Nas escolas que fazem parte da rede pública de ensino, a merenda servida nos intervalos de aula é a única refeição feita no ambiente escolar, excetuando-se as de tempo integral onde essa é uma das várias atividades alimentares que se desenvolvem ao longo do dia letivo.
Ao observar-se a rotina da merenda matutina pode se perceber desde uma sistematização quanto à disposição de alunos nos momentos de se servirem, a participação de diferentes funcionários e professores na distribuição dos alimentos, quanto a presença constante da vice-diretora nesse momento.
NOTA DE CAMPO 11:
Observava e observava as manhãs da escola, sempre com olhar atento à alimentação. De tanto observar, em uma sexta -feira passei a discriminar melhor algumas particularidades da merenda matutina. Esta é uma das refeições que recebe muita atenção dos educadores da escola. Primeiro, os professores são comunicados em sala que podem se dirigir para o refeitório com os alunos, e estes são organizados em fila, merendando conjuntamente com o professor da última aula ministrada.
Vale destacar que a escola não possui campainhas, sinos ou qualquer outra forma de sinalização coletiva para comunicar a hora das refeições. Isto sucede em forma de convite pela secretária da escola realizado em sala por sala, por volta das 9h30. O convite chega à sala já acompanhado com o anuncio do cardápio do dia, fazendo referência a quem os preparou, o que oportuniza aos alunos conhecerem também nominalmente as cozinheiras da escola.
Primeiramente, seguem para a merenda os alunos dos 2º e 3º anos, os mais novos da escola. Todos em fila indiana. Logo na entrada do refeitório, são recebidos pela vice-diretora do Raldir Cavalcante, que se faz presente neste momento diariamente. Sob a mesma organização das filas, recebem uma caneca
com suco de manga e biscoito “água e sal”. A merenda é servida com muito sorriso
pelas cozinheiras da escola, contando também com o auxílio das zeladoras. Momento marcado por conversas diretas com os alunos, dialogando acerca daquilo que está sendo servido...
FOTOGRAFIA 19 - Imagens com momentos referentes à merenda matutina: a fila dos alunos do 2º ano; entrada dos alunos no refeitório para receber a merenda; momento de conversa entre os alunos e a cozinheira escolar.
FONTE DO AUTOR
Durante essa alimentação matutina, são poucos os alunos que a fazem sentados, todos transitam pelos corredores e pátios da escola. É comum ainda ver crianças do 2º ano sem querer merendar, ou mesmo aceitando somente um dos gêneros alimentícios oferecido no refeitório.
Adiante, depois desse primeiro grupo já estar alimentado, seguem os alunos do 4º e 5º ano. É nesse segundo momento que é mais perceptível a presença de alguns professores (aproximadamente 60% do quadro docente), que também merendam com os alunos. Alguns poucos optam por trazer seu próprio lanche e consumi-lo na sala dos professores com o café fresquinho preparado na escola. O momento é de plena interação: aluno-aluno; aluno-professor; aluno-cozinheira escolar; aluno-vice-diretora; professor-professor; professor-cozinheira escolar; professor-vice-diretora; vice-diretora-cozinheira escolar; entre outros tantos presentes na rotina escolar. É, de fato, o momento mais interativo que havia percebido até então ao observar aquela rotina.
Logo após o término da merenda matutina, os professores localizam os alunos de sua turma, e, em mesma organização de filas se dirigem para sala de aula.
E minha caneca com cajuína? Em momentos como o da merenda matutina, em plena interação com os presentes na escola, troco ela por uma caneca de suco!
A merenda matutina no CEFTI Raldir Cavalcante Bastos corresponde ao primeiro momento de interação entre os diversos alunos da escola no espaço escolar mais amplo – do refeitório expandindo-se aos corredores e pátio escolar. Caracterizando-se, assim, como mais
um aspecto oportunizado pela merenda escolar, o da socialização em meio ao consumo/ ingestão do alimento. Dessa maneira, os alunos se relacionam não apenas com aqueles com quem estudam em mesma sala de aula, mas também com os demais alunos, bem como demais professores e funcionários da escola.
Por outro lado, durante os primeiros dias e meses do ano letivo, os alunos do 2º ano –
recém iniciados na denominada “vida escolar” – ainda apresentam rejeição a alguns alimentos
em suas primeiras refeições junto à escola. Fato este que ocorre, sobretudo porque muitas crianças estão experimentando novos alimentos, que podem ser distintos daqueles que consomem em seus ambientes familiares. Essa constatação ainda pode ser fortalecida por relatos das mães de alunos do 2º ano e das cozinheiras escolares, como se observa a seguir.
[...] Era um sufoco os primeiros dias de aula, ele [o filho] fazia o2º ano e não comia nada que a escola oferecia. Aí eu vinha na escola pra vê se sabia o que acontecia... Eu sabia que tinha comida que ele não tava acostumado a comer em casa, como os sucos daqui, as verduras do almoço... Mas com o tempo vai mudando, o pessoal é tão carinhoso com as crianças na hora de dar a comidinha deles que a gente em casa fica até tranaquila. (Dona Júlia, mãe de aluno do 4 ºano do Ensino Fundamental)
[...] Os alunos novos chegam mesmo estranhando tudo da escola. Estranham os professores, mas logo passa. Aí fica mesmo estranhando as comidas daqui, aí o negócio fica mais complicado porque todo mundo se preocupa porque é criança pequena... Eu mesma sei que sou estranha pra eles, mas vou aprendendo o nome deles, vou dizendo o meu também. E aí pergunto o que é que eles gostam, do que eles num gostam de comer, e aí logo eles ficam se achegando a gente e começando a comer. Aí eu fico feliz demais! Pra mim, ver eles todos comendo dá uma alegria danada, viu? (Maria, Cozinheira Escolar)
Outro ponto de destaque, descrito tanto pela Nota de Campo 11 como também perceptível nas narrativas de Dona Júlia, mãe de aluno, como de Maria, cozinheira escolar, é de que o vínculo construído entre as cozinheiras e os alunos no decorrer das práticas alimentares é de fundamental importância. E este, por sua vez, pode ser evidenciado pelo fato dos alunos conhecerem nominalmente as cozinheiras da escola, e vice-versa.
Dessa maneira, o ato de servir os alunos com alegria e prazer, assume significativa importância, contribuindo para as adaptações e posterior reconfiguração de seus hábitos alimentares, sobretudo na transição de hábitos advindos da convivência familiar versus alimentos oferecidos na escola, já que os discentes passam o dia na escola, que, por ser de regime integral, agrega intensidade e singularidade a essa experiência.
Por conseguinte, a construção de vínculos, conforme citada nos relatos, pode ser também fortalecida pelo compromisso e pelo prazer em servir a merenda por parte das cozinheiras da escola, que além dos aspectos já elencados, ainda promovem uma sensação de
segurança e tranqüilidade quanto à alimentação das crianças, conforme relatado por Dona Júlia, mãe de aluno. Esse fenômeno ocorre, de acordo com Montanari (2008), devido o alimento ser um construto simbólico, cultural, também agrega valores afetivos, podendo significativamente mediar a construção de vínculos, expandidos aos atores envolvidos com essa prática.