As anáforas encapsuladoras constituem um processo referencial específico por sua função primordial de resumir porções de texto, maiores ou menores, e também informações contextuais. Além disso, promovem o movimento duplo de progressão e retroação no texto, estabelecendo, simultaneamente, relações de continuidade e de progressão textual.
Em razão de suas características específicas, poderíamos classificá-las como um tipo especial de anáforas indiretas por não estabelecerem relação de correferencialidade com determinado objeto de discurso já mencionado no cotexto. Assim, à primeira vista, somos levados a acreditar que as anáforas encapsuladoras introduzem um novo objeto de discurso. Entretanto, é preciso notar que, ao realizar uma atividade de encapsulamento, esse processo referencial resume não só proposições expressas no cotexto como também todas as informações, os conhecimentos e os conteúdos dispersos e difusos no contexto.
Por esse lado, como vimos afirmando, se não privilegiamos a dependência dos processos anafóricos em relação a um objeto de discurso e/ou expressão referencial presente no cotexto para atualizarem-se, podemos considerar que as anáforas encapsuladoras constituem um tipo especial de correferencialidade. Assim, podemos defini-las como um tipo especial de anáforas diretas, conforme sugerem Cavalcante, Custódio Filho e Brito (2014).
No entanto, o que nos interessa em relação às anáforas encapsuladoras é menos definir sua classificação considerando um quadro específico dos processos referenciais e mais percebê-las como uma estratégia sofisticada e importante para a produção de sentidos. Esse processo anafórico especial por seu caráter resumitivo e, ao mesmo tempo, recategorizador, contribui tanto para estabelecer a orientação argumentativa quanto para expressar disposições avaliativas do produtor no texto, aspectos que desenvolvemos nesta seção.
Antes, com base nos estudos de Koch (2006) e Francis (2003), discutimos a designação das formas nominais como principal recurso para proceder à atualização das anáforas encapsuladoras.
Koch (2006) destaca o sintagma nominal como o tipo de expressão referencial privilegiada para exercer a função de encapsulamento e propõe o termo nominalização para os casos de introdução ancorada de objetos de discurso. A autora considera a nominalização como um tipo de operação discursiva que consiste em referir um processo ou estado significado por uma proposição que, anteriormente no texto, não tinha o estatuto de entidade. Para a linguista, a nominalização designa um fenômeno geral de transformação de proposições em entidades. O que Koch (2006) designa como nominalização estabelece, como afirmamos, a introdução de um novo objeto de discurso ao mesmo tempo em que recupera, retoma porções maiores do cotexto.
Na mesma direção, seguem os estudos de Francis (2003), que nomeiam como rotulação o processo coesivo lexical realizado por grupos nominais no texto. O autor identifica dois tipos de rótulos, os prospectivos e os retrospectivos, para explicar os dois movimentos que os encapsulamentos realizam.
Como um subconjunto dessa classificação, Francis (2003) estabelece a categoria dos rótulos metalinguísticos. São grupos nominais que falam de uma extensão do discurso como um ato linguístico, rotulando-o. Assim, são rótulos para estágios de um argumento à medida que o escritor apresenta e avalia suas próprias proposições e as de outras fontes. Esse processo, conforme explica o autor, é desenvolvido dentro e por meio do próprio discurso, como caracterizações ad hoc do comportamento linguístico que está sendo efetuado no texto.
Koch (2006) reforça essa ideia indicando que as nominalizações contribuem para a organização macrotextual. Elas funcionam como sinalizadores argumentativos: além de proceder ao fechamento de uma porção textual anterior, orientam o leitor para o estágio seguinte. De acordo com a autora, uma das funções textual-interativas das formas nominais é imprimir aos enunciados em que se inserem e ao texto como um todo orientações argumentativas consoantes à proposta enunciativa do seu produtor (KOCH, 2005, p.35).
Francis (2003), por sua vez, em seu estudo de perspectiva mais restrita a aspectos linguísticos, ao classificar a rotulação como um tipo de processo coesivo bastante presente em discursos de natureza argumentativa, não deixa de apontar para a importância da rotulação como meio de classificar a experiência cultural de modos estereotípicos que se dá não como um processo aleatório de nomeação, mas como uma codificação de percepções partilhadas ou partilháveis de mundo.
Nessa direção, convoca a realização de novos estudos para verificar a ocorrência desse processo em outros gêneros, tanto orais como escritos, com o objetivo de ampliar o conhecimento a respeito de padrões de significação na linguagem.
Em relação ao fenômeno de encapsulamento, ressaltamos que a seleção de uma forma lexical particular, como um rótulo para uma proposição, por parte do produtor, constitui um indício de sua escolha interpretativa de determinado conteúdo.
Se por um lado os traços semânticos dos sintagmas rotuladores são relevantes para a (re)construção da coerência argumentativa dos discursos em dada enunciação, por outro, impõe-se aceitar como encapsuladoras todas as formas que
cumpram ao menos a função de resumir conteúdos proposicionais, não as restringindo aos sintagmas nominais. Como observa Cavalcante (2011), não é aceitável, da perspectiva sociocognitiva e interacional, que as formas dos rótulos determinem, previamente, como os argumentos serão interpretados.
Neste estudo, não nos atemos à discussão sobre as formas que atualizam os encapsulamentos no texto por ser nosso foco menos a estrutura formal das anáforas encapsuladoras e mais as funções exercidas por esse processo referencial.
São funções intrínsecas das anáforas encapsuladoras, no texto, tanto a função resumitiva, mais evidente pela própria definição do processo, quanto a coesiva, do ponto de vista dos arranjos na tessitura textual, à qual Francis (2003) confere relevância. Em seu estudo, o autor se propõe a “identificar, descrever e ilustrar um dos principais meios pelos quais os grupos nominais são usados para conectar e organizar o discurso escrito” (FRANCIS, 2003, p. 191). A rotulação é entendida, pois, como esse tipo de coesão lexical de grupos nominais.
Destacamos a contribuição das anáforas encapsuladoras para orientar argumentativamente o texto e para expressar posicionamentos avaliativos, de caráter axiológico. De acordo com Cavalcante (2005, p.140), “os encapsuladores, principalmente em gêneros de natureza opinativa, se prestam muito bem à síntese de comentários avaliativos”. Essas duas funções estão diretamente ligadas ao objetivo geral desta pesquisa. Em nossa análise, identificamos as anáforas encapsuladoras nos textos e evidenciamos de que forma sua presença nas redações de vestibular colabora para a exposição do posicionamento do produtor frente ao tema, contribuindo também para estabelecer a orientação argumentativa ao texto.
Conforme asseveram Cavalcante, Custódio Filho e Brito (2014), as anáforas encapsuladoras exercem funções argumentativas decisivas para o projeto de dizer do produtor de texto, no momento em que busca o melhor modo de designar, de sintetizar um ponto de vista. Dessa forma, esse processo referencial oferece instruções para o interlocutor sobre como deve interpretar a unidade encapsulada, o que manifesta uma espécie de roteiro para o entrelaçamento das ideias conduzidas no texto (CAVALCANTE, 2011).
Mattos (2004 apud CAVALCANTE, 2011) distingue, ainda, a função recategorizadora avaliativa das anáforas encapsuladoras. Nesse caso, a própria expressão referencial carrega um indicador de avaliação. Como explica a autora, a
função avaliativa representa o tipo de recategorização que imprime valores axiológicos ao objeto de discurso. A nosso ver, qualquer processo de referenciação exerce uma função argumentativa que, no contexto em que é empregada, assume caráter avaliativo.
Assinalamos, ainda, que além da função avaliativa não se restringir às anáforas encapsuladoras, em alguns casos, depende de expressões referenciais associadas a um elemento – adjetivo, substantivo, pronome ou advérbio – que, em conjunto com outras indicações contextuais, orientam o direcionamento argumentativo dado pelo produtor do texto.
Salientamos, assim, que as anáforas encapsuladoras exercem papel relevante como processo referencial por sua função de síntese e por seu caráter avaliativo e argumentativo. Na análise que empreendemos, observamos que as anáforas encapsuladoras contribuem tanto para viabilizar a exposição do posicionamento do produtor frente ao tema proposto quanto para delinear a orientação argumentativa que será desenvolvida no texto.