Certamente, a expressão “Projeto de Pastoral” não seja o nome que se
adeque ao contexto de Igreja, mas ela muito se faz necessário para
compreendermos, à luz de expressões de nossos tempo, o estilo de catequese,
animação e pastoreio desenvolvido pelo Padre Cícero Romão na pequena Juazeiro.
Primeiramente, é necessário situar-se no contexto eclesial do Estado do
Ceará na época que tinha como bispo D. Luis Antônio dos Santos, de origem
11 A palavra “doido” no nordeste brasileiro é utilizada comumente para expressar uma pessoa de
fluminense e formação em Direito Canônico, realizada em Roma, e era o primeiro
bispo da recém-criada Diocese do Ceará.
Figura 4 - Dom Luís Antônio dos Santos – 1º Bispo da diocese do Ceará– Acervo Histórico Diocesano do Crato
Dom Luís era um expoente no quadro do movimento de romanização do
Catolicismo Brasileiro da época.
12Ao ser nomeado primeiro Bispo do Ceará, em
1861, deparou-se com um verdadeiro caos moral no estilo de vida do clero local.
Segundo relatos, afirma-se que dos 33 sacerdotes que constituíam o clero da
Diocese de Fortaleza, um considerado número tinha mulheres e filhos, muitos
vivendo de modo conjugal e ainda uma simples e insignificante formação dos
seminaristas. Também se deparou com Padres que viviam seu sacerdócio de modo
independente, desenvolvendo os mais variados tipos de apostolado, dentre eles, Pe.
Ibiapina e seus projetos caritativos pelo sertão cearense. D. Luís tinha a missão de
substituir o Catolicismo Colonial pelo Catolicismo Universal de Roma, em que a
obediência, a disciplina e a centralização do poder eram condições essenciais para
o bom êxito das reformas desejadas na igreja. A originalidade, a liberdade de ação e
12 OLIVEIRA P.R. Catolicismo popular e Romanização do catolicismo Brasileiro.In: REB, vol. XXXVI,
FASC.141, p. 131-141, p. 976, mar. O autor mostra que o processo de “Romanização” do catolicismo brasileiro foi, ao mesmo tempo, um processo de destruição religiosa do leigo.
de êxito do Padre Ibiapina, aliás, moralmente irrepreensíveis, ameaçavam o esforço
de organização e de controle da Igreja Hierárquica.
13Padre Cícero presenciou esses cenários desde a sua formação o que
certamente fez com que esse tenha sido um aspecto valioso do movimento de
romanização: criar uma mentalidade de zelo pelo sacerdócio. Prova disso era o seu
desejo em exercer a função de docente junto ao seminário da Prainha, de modo a
colaborar para que outros seminaristas tivessem a possibilidade de uma formação
qualificada que os preparasse verdadeiramente para o exercício do sacerdócio
ministerial. No entanto, devido a uma série de situações que foram surgindo ao
longo de sua trajetória, o sonho de ser professor acadêmico não se tornou realidade.
Podemos entender que a decisão de Padre Cícero em permanecer na
pequena vila de Juazeiro é para além de alusões místicas, pelo contrário, ela
vincula-se muito mais ao sonho de ter uma considerada postura em meio ao povo e
ao clero. Embora a pequena vila fosse, aos olhos de alguns, um espaço
insignificante, poderia para ele ser a garantia para conquistar novos espaços de
exercer seu sacerdócio.
A vila Juazeiro era o espaço ideal para iniciar o seu ministério e
simultaneamente uma forma de expressar a sua gratidão e, de certo modo,
colaborar com o processo de organização da diocese e com o projeto de reforma
eclesial, almejado pelo Bispo do Ceará Dom Luís, que também depositava nele
grande confiança e estima, a ponto de desconsiderar o Conselho de Formação do
Seminário de Fortaleza.
Um fator importante a considerar é a familiaridade exercida pelo Padre
Cícero. Primeiramente, pelo fato de ser um sacerdote nativo e ser profundamente
conhecedor das situações que se originavam, seguindo pelos seus laços de
11 Alguns anos mais tarde, o mesmo D.Luís, então Arcebispo de Bahia, terá um comportamento
parecido, em relação ao movimento de António Conselheiro em Canudos, no desejo de preservar a autoridade hierárquica do clero. Cf RALPH DELLA CAVA: O messianismo Brasileiro e as Instituições Nacionais. Revista de Ciências Sociais, Fortaleza, VI (1/2) 1975, p.121-139.Numa carta ao Núncio Apostólico, Dom Joaquim, sucessor de Dom Luis, justificava o “misticismo” do Vale do Cariri nesses termos: “Cumpre-me cientificar a V. Excia. Revma. que nesta Diocese os casos de desequilíbrios das faculdades mentais são freqüentes e ocasionarias, e quase todos se manifestam por tendências para o maravilhoso, não sendo estranha a essa tendência uma boa parte do Clero; isto devido ao Dr. Ibiapina, homem ilustrado em ciências jurídicas mas supersticioso, que resolvendo ordenar-se, conseguiu esta graça sem estudar Teologia, e depois saiu a pregar pelos sertões de Pernambuco e do Ceará, demorando-se mais nesta Diocese, onde muito contrariou o meu Antecessor de saudosa memória o Sr.Dom Luís: o Pe. Cícero, o Sr. José de Marrocos e outros foram discípulos deste Doutor Pe. Ibiapina. Daí vem em parte a história do Juazeiro.”, (27/03/1897)