O trabalho em questão trata da variação sintática ausência/presença de artigo definido diante de antropônimos no português brasileiro, focalizando a fala dos jovens da cidade mineira de Barra Longa que residem em Belo Horizonte.
O objetivo dessa pesquisa foi o de verificar como os jovens da comunidade de Barra Longa comportam-se com relação à variação sintática ausência/presença de artigo definido diante de antropônimos. Baseando-se em trabalhos anteriores – Moisés (1995) e Mendes (2000), nos quais aquele constata que, em Belo Horizonte, há uma tendência ao emprego do artigo definido e este constata que a comunidade de Barra Longa preserva, em sua fala, a ausência do artigo como traço linguístico que remonta à língua latina; percebe-se então, que as duas cidades, apesar de não muito distantes, possuem padrões divergentes em relação a essa variação.
Alves (2008) parte do pressuposto de que os jovens em questão mantêm em sua fala, a estrutura da comunidade de origem, uma vez que o processo de manutenção ocorre de forma variável e que essa variação pode ser entendida através da análise das redes sociais em que se integram os informantes.
A base teórico-metodológica da pesquisa segue a Teoria da Variação ou Sociolinguística proposta por Labov (1972), segundo a qual a natureza variável da língua é um pressuposto fundamental para a sistematização e análise do comportamento humano. Os conceitos de manutenção linguística (Milroy, 1992) e de redes sociais (Milroy, 1980) são integrados pela autora nesse estudo da variação linguística de vertente laboviana. Nesses dois últimos trabalhos citados, a idéia de variação e mudança linguística são resultados da interação entre os falantes em contextos sociais, que não pode ser explicada apenas pelo
sistema linguístico ou por fatores sociais que não levam em conta o contexto situacional em que se dá a interação entre os falantes de uma comunidade linguística.
Os dados foram submetidos à utilização do programa estatístico para computadores GOLDVARB/ VARBRUL 2001. Foram utilizados dois corpora: o primeiro denominado grupo de Belo Horizonte, sendo constituído de 16 informantes da cidade de Barra Longa que residem em Belo Horizonte, em que foram obtidos 1.163 dados, sendo que a ausência de artigo definido diante de antropônimos correspondeu a 85% dos dados e, a presença, 15%; o que significa que os jovens que residem em Belo Horizonte estão preservando o padrão de sua comunidade de origem. O segundo grupo, denominando grupo de controle, constituído de 4 jovens que permaneceram em Barra Longa, em que foram obtidos 340 dados, nos quais, 95% são de ausência de artigo definido no contexto de antropônimo e apenas 5 % de presença.
Foram controlados 10 grupos de fatores: cinco de natureza linguística – forma como aparece o antropônimo, circunstância em que o antropônimo é citado, estrutura do SN, item de uma enumeração e função sintática – e cinco de natureza extralinguística – grau de intimidade do entrevistado com o referente, gênero, convívio com pessoas de Barra Longa, grau de contato com a cidade de origem e tempo de residência em Belo Horizonte.
Alves (2008) menciona que apenas 5 fatores foram selecionados pelo programa e, deles, quatro são extra-linguísticos: grau de contato com a cidade de origem, grau de intimidade do entrevistado com o referente, pertinência a redes ligadas a Belo Horizonte, gênero; e apenas um linguístico: função sintática. Para ela, o fato de apenas um fator linguístico ter sido considerado relevante na análise, evidencia a correlação desse fenômeno com variáveis extra-linguísticas.
O grau de intimidade entre o entrevistado e o referente do antropônimo é o único grupo de fator estatisticamente relevante para a análise do fenômeno na fala dos jovens que permanecem em Barra Longa. A presença é favorecida quando o antropônimo refere-se a pessoas consideradas públicas para o informante. A autora ainda percebe que os jovens residentes em Belo Horizonte começam a distanciar do padrão de Barra Longa quando ao antropônimo refere-se a pessoas mais próximas.
O índice de presença de artigo é mais saliente na fala dos homens do que na fala das mulheres, o que contrariou a hipótese da autora de que as mulheres seriam mais sensíveis à variante inovadora.
Ao se observar as redes sociais dos informantes, através da análise do grau de contato com a cidade de Barra Longa, nota-se que o fator gênero só é relevante com relação ao grupo que vai a Barra Longa com frequência, mantendo assim laços fortes com as pessoas da
comunidade de origem. Nesse caso, as mulheres, ao chegarem a Belo Horizonte, passariam a usar a estrutura predominante nessa cidade. Quanto aos jovens que não convivem diariamente com pessoas de Barra Longa em casa ou no trabalho, tendem a usar mais o artigo, passando a preservar menos o padrão de origem do que aqueles que têm contato diário. A análise do fator indivíduo revelou que alguns informantes favorecem a presença de artigo indefinido em sua fala, permitindo estabelecer um vínculo entre seu comportamento linguístico e a alta frequência de contato com a comunidade de origem. Desse modo, Alves (2008) afirma que a atitude de preservar mais ou menos o padrão de Barra Longa está ligada a variáveis sociais, ou seja, àquelas ligadas ao indivíduo ou ao meio em que ele vive.
Na seqüência, teremos o quinto capítulo que trará a apresentação e análise dos dados, trazendo uma descrição sincrônica dos dados extraídos da fala dos moradores da zona rural das cidades de Matipó e Abre Campo, Córrego do Pouso Alto e Córrego dos Lourenços, respectivamente.