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Desenvolvendo-se como brincadeira, a composição musical aproveita construções vocais e instrumentais em pequenas canções muito simples, relatos musicados de acontecimentos vividos pela criança/adolescente que, ao se tornarem refrões, favorecem seu vínculo com a realidade (CMT1).

Sendo a música um discurso sobre bases rítmicas e linguísticas, a composição feita pela criança/adolescente segue parâmetros matemáticos e lingüísticos precisos, e a observação intuitiva de aspectos de métrica e de prosódia em sua composição comprova o caráter organizador da música e torna razoável supor que compor música denota e estimula sua organização espaço- temporal. Não precisando pensar conscientemente sobre a matemática que rege sua composição musical, ela dispõe melodias e palavras sobre um ritmo interno que é dela, e que orienta sua música.

A criança pequena ou com dificuldades cognitivas alcança sucesso compondo a partir de canções quase prontas, em que ela tem que inserir apenas uma ou duas palavras ou sons, preenchendo espaços seguindo orientações. Por seu poder de interferência no mundo, a composição musical propicia à criança/adolescente a visão de suas capacidades de atuar no mundo, modificando-o e tornando-o melhor. Ao compor ela faz parceria com o mundo de forma positiva e adequada. Ao ter sua composição musical aceita pelo outro, ela experimenta a sensação de se sentir aceita e valorizada pelo que faz.

Compor dentro de normas combinadas estimula a adequação da composição da criança/adolescente a parâmetros concretos de uso dos elementos musicais, ajudando-a a equilibrar sua expressão com as formas de funcionamento social e a construir, de maneira lúdica, a noção de atender às exigências do mundo e de colaborar com ele. O adolescente se mostra rigoroso em buscar uma composição própria, sem influências muito evidentes. A criação mais elaborada, “de adulto”, estimula-o a investir no estudo musical para conseguir interpretá-la (CMT1).

Embora em todo o trabalho musical a criança/adolescente esteja em evidência, mostrando-se através de suas escolhas musicais, é na composição que se revela mais claramente sua identidade sonoro-cultural. Suas escolhas situam-na simultaneamente como pessoa e como parte de um grupo social. Ela inventa músicas a partir dos elementos de seu repertório musical internalizado,

mostrando apropriações de ritmos, melodias e harmonias presentes em peças musicais conhecidas por ela. (STO9).

A composição musical estimula qualidades importantes ao processo de individuação da criança/adolescente, como apreciação, julgamento, escolha, criatividade, organização e realização. O desenvolvimento desses atributos leva-a a experimentar novas formas de ser, descobrir potenciais e empreender mudanças, enriquecendo sua vivência limitada pela doença. Exteriorizando através de elementos musicais o que tem em mente, ela torna sua angústia acessível a si mesma e ao outro. Na experiência de compor, ela tira de dentro de si coisas que são suas, guardadas entre tantas coisas que lhe agradam ou incomodam, e as organiza de forma a poder ouvi-las e compreendê-las, ouvindo-se e compreendendo-se.

A composição musical é um retrato da individualidade do compositor. Por isso, ela pode fortalecer a identidade de uma criança/adolescente tratada como um “grau 3” ou “grau 4” entre outras crianças prematuras que também tiveram uma hemorragia periventricular, e dos quais os profissionais de saúde não conseguem memorizar os nomes. O sucesso de suas composições musicais diante do outro estimula-a a reconhecê-las, esforçar-se em compor mais, dar atenção à delimitação de seu princípio-meio-fim e ter prazer em apresentá-las, em busca de mais gratificação e reconhecimento (CMT9).

Formas não-convencionais de escrita musical propiciam à criança/adolescente o registro e reconhecimento de suas composições (CMT16). Escritas, ilustradas, colocadas em pastas, levadas para casa, apresentadas às pessoas de seus outros espaços de vida, estudadas, preparadas e apresentadas em pequenos shows no ambiente de saúde, elas mostram a outras pessoas sua capacidade de fazer música. As músicas feitas em sessões de musicoterapia passam a fazer parte do repertório do grupo e são mais estimadas que as já existentes, numa sobreposição do valor afetivo ao musical. Algumas composições se tornam hinos do grupo. A inserção da composição musical da criança/adolescente em sua Pasta de Músicas estimula que ele a reveja e a modifique em casa, até ficar satisfeito com sua produção musical (CMT1).

A composição musical permite identificar cada criança/adolescente e tratar seus conteúdos de forma individualizada (SMI6), estender a composição a outros pacientes através do reconhecimento de semelhanças (CMT1),

diagnosticar a capacidade da criança/adolescente de aprender uma canção nova (CMT9), reforçar situações vivenciadas e evidenciar o que está sendo feito levando a criança/adolescente a perceber o grupo (STO6), estimular aquisições psicomotoras (STO1), despertar alegria e bom humor (STO1, STO6), induzir o canto (STO1), induzir movimentação, dança e expressão corporal (CMT1, STO6), conseguir gratificação imediata com pouco esforço e estimular novas aquisições psicomotoras (CMT1), inserir música em atividades não-musicais da criança, ampliando a presença da música na sua vida (CMT5) e acolher o cuidador no grupo terapêutico (CMT17).

Composições que falam de atitudes que a criança/adolescente deve desenvolver (como manter a língua dentro da boca ou vestir/despir a roupa) acalmam-na, despertam sua prontidão para a tarefa, envolvem-na no clima da diversão, são bem recebidas por ela, direcionam seu olhar para a musicoterapeuta, resultam em sucesso e contentamento, reforçam a memorização e aquisição das atitudes, tornam-nas mais prazerosos, conscientizam-na de suas etapas, orientam seu movimento e levam-na a cumprir o que a letra sugere, inclusive redirecionando atitudes inadequadas, pois o fato da fala vir envolta em música favorece a aceitação de seu conteúdo (STO1, STO2, STO4, STO5, STO6). Canções compostas para orientá-la em atividades da vida diária tornam-se demarcatórias destas, levando-a a aprender a canção e a envolver-se com o aprendizado de seus conteúdos e a começar a atividade logo que ouve seu início (STO6, STO8, STO9).

Por ser aberta, a composição musical pode partir da posição em que a criança/adolescente com dificuldades motoras consegue ficar para despertar e manter sua atenção e direcioná-la a outros posicionamentos e movimentos (STO2, STO6, STO7), descrevendo atividades complexas passo a passo e conseguindo que ela se esforce por realizar as tarefas cantadas, com uma dedicação que ela não apresenta fora da atividade musical (STO4).

Acessível a não-musicistas, a composição é usada pelo cuidador para estimular a criança/adolescente e para expressar seus próprios sentimentos sobre a situação vivida por eles (SMI5, STO5, STO7). Isso leva o cuidador que não compõe a reparar e comentar suas dificuldades (STO3). O técnico compõe e encomenda ao musicoterapeuta composições sobre conteúdos que o paciente está desenvolvendo, mostrando confiança na eficácia do recurso (STO4, STO5,

STO7). Adultos presentes ao atendimento fazem músicas espontaneamente e as cantam para o grupo (SMI6).