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6. Parte práctica 1 Metodología

6.4. Recursos necesarios

Robertson & Verger (2012) no texto Governing Education Through Public

Private Partnerships mostram que vários autores, como Yeatman (1997), Hirsch

(2003), Harvey (2005), Sassen (2006) apontam, em seus escritos, que o governo acaba por ceder lugar ao processo de internacionalização, reduzindo o lugar e o poder do Estado nos diversos segmentos estruturais do processo político- econômico e social.

Nesta direção, o neoliberalismo ganha força em todo o mundo com seus braços de gestão estratégica, os organismos internacionais (OCDE18, FMI19,

UNESCO20, CEPAL entre outros). Portanto, o governo cede lugar à governança e a

internacionalização do Estado e estabelece ao mesmo tempo a relação causa e efeito, que emerge fundamentalmente com a necessidade de reestruturação das relações de classe.

[the…] contractualism that emerged with neo-liberalism was a paradoxical in that it opened up the possibility of reviewing the basis of the post-war welfare-state social contract [...] However, as Hirsch (2003: 243-4) points out, many of the governance concepts that emerged, such as partnerships and regulatory networks, to ensure the coordination of services, tend to reduce democracy to negotiation within civil society between extremely unequal actors or simply to participatory mobilization. Government had given way to governance, on the one hand, and the internationalization of the

17Em Marx (1996, p. 35) ela resulta do “[…] modo de produção capitalista se afirma à medida que dispensa os processos da acumulação originária e difunde processos específicos de exploração e valorização […]”, o quê culmina efetivamente com o trabalho não pago pelo capitalista (burguês) ao trabalhador (operário) que por meio da exploração, ou seja do trabalho alienado, gera riqueza e lucratividade ao dono do negócio.

18 Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. 19 Fundo Monetário Internacional.

state is both cause and effect of a fundamental restructuring of class relations […] (ROBERTSON & VERGER, 2012, p. 07).

[O...] neoliberalismo era paradoxal na medida em que abriu a possibilidade de revisão do contratualismo do estado-bem-estar que surgiu no pós- guerra [...] No entanto, como Hirsch (2003: 243-4) ressalta, muitos dos conceitos de governança que emergiram, como parcerias e redes reguladoras, para assegurar a coordenação de serviços, tendem a reduzir a democracia à negociação dentro da sociedade civil entre atores extremamente desiguais ou simplesmente a mobilização participativa. O governo deu lugar à governança, por um lado, e a internacionalização do estado é causa e efeito de uma reestruturação fundamental das relações de classe, por outro [...] (ROBERTSON & VERGER, 2012, p. 07 – tradução nossa).

Estudiosos como Harvey (2005) argumentam que a competitividade, bem como as tendências de internacionalização do Estado foram resultantes da mobilização e demonstração do poder do Estado e de frações particulares como as finanças, por exemplo. Sendo assim, a liberalização da política do Estado e o ambiente regulatório que, por sua vez, aumentou a pressão sobre os sindicatos nacionais.

As mutações e crises vividas pelos trabalhadores nos sindicatos nacionais tem sido consequência dessa significativa reformulação das relações de classe, que surgem como forma estratégica das elites empresariais em detrimento da organização dos trabalhadores.

No caso específico da educação, esse processo tem sido acentuado, uma vez que mesmo em disputas internas, os sindicatos ligados a esse segmento tem mantido a unidade na luta por melhores condições de trabalho, bem como pela qualidade de ensino na educação pública nos diversos níveis e modalidades. Contudo, a “queda de braço”, ou melhor, a disputa entre trabalhadores e Estado tem sido plenamente difícil, haja vista que o Estado tem sido, não apenas regulador em favor do setor privado, mas o próprio advogado deste, tal situação exige vigilância e monitoramento permanente, a fim de não permitir que a educação pública torne-se um mercado.

Over the past decade, the globalisation and governing of education though Public Private Partnerships (PPPs) have generated considerable debate as to their meaning, purpose, status and outcomes. This debate is particularly heated in the education sector because of the widely-held view that education is a complex social and political activity that should remain largely, if not wholly, in the

public sector serving public interests. The rapid expansion of Education Public Private Partnerships (ePPPs), which increasingly involves private actors in a range of public sector education activity, including more and more of the traditional arenas of public education systems: policymaking, education provision, inspection, school management21 […] therefore deserves close scrutiny.

(ROBERTSON & VERGER, 2012, p. 02)

Ao longo da última década, a globalização e a gestão da educação através das parcerias público-privadas (PPPs) geraram um debate considerável quanto ao seu significado, propósito, status e resultados. Este debate é particularmente aquecido no setor da educação devido à visão generalizada de que a educação é uma atividade social e política complexa que deve permanecer em grande parte, senão na totalidade, no setor público que atende os interesses públicos. A rápida expansão das Parcerias Público- privadas de Educação (ePPPs), que envolve cada vez mais atores privados em uma variedade de atividades de educação do setor público, incluindo mais e mais das arenas tradicionais dos sistemas de educação pública: formulação de políticas, provisão de educação, inspeção, gestão escolar [...], Portanto, merece um exame minucioso (ROBERTSON & VERGER, 2012, p. 02 – Tradução nossa).

A reflexão dos autores mostra que o processo de globalização, ocorrido na última década, tem levado os governos dos países em desenvolvimento submeterem a educação, bem como os demais aparelhos públicos às parcerias Público-privadas (PPP’s). Porém, na educação o debate tem sido muito intenso, sobretudo porque as justificativas dos senhores de negócios só favorecem a eles mesmos, ou seja, os números das PPP’s em educação revelam que a qualidade do ensino não emergiu e que o investimento público no setor privado tem sido crescente. No entanto, a contrapartida não tem sido efetiva, nem tampouco qualificada como fora anunciada em sua concepção.

Embora o debate esteja aquecido no setor educacional, em vista a complexa e diversa atuação da educação pública no campo sócio-político a expansão das PPP’s em educação foram muito rápidas, em especial na Educação Superior, principalmente após a instalação do Fundo de Financiamento do Ensino Superior (FIES, no governo de Fernando Henrique Cardoso - FHC) e intensificadas por meio do Programa Universidade para Todos (PROUNI, no Governo de Luiz Inácio Lula da Silva), o qual priorizou parceiros privados para garantir a ampliação desse nível de ensino.

O maior destaque fica para a expansão do financiamento para estudantes de ensino superior matriculados em escolas privadas. Esse programa, conhecido como “Fundo de Financiamento Estudantil (FIES)”, já é o maior item de desembolso federal em educação, a exceção dos gastos em pessoal. Consumiu R$ 13,8 bilhões em 2014, o que representa um crescimento real de 1.100% em relação às cifras de 2004. Sozinho já representa 15% de toda a despesa federal em educação (MENDES, 2015, p. 04).

O debate e os conflitos foram intensos, uma verdadeira guerra ideológica entre governo e organizações de classes (Sindicatos e associações) ligados a trabalhadores da Educação Superior, que na defesa do ensino público, gratuito e de qualidade promoveram fortes batalhas não só no campo das ideias, mas da práxis educativa. Assim, essa foi pauta constante de debates nacionais, regionais e locais no Brasil em Encontros de Pesquisadores22 que entre outras coisas

concentram suas pesquisas neste campo e apontam os problemas e também algumas medidas para solucioná-los, evidenciando que este é um modelo comprometido com as investidas do capital que pretende tornar a educação um grande mercado a céu aberto.

Na “arena de negócios”, onde a única coisa que importa é a geração de lucro aos conglomerados que representam na atualidade o capital financeiro associado às grandes redes que se têm constituído a partir da falência de grupos menores, aqui no Estado do Pará há dois exemplos clássicos, a Universidade da Amazônia (UNAMA) e a Faculdade de Castanhal (FCAT), ambas de grupos familiares que acabaram por ceder à força do capital comercial e financeiro.

No contexto do enfrentamento das políticas públicas de educação há muitos desafios, os quais envolvem o detalhe e a apropriação que permite propor, monitorar e gestar o processo educativo. Neste sentido, as entidades mencionadas anteriormente são referências, haja vista que protagonizam em suas pesquisas o desvelar dos múltiplos elementos que constituem a essência da proposta neoliberal que produzem alterações na educação brasileira e mundial associadas ao modelo mercadológico e economicista.

22 Alguns exemplos estão nos encontros a seguir: EPENN, HISTEDBR, bem como na atuação das associações, fóruns e sindicatos nacionais ANPAE, ANPED, FORPRED, ANDES, ou em associações internacionais como a ADMEE e AFIRSE.

Estas alterações não ocorrem apenas no campo da educação, visto que são observadas nas políticas sociais de uma maneira geral e resultam das estratégias adotadas pelos setores hegemônicos como resposta à crise do capitalismo. Buscando melhor perceber esse movimento este texto objetiva refletir sobre as relações entre o poder público e o setor privado para a gestão e a oferta da educação básica, resultantes de distintos formatos de “parcerias público-privadas” (PERONI, 2009, p. 01).

Fica evidenciado que o Estado é fundamental à investida neoliberal, afinal por meio das PPP’s há uma garantia de que as instituições privadas em crise (submetidas à falências e/ou das outras formas degradantes do capital em crise) sempre serão socorridas com os recursos do poder público. Nesta direção, a reunião entre o público e o privado por meio de medidas legais (legitimadas no contexto das leis por meio das parcerias) configuram-se efetivamente como Direito Público (DI PIETRO, 2006).

Adrião e Peroni (2009) ao refletirem sobre as parcerias púbico-privadas, no contexto brasileiro, afirmam que há uma capacidade de intervenção do setor privado sob a administração pública, assumindo parcial ou totalmente a responsabilidade que até o presente momento cabia ao setor público. Na perspectiva de melhor elucidar as PPP’s, passo a partir de então, a discutir o marco legal e as bases que regulamentam sua institucionalidade no conjunto legislativo e operacional brasileiro, buscando como referência matricial a lei 11.079/04, conhecida como lei das PPP’s. Contudo, reflito em antecedentes legais, fatores retificados e/ou ratificados na configuração da relação entre governo e mercado na conformidade da lei.

1.4. O MARCO LEGAL: BASES LEGISLATIVAS DA RELAÇÃO PÚBLICO-