Para a AD, a língua, por não ser fechada em si, tem certa autonomia porque há uma abertura do simbólico. Por isso, à AD não interessa a língua em si mesma, mas a forma como é praticada, produzindo sentidos, dentro da sociedade e da história. Ela tem uma ordem nela mesma, que não se pode atravessar facilmente, por isso não se pode considerar que o sentido é um conteúdo depositado em algum lugar e que se vai procurar. O sentido está na materialidade discursiva, no fato de que a língua para significar tem que se inscrever na história.
Segundo Orlandi (2005b), a materialidade da ideologia é o discurso e a materialidade do discurso é a língua. Sendo assim, a língua e a ideologia se articulam com o discurso, por isso, para a AD, não é o que se diz que interessa, mas o como se diz que faz sentido, isto é, que implica num sentido porque isso denuncia a ideologia do sujeito do discurso revelada na escolha das palavras, na sintaxe que constituem o texto. Em vista disso, as mesmas palavras escolhidas por sujeitos diferentes ou usadas em situações diferentes para se referirem ao mesmo referente podem significar diferentemente umas das outras. Como bem ressaltam Bakhtin/Volochínov ([1929] 2006), a palavra é o signo ideológico por excelência porque é o produto da interação social e se caracteriza como plurivalente.
A língua, portanto, na abordagem da AD, não quer somente comunicar ou transmitir informações, ou seja, não quer apenas anunciar algo, mas leva em consideração o
contexto social, histórico e ideológico em que um determinado enunciado foi produzido. O discurso transpassa uma exterioridade da linguagem e abarca elementos ideológicos e sociais, por isso a AD apreende a linguagem como interposição necessária entre o homem e a realidade na qual está inserido, e que esta interposição é feita através do discurso, isto é, pelas práticas discursivas nas quais o sujeito se insere. Para Pêcheux (1997b), a concepção de linguagem como instrumento de comunicação pretende mascarar e obscurecer a ligação da linguagem e do discurso com a prática política e a importância que as ciências sociais têm nesse processo.
Nessa mesma linha de discussão sobre a concepção de linguagem pertinente a uma abordagem discursiva, Henry (1997, p. 29) ressalta que:
A linguagem (ou jogo, ou a ordem do signo, ou o discurso) não é entendida como uma origem, ou como algo que encobre uma verdade existente independentemente dela própria, mas sim como exterior a qualquer falante, o que define precisamente a posição do sujeito, de todo sujeito possível.
Na perspectiva da AD, a língua é o resultado de um trabalho simbólico do sujeito de estruturar/desestruturar e que chega para esse mesmo sujeito com uma autonomia relativa, enquanto materialidade específica do discurso, assim, a língua é considerada sob a ótica do funcionamento e da produção de efeitos de sentido, assim como se constitui em uma invariante que serve de base para as condições de acontecimento do discurso. Para Orlandi (2007), a língua é uma sistematicidade, por isso configura-se como um espaço propício a equívocos e deslocamentos de sentido.
Para a AD, ainda segundo Orlandi (2007), a língua que funciona em textos discursivamente constituídos, não é apenas sistema de regras e termos com funções organizadas empiricamente, mas é uma ordem que toca o equívoco, a falha e está sujeita à interpretação, porque funciona duplamente como material simbólico e histórico. Como a materialidade da língua, conforme Orlandi (2007), é de natureza histórica, deixa-se de ter uma estrutura linguística para se ter uma estruturação, uma prática significativa, que se pode caracterizar como um trabalho sobre o simbólico34.
34
Os termos materialidade e simbólico, que estão indissociavelmente atrelados à língua, são assim esclarecidos em Dantas (2007, p. 19-20): “Entendemos por materialidade o conjunto dos recursos lingüísticos, o que se
percebe como „gramática‟ de uma língua; a expressão fonológica, morfológica, lexical, sintática e semântica. Na
maioria das vezes, essas expressões são entrelaçadas pelo uso que os sujeitos fazem, o que as torna
historicamente constitutivas; […] Quando afirmamos „histórico‟, incluímos nesse termo aspectos culturais,
políticos, étnicos, religiosos e demais valores da ética social. Já por simbólico entendemos o sentido da língua (que resultou da materialidade escolhida, de modo consciente, pelo sujeito) afetado pela organização do texto e
Para a AD não interessa uma concepção de língua/linguagem sob a perspectiva do estruturalismo, de uma língua imanente, mas a relação da linguagem com o seu exterior que lhe é constitutivo, e é essa relação com a exterioridade que lhe confere também um caráter de incompletude. Orlandi (2006) afirma que a incompletude é a condição de existência da linguagem, por isso, “Como a linguagem tem uma relação necessária com a exterioridade, a idéia de unidade (de todo) não implica a de completude: a linguagem não é uma coisa só e nem é completa” (ORLANDI, 2006, p. 23).
Em vista disso, a autora afirma que o estudo da linguagem não pode estar apartado da sociedade que a produz porque os processos que entram em jogo na constituição da linguagem são processos histórico-sociais, consequentemente, o discurso é um produto histórico-social cuja materialidade é linguística.
Vista desse modo, a linguagem não pode ser apenas um suporte de pensamento ou instrumento de comunicação, como é encarada sob a perspectiva estruturalista. A noção de estrutura limita o trabalho com o simbólico e com a materialidade histórico-social que é o que atende a uma abordagem de análise discursiva do texto. No entanto, a concepção de língua como “uma forma de ação” e a concepção de linguagem como “forma ou processo de interação” parecem atender as expectativas de uma abordagem discursiva.
De acordo com Brandão (2004, p. 11), “[…] a linguagem enquanto discurso é interação, e um modo de produção social; ela não é neutra, inocente e nem natural, por isso o lugar privilegiado de manifestação da ideologia.” Sendo assim, ela não pode ser concebida como uma entidade abstrata, “[…] mas como o lugar em que a ideologia se manifesta concretamente, em que o ideológico, para se objetivar, precisa de uma materialidade […]” (BRANDÃO, 2004, p. 9). Essas concepções de língua e de linguagem é o que interessa à AD, ou seja, é do interesse da AD a língua/linguagem em uso, em movimento, em funcionamento, a linguagem como interação.
A essas concepções de língua e linguagem estariam atreladas concepções de gramática coerentes com os princípios norteadores dessas concepções, dependendo do ponto de vista abordado? Em outros termos, para cada concepção de língua e linguagem haveria uma concepção de gramática correspondente? É o que vamos discutir no próximo item.
pela estruturação do discurso. O simbólico da língua é a conjunção do sujeito que a usa, do texto que a veicula e