar um processo e não representar um objeto”. (KASTRUP, 2007:15).
Essa postura vem de encontro com os modos de conceber a sexualidade humana como processo, presente nas relações sociais e atravessadas por múltiplas linhas que afetam os sujeitos submersos nessas relações que negocia, experimenta, inventa, mas também se paralisa frente aos afetos que pedem passagem e não conseguem expressão.
O cartógrafo intenta permitir que o encontro entre entrevistador e entrevistado produza algo que possa ser problematizado, pistas (KASTRUP 2010) a partir do conhecimento das linhas que atravessam o discurso do entrevistado e afetam sua escuta, construindo com o participante o acompanhamento do que é dito, a expressão dos desejos e as linhas que afetam as posições políticas pelos quais se efetiva a movimentação das experiências vividas relatadas.
O cartógrafo pretende nas palavras de Suely ROLNIK:
Descobrir que matérias de expressão, misturadas a quais outras, que composições de linguagens favorecem a passagem das intensidades que percorrem seu corpo no encontro com os corpos que pretendem entender. “Aliás, ‘entender’, para o
cartógrafo não tem nada a ver com explicar, e muito menos com revelar.” (ROLNIK, 1989: 67).
Assim o cartógrafo pode produzir sentidos, constituir modos de vida, presenciar e de certa forma vivenciar, os desejos formando-se no campo social e ao mesmo tempo influenciando na sua construção. Permite-nos sensações e percepções de que os fluxos são cíclicos e fluídos nas diferentes linhas que compõe nossa existência.
O cartógrafo permite problematizar a respeito de dimensões sensíveis e invisíveis, de base molecular, pois:
Na realidade, a prática do cartógrafo tem relação direta com a micropolítica, vinculada às técnicas e práticas de subjetivação, no sentido da produção da subjetividade, matéria fundamental da produção e reprodução do sistema social. Esta dimensão política do cartógrafo, assim concebida, é também fundamentalmente ética, pois busca sustentar a vida em seu movimento de expansão, intensificando os processos de atualização de novos modos de existência. (PERES 2005: 65).
A cartografia é um método que permite uma leitura mais completa das relações que são estabelecidas entre desejos e culturas, procurando assim a identificação de linhas subjetivas, influências dos saberes, poderes e prazeres presentes nos discursos encontrados no caminho da pesquisa pelo cartógrafo, permitindo que novas concepções surjam a cada encontro com os participantes, “através da criação de um território de observação, faz emergir um mundo que já existia como virtualidade e que, enfim, ganha existência ao se atualizar” (KASTRUP, 2007:22).
A cartografia busca produzir conhecimentos a respeito das linhas que perpassam os sujeitos (inclusive o pesquisador) durante a confecção da pesquisa. “O que chamamos por nomes diversos – esquizoanalise, micro-política, pragmática, diagramatismo, rizomática, cartografia – não tem outro objeto do que o estudo dessas linhas, em grupos ou indivíduos.” (DELEUZE & PARNET, 1998: 146)
A cartografia através de seus lineamentos se orienta pela sensação, percepção, pensamentos, surgidos a partir de encontros, datados sócios historicamente e inseridos nos território existenciais que podem ser problematizados a partir das inúmeras linhas
que perpassam os corpos e suas afecções, produzindo sentidos na própria cartografia que se propõe mapear.
Sendo assim, o cartógrafo se efetiva como um dispositivo e funciona como maquinas de fazer ver e de fazer falar, de promover visibilidades, de dar passagem para a expressão de múltiplos devires. Essa dimensão do dispositivo na cartografia fica evidente pelo apontamento feito por Gilles DELEUZE (1989: 02), de que “cada dispositivo tem seu regime de luz, maneira pela qual a luz cai, se esfuma, se expande, distribuindo o visível e o invisível, fazendo nascer ou desaparecer um objeto que não existe sem ela”.
Nesse movimento, o cartógrafo coloca em cena a história, as experiências, os sentidos, valores e crenças presentes no território para tentar problematizar com os entrevistados os conhecimentos que estão sendo produzidos na relação de afetação.
Esses posicionamentos são buscados na medida em que as cartografias que foram construídas estão na rede de relações que, não somente os entrevistados, mas também o pesquisador está implicado. Conferindo um aspecto de afetações de mão dupla, pois ao referenciar lugares, situações e pessoas, pesquisador e participante estão bem próximos dos lineamentos que compõe as cartografias naquele contexto sócio- histórico, político e cultural, dos jogos de verdades que organização e mantém as relações de poder e de interesses da pequena cidade em que vivem.
Assim, torna-se importante uma constante atenção para não se incorrer no erro de construções precipitadas a cerca do que se produz, para que se evidencie no movimento cartográfico os principais lineamentos que atravessam determinadas situações relatadas pelos garotos em suas vivências. Mapear o território geopolítico solicita conversações com os autores que alicerçam nosso trabalho, para que na medida do possível as análises procurem justificar os saberes produzidos apoiando-se hora na
literatura citada, hora na possibilidade de transmitir ao leitor o contexto do que se está sendo pensado já que este saber está sendo construído e não ‘descoberto’. Apoiamo-nos na ideia de saberes localizados, propostos por Donna HARAWAY (1995), acrescidos das discussões de Rosi BRAIDOTTI (2009) de políticas de localização e de implicação do pesquisador. Com isso acreditamos estarmos nos distanciando de qualquer intenção de naturalização e/ou de universalização das análises dos resultados da pesquisa aqui realizada.