A trajetória da imprensa libertária do período que enfocamos, como de resto a história da imprensa em si, não pode ser isolada do desenvolvimento de outros tipos de editoração – os livros com destaque. Raymond Williams já o anotara, a propósito do florescimento da imprensa popular e radical no século XIX, na Inglaterra industrial, que
[...] se a história da imprensa for isolada, não apenas de outras formas cognatas de escrita, edição e leitura, mas como usualmente acontece, de outros tipos de formação e organização política e cultural – decorrentes de movimentos políticos, novas organizações industriais, desenvolvimentos educacionais, mudanças no teatro – ela poderá ser vista meramente como uma fase na história da imprensa, do século dezenove ao vinte, determinada retrospectivamente por si mesma, pelas definições daquilo que a imprensa se tornou. No caso da emergente imprensa popular do século dezenove, qualquer procedimento deste tipo é particularmente inadequado porque oculta aqueles que são provavelmente seus dois aspectos mais importantes: em primeiro lugar, a história decisiva da instituição com posterior incorporação e eventual transformação de uma imprensa popular e radical; em segundo lugar, o problema do conteúdo, que só pode ser verdadeiramente abordado pela comparação com outras formas de editoração popular e com o teatro popular (WILLIAMS, 2007, p.15).74
Entre os anos 1940 e 1960, jornais e livros libertários conjugam-se num projeto de difusão das ideias que integra a escrita, a edição e a leitura. Seus conteúdos e sua linguagem mesclam-se, e sua leitura sugere complementaridade, articulação de propósitos. Os jornais libertários, como é natural imaginar, serão os maiores divulgadores dessa atividade editorial. À medida que se ia reorganizando o movimento, a difusão do anarquismo deixava de se limitar à publicação de excertos, traduções da imprensa estrangeira e folhetins, juntamente com os folhetos. As ideias libertárias novamente ganhavam as páginas dos livros, em edições diretamente ligadas ao movimento ou fruto de editoras comerciais. O jornal A Plebe, logo em seu ressurgir, chamava atenção ao público leitor sobre a recente edição de duas
74Para a reflexão de Williams sobre a imprensa popular e a cultura radical dos trabalhadores,
ver: WILLIAM, Raymond. A Política e as Letras. Entrevistas da New Left Review.Tradução de André Glaser. São Paulo: Editora UNESP, 2013.
obras libertárias que não deveriam ficar desconhecidas a quantos interessasse o conhecimento das bases doutrinárias do anarquismo:
OS NOSSOS LIVROS – A quase totalidade das obras de nossos autores acha-se esgotada, sendo raro encontrar nas livrarias livros sobre os temas principais de nossa doutrina. Livros de Proudhon, Malatesta, Kropotkin, Fabbri, Rocker, Pietro Gori, Jean Grave, Anselmo Lorenzo, Bakunin, Max Netlau, Luiza Michel, Eliseu Reclus, etc. são raros nas prateleiras de nossas livrarias, pois tais obras, quando editadas, provocam tal procura e interesse que logo se esgotam.
Agora, porém, duas obras nossas acham-se à venda em todas as livrarias, para as quais chamamos atenção a todos os nossos leitores e também a todos que desejam conhecer as bases de nossa doutrina (A Plebe, 1º de maio de 1947).
Referia-se a nota – após ressaltar a escassez nas livrarias de obras ―dos nossos autores‖ – às recentes edições de ―Em torno de uma vida‖, ―uma das obras mais famosas da literatura libertária‖, livro de memórias de Kropotkin, lançado no ano anterior pela Livraria e Editora José Olympio; e ―As idéias absolutistas no Socialismo‖, do pensador anarquista alemão Rodolf Rocker, editado também em 1946, em São Paulo, pela Editora e Distribuidora Sagitário.75
Eram os primeiros passos da difusão editorial libertária naquele período, ensaiando a reconstrução de uma atividade da militância anarquista sólida antes da ditadura. Há que mencionar, para a compreensão da escassez de literatura libertária em circulação, que as reduzidas tiragens da maior parte dos livros e outros impressos anarquistas contribuiu para torná-los mais raros, mesmo no mercado de livros usados.
A disponibilidade de edições brasileiras era reduzida, e, em vista dessa carência, cumpria integrar-se ao circuito internacional de circulação dos livros anarquistas. Exercendo o intercâmbio comum nas correspondências e nos jornais, os grupos editores locais recebiam à maneira de consignação e difundiam as obras editadas pelo movimento libertário, estabelecendo relações internacionais de circuito livreiro distintas dos moldes empresariais convencionalmente praticados.
75Dois meses antes, Ação Direta já referira ao lançamento das duas obras e fôra além em sua
divulgação do livro de Rocker, resenhando-o, saudando a criação da Editora Sagitário, transcrevendo um capítulo da obra (―O homem sem cabeça‖) e oferecendo à venda o livro à importância de Cr$ 15,00. (Ação Direta, 20/2/1947).
Entre junho e julho de 1947, A Plebe e Ação Direta divulgaram a recente edição do livro ―Socialismo Libertario y Socialismo Autoritario‖, de Max Nettlau. Correspondia ao primeiro volume da ―Colección de Estudios Contemporaneos‖, da ―Guilda de Amigos del Libro‖, projeto editorial do Grupo Anarquista Idea Libre, de Toulouse. O ―delegado‖, da Guilda, no Brasil era Manuel Peres, ao qual se deveriam endereçar os pedidos sob encomenda.
O livro de Netlau, um dos mais destacados historiadores do movimento anarquista dos séculos XIX e XX, ―o Heródoto da Anarquia‖ na expressão de Rudolf Rocker, imediatamente ganhou espaço nas seções de obras à venda, ao lado de comentários sobre o autor e sua obra. Os passos práticos desse intercâmbio internacional (e internacionalista) são de difícil investigação, visto serem poucos os registros preservados e disponíveis dessa correpondência.
Do pouco que se pode ter acesso, entretanto, é possivel vislumbrar algo dessa faina de difusão editorial, como na atividade do anarquista Luís Páparo, operário de origem italiana radicado em São Paulo. Segundo Rodrigues, Páparo exercia valiosa colaboração à difusão das ideias ácratas, divulgando os jornais, conseguindo-lhes assinaturas, distribuindo livros de teor libertário e mantendo correspondência com grupos anarquistas de outras cidades (RODRIGUES, 1997a, p. 32). De uma das cartas enviadas ao grupo editor do Ação Direta, pode-se perceber um pouco de sua atividade livreira:
São Paulo, 22/1/1947
Prezado camarada Manuel Peres:
A presente tem por fim comunicar-te que sem consultar-te, enviei-te 80 livros: ―As Idéias Absolutistas no Socialismo‖, de Rudolf Rocker. Consta-me que Pedro Catalo fez-te um relato dessa obra.
Eu sei que trabalhas demasiado mas quando o esforço vem reverter em benefício do ideal que abraçamos, nunca nos cansa.
O custo de cada exemplar é de Cr$ 11,00, nós vendemos por Cr$ 15,00, mas as livrarias vendem a Cr$ 18,00. Dispomos de 1.000 exemplares no momento e esperamos o teu pedido.
Se interessar temos as seguintes obras: brochadas e em português, ―Em Torno de uma Vida‖ – Kropotkine Cr$ 35,00.
Em espanhol (brochados)
―Malatesta, Su Vida y su Pensamiento‖ – Luiz Fabbri Cr$ 35,00 ―Proudhon, Su Vida y su Correspondencia‖ – Sainte-Beuve Cr$ 35,00 ―Luiza Michel, la virjem roja‖ – Irma Boyer, encadernado Cr$ 42,00 ―El Apoyo Mutuo‖ – Kropotkine, encadernado Cr$ 70,00
―Historia de la Revolución Francesa‖ – Kropotkine enc. Cr$ 84,00 Todos os livros têm um desconto de 20%
Rua Oriente, 108 – casa 7 – São Paulo (PÁPARO Apud RODRIGUES, 1997a, p. 32-33)
O livros oferecidos por Páparo ao movimento libertário do Rio de Janeiro já se encontravam à venda nas páginas de A Plebe, na sua edição de 15 de agosto de 1947, entre as ―Leituras que recomendamos‖, que, além daqueles, dispunha à venda também ―Teses da existência e da inexistência de Deus‖, publicado no ano anterior por Mário Ferreira dos Santos sob o pseudônimo de Charles Duclos.
Ao lado das obras editadas em outros países, buscava, pois, o movimento libertário no Brasil, oferecer a público os seus livros, no propósito de adensar a propaganda. No mesmo mês, Ação Direta anunciava para breve o lançamento de ―A doutrina anarquista ao alcance de todos‖, anteriormente aparecido em formato de folhetim no jornal, e ―Sermões da Montanha‖, do anticlerical português Tomás da Fonseca, que seria a obra de estreia da Editora Germinal (Ação Direta, 30/8/1947). As atividades dos ―livreiros do movimento‖ que, em intercâmbio com militantes de outros países, punham em circulação diversos títulos perdura, como se vê por outra das cartas de Luís Páparo a Manuel Peres:
Contesto a tua carta com data de 6 do corrente que recebi no dia 13 das mãos do companheiro Cristóvão e os livros que me mandaste ao seu cuidado, sendo 60 exemplares de „Socialismo Autoritário e Socialismo Libertário‟ e mais 10 exemplares de „Livro de Ouro da Revolução Espanhola‟.
Tomando em consideração a tua exposição sobre a remessa do dinheiro para a „Guilda do Livro‟, fizemos um empréstimo do nosso Grupo Ruta e te mandamos a quantia total dos livros.
Se te resta mais algum exemplar do „Livro de Ouro‟ podes mandar pelo companheiro Manuel Trubilhiano que será o portador do dinheiro por nós enviado (PÁPARO Apud RODRIGUES, 1997a, p. 33-34).
A militância de Páparo combinava o ofício informal de livreiro com sua profissão, mantendo contato com editoras e grupos editores no Brasil e em outros países, para possibilitar o oferecimento de livros, folhetos e outras publicações ao público interessado.
Ilustração 28 – Socialismo Autoritario y Socialismo Libertário, de Max Nettlau, distribuído pelo movimento libertário no Brasil.
A outros militantes, tocou fazer do comércio de livros o seu próprio ofício, convertendo-se as suas livrarias em ponto de encontro de libertários, como ocorreu ao poeta Lírio Resende, nas décadas de 1920 e 1930, na capital federal (GONÇALVES; SILVA, 2001, p. 18). Edgar Rodrigues rememorou a atividade do libertário nos congressos operários e no teatro social – foi um dos fundadores do Grupo Dramático Social em 1914 – bem como na imprensa ácrata, em que muito colaborou, sobretudo com uma vasta escrita poética. Mas é a ocupação de livreiro de Resende que chama a atenção:
[...] abriu na Rua da Constituição, 14, uma livraria de livros novos e usados. Foi o primeiro livreiro anarquista em moldes comerciais, no Rio de Janeiro, que conseguiu sobreviver divulgando o anarquismo. Na loja de Lírio Rezende vendiam-se livros e encontravam-se anarquistas para assentar planos de propaganda: representações teatrais, falar da imprensa ácrata, de literatura sociológica, do movimento anarco-sindicalista, das greves e da perseguição movida pelas autoridades (RODRIGUES, 1997.a, p. 13).
Em 1925, na cidade de Porto Alegre, o militante anarquista alemão Frederico Kniestedt fundou a Livraria e Tipografia Internacional, situada na Rua Voluntários da Pátria, que rapidamente se converteu no centro do movimento libertário naquela cidade. Tecelão, vassoureiro, tipógrafo, livreiro e jornalista da classe, Kniestedt foi uma das figuras de destaque do movimento anarquista do sul do Brasil. Colaborou em diversos jornais e editou outros, como O Sindicalista (1914), porta-voz da Federação Operária do Rio Grande do Sul e