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a) Severo declínio nas taxas de crescimento da renda para quase metade do nível anterior;

b) Grande aumento da taxa de desemprego, principalmente entre universitários graduados.

Nestas circunstâncias, acreditava-se que ambas as classes, ricas e pobres, sofreiam com isso. Mas o resultado dependeu da capacidade de cada segmento resistir ao declínio em seus padrões de vida. Enquanto o padrão caiu para uns, subiu para outros. Os que conseguiram manter-se em seu padrão foram os que estavam perto do poder e mesmo sob forte depressão, conseguiram obter ganhos adicionais às suas altas rendas e riquezas. O preço pago pelo resto da pobre população foi muito alto e tem sido pago por ela até hoje. Foi uma espécie de transferência de renda do “pobre” de hoje para a classe rica:

a) Novas taxas sobre vendas recaindo mais fortemente sobre os de baixa renda; b) Muitas terras pertencentes ao governo foram vendidas a preços irrisórios à classe rica;

c) Empréstimos bancários cedidos como empréstimos a pessoas de reputação duvidosa, as quais usaram sua influência para fazer depósitos no exterior.

Para melhor entender as flutuações e mudanças nas relações sociais e culturais do Egito desde a época da revolução de 52 até hoje, “era Mubarak”, temos as seguintes alterações de alguns parâmetros sócio-econômicos sugeridos por Amim como segue.

Por volta de 1955:

1 % da população egípcia teve uma renda anual de mais de LE841.500; 80% da população com menos de LE240;

19% da população, que constituía uma “classe média”, com renda anual entre LE240 e 1.500 por família;

Se levarmos em consideração que a população egípcia era de 21,4 milhões em 1952 temos:

200.000 eram da classe alta; 4 milhões eram da classe média;

Mais de 17 milhões eram da classe baixa.

A ocidentalização ou a habilidade de adotar padrões ocidentais de comportamento tem perdido a importância em distinguir uma classe social de outra, como resultado da extensão desses padrões entre a classe baixa. Apesar de trazer claramente a relação da globalização sobre um país islâmico, estas “adaptações” não são determinantes claros, visualmente falando, de classes sociais. Renda e riqueza continuam bons critérios para classificar classes sociais, não importando a fonte desta renda ou riqueza, ou mesmo seus padrões de consumo: Lembremos do Cartão de Crédito!

Nos anos 90, anos de Mubarak, temos outra formação de distribuição de renda no Egito:

LE 300/por família/por mês = valor limite entre a classe baixa e média; LE 10.000/por família/por mês= valor limite entre a classe media e alta.

De acordo com esta classificação:

53% (30 milhões de pessoas) pertencem à classe baixa; 45% (25 milhões de pessoas) pertencem à classe média;

2% (1,2 milhões de pessoas) pertencem à classe alta85.

Se compararmos com os anos 50, podemos perceber que a classe média aumentou mais de seis vezes nos últimos 50 anos enquanto a classe baixa cresceu somente 75% e a classe alta cresceu em também aproximadamente seis vezes.

Houve também mudanças nas características de cada uma das classes: a) A nova classe alta não consiste de descendentes da velha classe alta. Estas famílias adquiriram riquezas em acumulações nos anos 70 e 80, coisa que seria raro antes das “open-door policies”. As fontes desta nova riqueza foram o comércio (particularmente a importação), contratações, especulação com terras e comissões intermediando atividades diversas. No passado, a principal fonte para a renda alta era a propriedade de terras agrícolas;

b) Como a antiga classe média, a nova inclui profissionais, comerciantes, altos e médios escalões de oficiais do governo, proprietários de pequenas e médias empresas de manufatura, proprietários de terra de média dimensão, donos de propriedades urbanas. No entanto, a nova classe média inclui alguns elementos de descendentes da velha classe alta que caíram em status após algumas medidas tomadas na revolução: a nacionalização e o confisco de propriedade. Esta nova classe possui um grande número de artesãos, de empregados em indústrias públicas e privadas;

c) A classe baixa inclui, como no passado, fazendeiros sem terra, pequenos proprietários, artesãos de baixa renda, pequenos comerciantes e trabalhadores da agricultura, mas agora adiciona uma grande proporção de baixos escalões do setor publico e governamental.

Desnecessário dizer que a renda media destas três classes é significantemente alta hoje, se compararmos com os anos 50. Mas de qualquer

maneira, a nova classe media possui praticamente 75% 86 das pessoas consideradas “classe media baixa” com renda familiar mensal não maior que LE600. Esta classe media baixa tem sua grande maioria composta de baixos empregados do governo, de empresas industriais, e muitos empregados do setor publico. Acredita-se que uma grande porção destas pessoas estava sofrendo pelos últimos 40 anos de uma crescente frustração, insatisfação com suas vidas, perda de auto-respeito e sentimentos de que, segundo o Dr. Bohgat Moussa87, a

sociedade devia a eles mais do que obtinham dela.

Os sintomas observados diante deste panorama foram: aumento de taxas de certos crimes, incluindo crimes contra parentes próximos no caso de emigrantes, corrupção em vários níveis no governo, cisões familiares.

O repentino aumento de oportunidades para aumentar renda e acumular nova riqueza aguçou apetite de boa parte da população, mas causou uma grande frustração àqueles que por alguma razão falharam em se beneficiar disto. Este é um sentimento que pude sentir durante conversas informais com alguns funcionários de vários níveis hierárquicos de um Hotel de 1ª linha em Gizah.

Quando a economia começou a decair em inicio dos anos 80, acompanhado pela queda no preço do petróleo e declínio das oportunidades de trabalho no Golfo, houve uma intensificação da frustração. O aumento da taxa de desemprego que na segunda metade dos anos 80 chegou a 20% da força de trabalho deve ter intensificado este sentimento de desaponto numa faixa da população que havia apostado grande esperança em sua educação e educação de seus filhos como canal de crescimento social.

Após tudo isto, parece fácil entendermos que o panorama propiciou o crescimento de uma espécie de fanatismo como forma de fugir de tanta angustia. Como vimos no primeiro capítulo desta Tese o fanatismo religioso no Egito emerge em uma época com um profundo clima de frustração no ar.

86 Fonte: Family Budget Surveys

87 Dr. Bohgart Moussa é diretor de divisão de Estudos de Negócios (Business Studies) da American

Recentemente, grandes esperanças estão colocadas na privatização de empresas publicas, que, sem levar em consideração a eficiência das mesmas, podem ajudar o país á abater um pouco os débitos públicos. O impacto desta política nos níveis e padrões do consumo doméstico não tem recebido muita atenção.

Com a grande variedade de produtos importados, grande exposição de padrões de vida associado com sociedades mais afluentes, houve aumento na vontade de obter mais renda e produtividade. No entanto, o aumento do consumo e das aspirações foi maior que o aumento da renda, e provocou, naturalmente, uma queda na poupança.

Nos anos de 1973/74 temos a máxima imigração para o Golfo, nos anos 80 eles em geral retornaram, ocasionando uma onda de desemprego jamais vista. O comércio e a liberalização dos investimentos não foram favoráveis à empregabilidade, uma vez que havia necessidade de uma mão-de-obra especializada. Isto ocorreu com a redução do papel do Governo na criação de frentes de trabalho e redução nas oportunidades aos novos universitários.

O aparecimento de novos produtos de consumo foi acompanhado por uma intensificação das campanhas de venda. A maior responsável é a televisão, que agora tem uma larga amplitude. Nos anos entre 1975 e 1985 o Egito testemunhou um rápido aumento de renda per capita, principalmente como resultado de uma onda de migração de egípcios para os países árabes produtores de petróleo. Houve um aumento da mobilidade social, todos se beneficiaram de fontes estrangeiras de renda originadas de firmas e agências de turismo estrangeiras. Naturalmente a taxa de inflação também aumentou.

Nos anos de 1985 até 1995 em diante, houve um declínio na taxa de renda per capita quando a taxa de migração caiu e o mesmo ocorreu com os preços do petróleo. Apesar deste novo panorama, o padrão de consumo não caiu na proporção da queda do nível de renda.