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3. Proposta d’intervenció comunitària dirigit a alumnat en situació de risc social

3.9. Recursos materials

No período de realização das entrevistas para este trabalho, realizaram-se em Portugal duas greves gerais que obviamente constituíram assunto incontornável na tentativa de procurar entender a motivação, envolvimento e participação dos trabalhadores de call center nestes processos de luta generalizados. A situação de crise com a intervenção externa e a adoção de medidas de austeridade extraordinárias, provocou invariavelmente para muitos/as trabalhadores/as, sentimentos de indignação, revolta e de medo pela manutenção dos seus empregos. No caso dos call centers, a generalização dos vínculos precários era anterior à crise e ao discurso de emergência nacional. Estes postos de trabalho não estariam mais ameaçados do que já estavam, sujeitos a renegociação permanente numa relação de forças desigual. A este propósito Richard Hyman (Estanque e outros, 2004) lembra-nos que mesmo os trabalhadores com contratos efetivos podem ser despedidos e que nesse sentido os contratos são todos renegociados em cada dia, a cada hora e a cada minuto. Que não sendo o trabalho uma mercadoria, a negociação acompanha permanentemente a produção - negociação da quantidade de trabalho necessária para corresponder ao salário acordado, de tempo despendido, das funções atribuídas, etc., e que a desregulamentação das leis laborais acompanha este processo que facilita os despedimentos.

Para as pessoas entrevistadas neste trabalho, estes dois momentos de greve geral foram vividos com algum distanciamento e só 4, entre as politicamente mais motivadas, se lhes referiram como importantes. E mesmo essas, reconhecendo que tinham optado por fazer greve, utilizaram sempre subterfúgios práticos para justificarem a sua ausência. Regra geral, incidiram sobre a dificuldade de transportes e de acesso aos locais de trabalho, tendo sido essa a justificação para a não

comparência. Algumas meteram o dia de férias para não ter de justificar dessa maneira. Onze outras foram ainda trabalhar, banalizando o dia de greve que não sentiram como útil ou significativo para as suas condições de trabalho e de vida.

Da parte das chefias verificou-se uma tentativa de ultrapassar as dificuldades criadas a partir desses dias extraordinários e encontrar soluções para contrariar a ausência de trabalhadores. Na primeira linha destes motivos está a ausência previsível de transportes e a perturbação que esse facto poderia causar no normal acesso ao local de trabalho. Nesse sentido, várias empresas enviaram circulares ou fizeram os supervisores andarem em cada posto de atendimento a inquirir qual a intenção das pessoas nesses dias de greve. Forma de procurar organizar o trabalho ou de intimidação aos trabalhadores? O resultado é uma pressão para que as pessoas consigam encontrar soluções e organizar-se em carros privados para ir trabalhar. Uma empresa chegou mesmo a pagar os parquímetros dos carros que viessem por esse motivo.

Do ponto de vista dos responsáveis destas empresas, os contratos estabelecidos com os clientes prevêem pesadas multas no caso de não cumprirem um número estabelecido de dias e horas para ter as linhas abertas. Em casos limite de incumprimento a consequência é a rescisão de contratos.

Entrevistado na véspera de um dia de greve geral, Paulo prefere transmitir a tranquilidade que sente no caso de ter de optar por fechar as portas da empresa:

O tema de hoje é o dia de amanhã. Amanhã há uma greve geral. Há pouco estava a falar com uma colega minha e a dizer-lhe que a minha ideia é que as pessoas tenham um dia tranquilo amanhã. Então, se calhar, fechar portas. Não estou preocupado. Já tivemos outras greves gerais em meses menos bons, hoje estou salvaguardado face a um dia menos bom. Mas quero evitar que as pessoas que trabalham comigo amanhã tenham de estar 3 horas numa estação de metro para ter o bilhete e poderem dizer que estiveram lá e que quiseram vir trabalhar e que não conseguiram. A minha ideia seria fecharmos amanhã e criarmos aqui um sistema que permita compensar ou não, mas até que previna situações futuras idênticas. Paulo, 31 anos, diretor de empresa de telemarketing

A questão dos transportes (ou da falta deles) é pretexto para quem se sente motivado para a greve e justificação para que muitos, mesmo sem essa motivação, optem por não trabalhar nesse dia. A opção por justificar faltas em dias de greve através da dificuldade de acesso aos locais de trabalho é uma forma de argumentação comum. Mas a maioria das pessoas entrevistadas confirmou a pouca adesão destas greves nos call centers em que trabalham.

Não houve ninguém no departamento que tenha dito que ia fazer greve. Houve pessoas que disseram “não venho trabalhar porque não tenho transportes” ou “não venho trabalhar que é o meu dia de folga” (...) Houve pessoas como eu que não tiveram oportunidade de vir trabalhar e não vieram. Depois houve aquela junção daqueles que podem vir, juntaram-se em carros. A empresa este ano e nesta greve teve uma atitude que achei bem: quem trouxesse o carro pagavam o estacionamento. Acho que foi um mimo simpático. Para quem podia, e houve pessoal que veio do outro lado que se juntaram num só carro. A empresa disse que se apresentassem as faturas dos parquímetros, pagava. Foi uma atitude bonita. Não se fala em greve, não há greve. Lara,31 anos, operadora

Em primeira análise foi um assunto {das conversas] porque as pessoas não tinham transportes para vir trabalhar. Em segundo lugar, a empresa faz uma coisa que é um dia antes da véspera vai a todas as pessoas perguntar se podem vir trabalhar. Quem pode pode, quem não pode, não pode. Há sempre um que mora mais perto que vai garantir a abertura da linha (...). Eu vim no meu carro e vim trabalhar à hora que pude (…) Perdi o dia todo de trabalho e vim trabalhar 2 horas. Essas 2 horas não me pagam metade do gasóleo que eu gastei (…) Agora, quando vejo um colega meu a ficar sozinho, eu venho nem que seja a pé e venho trabalhar porque eu acho que o meu colega não deve ficar sozinho. Ana, operadora, 48 anos, há 26 em call centers

Que eu saiba ninguém faltou. Cada pessoa, quem tinha carro tentou dar boleia a quem não tinha e morava na zona. As chefias ficaram muito agradadas por ninguém ter faltado. Foi um email enviado “organizem-se, quem puder dar boleia, por favor dê”. As pessoas organizaram-se e foram. Miguel, 36 anos, há 4 anos e meio em call centers, operador de um grupo de saúde

A nível da empresa em questão, eu não faço por faltar porque são sempre faltas. Não é contado como uma questão reivindicativa ou qualquer outra coisa. Muitas vezes não

se é visto pelas equipas de chefia com bom olhar. Bruno, 28 anos, há 2 anos e meio em call centers de telemaketing

Vou fazer. Pedi um dia de férias, mas teve de ser assim por esquemas. Meti férias para fazer greve, até porque já tenho fama de ser um gajo reivindicativo e revolucionário. Rui, 31 anos, formador, há 3 anos e meio em call centers

Por ser uma questão política, as pessoas as pessoas não sentiam ali nenhum tipo de ligação com esta greve. Não tinham nenhum problema particular, urgente que tivessem de resolver. Renato,32 anos, operador há 7 anos e meio na mesma empresa

Com uma minoria de pessoas a ocultar a sua adesão à greve através da dificuldade criada pela ausência previsível de transportes ou utilizando dias de férias, a generalidade dos/as trabalhadores/as inquiridos, foi trabalhar nos dias de greve geral o que pode exemplificar a dificuldade destas pessoas em aderir a momentos de greve geral quando elas não coincidem com momentos próprios de luta. Certamente que estes motivos (ou a sua ausência) se reproduzem noutros setores que recorrem ao trabalho precário e muito para além da realidade dos call centers. Sintoma também das tentativas de mobilização dos sindicatos e a sua dificuldade para influir em contextos onde a precariedade é a regra.