No intuito de demonstrar as complexas dinâmicas que compõem os relacionamentos na prisão inicio com o exemplo de Matheus e Giovanna, um casal que sobressaía aos outros por suas condições materiais e capacidades associativas no cárcere. O envolvido agia como um comerciante, possuía maços de cigarro em abundância e objetos de valor. Ele se orgulhava da capacidade de conseguir multiplicar seus bens e com isso adquirir um status no pavilhão mesmo que fosse um envolvido. Matheus era orgulhoso e me contava sem rodeios de sua vontade de ganhar dinheiro, de suas ambições como comerciante na prisão. Segundo o casal, era por meio de estratégias específicas que conseguiam encontrar seus clientes, com quem trocavam artigos de uso e alugavam um celular para ligações. Era preciso visualizar entre os presos aqueles que pareciam ter as associações materiais necessárias, presos que não dariam calote e que teriam desejo constante de consumir os bens do casal. Matheus, além disso, era quem controlava as finanças do casal. Segundo Giovanna, eles tinham um saco grande cheio maços de cigarro mas ela era impedida de fumar exageradamente. Matheus dizia: “se eu deixar ela fuma tudo, tá fumando dinheiro”, ao que ela respondia: “eu sou fumante meu bem, o que você quer que eu faça?”74. Ao controlar o habito de fumo da parceira, Matheus também regulava o fluxo de
entrada e saída financeiro do casal.
Giovanna, por sua vez, demonstrava um senso de humor ácido e se definia como uma pessoa “violenta e descontrolada”. Matheus ria da situação e mostrava uma cicatriz no nariz
74 Giovanna se diferenciava de outros presos e presas que só fumavam fumo de corda em papel de caderno, a
possibilidade de fumar cigarros industriais, ainda que controladamente, é um exemplo da situação material privilegiada que o casal se encontrava.
ocasionada por um soco de Giovanna, que justificava sua atitude dizendo “ele não me ouve”. Se Matheus controlava as finanças e exercia o papel de comerciante, a presença de Giovanna era indispensável para que os dois se mantivessem na situação de abundância material no contexto de uma escassez programada pela instituição: a mona tinha um laço de união estável com um ex-namorado na rua. Esse antigo parceiro morava no apartamento de Giovanna e pagava o condomínio com dinheiro advindo dos lucros que o casal empreendedor fazia na prisão. Nas palavras de Giovanna:
Ele tem união estável comigo, mas não temos mais nada emocional. Ele esbanja na rua com o que a gente faz aqui, vai em baladas e bebe muito com o que damos para ele.
Nesse caso podemos observar um exemplo privilegiado da relação entre as visitas e as trocas na penitenciária. Matheus se orgulha de sua capacidade elocutória e de sua experiência no cárcere, mas não tinha conexão com a rua, não tinha visita e dispensava abruptamente a tentativa de conseguir emprego lá dentro, pois não queria se associar à administração. Ao se relacionar com Giovanna, Matheus também se associa à sua visita que, por sua vez, tratava de atravessar a segurança rígida e as revistas com artigos de troca, recebendo com isso parte do lucro feito dentro da penitenciária. Como vimos em outros casos, algumas trocas que acontecem na prisão tem os pagamentos feitos na rua, normalmente por parentes, que depositam os valores na conta bancária do preso comerciante. Além disso, era costume de Matheus esperar o depósito em sua conta para entregar a mercadoria ao comprador. Apesar de não ter visitas, Matheus mantinha contatos na rua que gerenciavam sua conta bancária e nesse interim o dinheiro reservado ao amigo de Giovanna era transferido. Esse dinheiro, além de ser usado para a sua vida, era essencial para custear as visitas que fazia na penitenciária.
Como vemos, a economia interna de trocas na prisão é produzida em capilaridades extensas que dependem da capacidade de um(a) dentento(a) de projetar a si mesmo(a) na rua e de alçar seus laços dentro da prisão. Neste caso específico é somente a relação amorosa entre a
mona e o envolvido que possibilita que ele assuma uma posição privilegiada no convívio com os outros presos. O fato de Giovanna e Matheus produzirem uma fissura na membrana da prisão, faz deles o centro de uma série de fluxos que envolvem transações bancárias entre diferentes visitas. São feitos mecanismos de passagem pelas celas, pelos espaços e diferentes núcleos de intimidade. Vemos como ter uma conexão com a rua se torna um atributo do preso
ou presa visitado. Este caso específico demonstra uma conexão entre dentro e fora alçada em um processo burocrático de consolidação de união estável. Somente familiares têm direito à visita íntima na prisão, o que transforma uma relação como esta, entre uma mona e seu ex- namorado, em um trunfo poderoso em relação aos outros presos. Desta forma, relações burocráticas abrem conexões e criam porosidades que as regulações institucionais deixam aparecer na tessitura da prisão. Em nenhum momento a relação de Giovanna com seu amigo na rua é descolada de seu território existencial. Nos cigarros que fuma, na vida que leva ao lado de Matheus, na posição que se situa no emaranhado de relações da prisão.
A criação de trâmites desse tipo, a partir da mobilização que Giovanna e Matheus faziam de suas capacidades de troca e associação, não existia sem que a vida amorosa fosse constantemente marcada pelo cruzamento de motivações heterogêneas. Em determinado momento de nossas conversas, perguntei aos dois o que poderiam me dizer a respeito da separação entre amor e interesse, da qual tomei conhecimento em outras conversas. A reação a tal pergunta deixou o clima mais tenso do que eu imaginava, pois o casal iniciou imediatamente uma discussão a respeito das motivações e inclinações um do outro. Giovanna iniciou dizendo: “ele ficou comigo por interesse, estava louco para arranjar alguma mulher na rua, algum contato para trazer as coisas dele aqui para dentro”. Matheus costumava manter uma postura irônica, sempre com um sorriso no canto do rosto e foi dessa forma que agiu quando olhou para mim e afirmou, como resposta a Giovanna: “eu gosto dela, já falei que gosto, ela sabe disso, mas desconfia de mim”. Depois disso, olhou para Giovanna e disse “eu até já te mostrei para minha irmã, não foi? Eu vou te ajudar quando eu sair”. Nesse momento se esclareceu que a relação do casal era marcada por uma ruptura próxima, pois a pena de Matheus estava no fim, a alguns meses da conclusão, e Giovanna ainda tinha muito tempo a cumprir. Nesse caso era Giovanna que alimentava desconfiança pelo amor de Matheus que dizia ser difícil assumir na rua que se relacionava com uma mona. Em determinado momento Giovanna afirmou: “eu posso te amar de perto ou de longe”.
A partir disso a conversa do casal foi direcionada especialmente às queixas de questões problemáticas do convívio entre os dois. A maior questão de Matheus era a respeito do ex- namorado de Giovanna que, segundo seu juízo, era um “sanguessuga”, pois pedia mais dinheiro do que o necessário para realizar o trânsito de objetos para dentro da prisão. Giovanna respondia
“o dinheiro tem que pingar todo mês, para pagar o condomínio que está no meu nome, se não pagar dá problema”. Giovanna emendou sua fala para exprimir sua queixa, ela desejava parar de esconder as coisas dentro de seu corpo. Além de prover a conexão com seu ex-namorado, era ela quem guardava as drogas e celulares em seu corpo, utilizando-se como mecanismo de invisibilização e passagem para escapar de blitz na prisão. Ela dizia fazer isso especialmente para ajudar Matheus em seu negócio, pois tinha muito medo de ser pega pelos guardas. Se fosse pega, sua pena aumentaria ainda mais e perderia o direito à liberdade condicional. Giovanna disse: “você que vende mas sou eu que guardo tudo né? E se eu for pega? Quer prova maior de que faço tudo por amor? Você regula as coisas para mim e na verdade eu que tô correndo risco aqui dentro”.
Apesar dessas desavenças resultantes do encontro entre vida amorosa e vida econômica, a relação do casal era marcada por uma mutualidade que, como veremos, mantem relação com a forma como lidavam com a riqueza. Giovanna, que se dizia “violenta e descontrolada”, se envolvia constantemente em brigas no pavilhão. O casal narrou dois casos em que ela se envolveu em problemas. Em um deles, Giovanna saltou de sua burra para a burra de outra travesti que a provocava, e socou seu rosto. Em outro momento, ela entrou em uma disputa elocutória com um ladrão, motivada por um conflito econômico. Ambos as brigas demonstram um comportamento de Giovanna discrepante do que se espera no pavilhão. A não ser que seja entre casais, a violência física é assunto público e o setor é responsável em julgar quem está
certo ou errado na disputa. A situação é mais dramática no caso de ofensas conferidas de uma
mona a um ladrão. No entanto, Matheus era visto no pavilhão como um sujeito com conexões e sua intervenção foi essencial para que nos dois casos Giovanna saísse incólume das disputas. Matheus dizia: “ela é louca, fica arranjando briga, depois eu que tenho que resolver, sorte dela que eu tenho moral na cadeia, qualquer hora vou me foder aqui dentro por causa dela” e ria depois, com sua característica postura irônica. Giovanna concordava com o marido, e justificava suas ações na chave de um descontrole emocional ocasionado por sua alma feminina, mas ao mesmo tempo parecia se orgulhar de seus modos e especialmente do fato de o marido defendê-la em situações perigosas, ela via essas ações como cuidado, como um sinal de que seu marido se preocupava com ela.
Matheus, por sua vez, também se envolvia em disputas causadas pela sua postura de comerciante, centro de trocas e de riquezas na prisão. Em certo momento, ele foi mandado para o seguro, pois brigou com o piloto da prisão. Segundo Matheus, o piloto exigia que certas transações entre dentro e fora da penitenciária passassem por seu aval, e com isso requisitava parte do lucro das trocas. Matheus desprezava essa ideia e em uma disputa com o piloto, acabou sendo mandado ao seguro. Giovanna ficou na cela, segundo ela “cuidando das coisas, para ninguém ficar de olho gordo nas nossas coisas”, mas depois de uns dias arranjou propositalmente uma briga para ter motivos de se encontrar com Matheus no seguro. Como resultado dessa dinâmica, no período de nossas conversas ambos habitavam o pavilhão I da prisão, para se manterem à distância do piloto no pavilhão III, mas diziam ter adaptado as dinâmicas de comércio ao novo contexto e tinham os artigos como novos clientes.
O caso de Giovanna e Matheus, proporciona um exemplo privilegiado para que possamos compreender uma série de atravessamentos. Primeiramente, podemos ver como amor e interesse – termos mobilizados agora como categoria analítica– se imiscuem nas relações. Como vemos, é impossível que Giovanna seja separada da relação de união estável produzida com seu ex-namorado. Giovanna e seu parceiro na rua permitem a visualização de uma associação, de uma conexão entre dentro e fora da prisão e com isso, se relacionar com ela permite a Matheus acessar um fluxo entre rua e prisão, permite que ele projete sua imagem dentro do pavilhão por meio de suas capacidades de troca. É nesse sentido que afirmo a condição de inseparabilidade, na prisão, das associações (materiais e afetivas) de um sujeito. Uma relação como essa, permite com certo grau de obviedade, o julgamento externo, de outros presos e presas, segundo a disposição discursiva amor e interesse, ou seja, é muito fácil que Matheus seja visto como alguém que age por interesse disfarçado de amor. No entanto, ao aproximarmos a câmera da escala da intimidade do casal, podemos apreender que vida emocional e vida material se imiscuem drasticamente e, ainda, a vida emocional é debatida em termos econômicos e vice-versa.
No pavilhão, Giovanna é vista em associação com sua visita e com Matheus, e sua riqueza é calculada no balanço com esse emaranhado de relações. Matheus, ao formar um par com Giovanna, associa-se indiretamente com a visita e assim produz-se uma rede. Essas redes, mais do que meras aglomerações intensivas, são o meio de fluxos pelos quais dependem a toda
a economia de trocas da prisão. A mutualidade, reforçada por carências emocionais e materiais, é a base da economia de trocas na galeria rosa que se baseia inextrincavelmente na produção de relações intimas. Por meio da conceituação realizada no capítulo II, podemos ver essa característica em vários núcleos de intimidade. Para conseguir emprego, vale lembrar, é preciso acessar determinados núcleos de intimidade da instituição (nosso encontro no setor de
atendimento era usado como um meio para isso). Para acessar o jumbo e produzir uma conexão com a rua, é preciso ter visita (a visita pode ser considerada como família75, pois é preciso um
laço jurídico para justificar a visita, a não ser que seja o caso de visita única). Por sua vez, o preso que não recebe visita nem trabalha, precisa produzir associações que ampliem a magnitude de suas ações e nesse caso as relações amorosas são evento privilegiado da produção de redes de associação.
Nesse sentido, pode-se dizer que as trocas na PJPN resultam em trocas não somente de objetos, mas também de relações, pois os sujeitos são vistos como aglomerados. Quando Matheus aluga seu celular pra um preso(a), ele provê um serviço baseado em sua capacidade de trocas. O fato de possuir um celular na prisão implica imediatamente na sua relação com Giovanna e em sua associação com sua visita. No entanto, não é qualquer preso(a) que pode alugar o celular de Matheus. Para ter acesso à conexão entre rua e prisão que o celular proporciona, o preso(a) têm necessariamente de possuir associações prévias na rua, pois Matheus exige que um valor seja depositado em sua conta antes de prover o serviço. Ao realizar, portanto, a transação de aluguel de seu telefone, ele não troca meramente o serviço, mas os atributos de si mesmo que permitem que ele tenha esse privilégio; a transação envolve o corpo de Giovanna que esconde o celular, a relação amorosa entre os dois, a renda do ex-namorado de Giovanna na rua. A troca do serviço por dinheiro na rua exige que as relações de Matheus sejam trocadas pelas associações do preso(a) que deseja alugar seu celular. No caso de trocas materiais e com fluxos localizados no pavilhão, como as trocas de peças por maços de cigarro, o mesmo pode ser dito, pois a capacidade de possuir cigarros ou peças para serem trocados depende essencialmente da produção de relações que são trocadas, já que todas as relações de
75 Para uma descrição atenta da importância de ter família, na perspectiva das visitas, conferir Ferraz de Lima
troca se baseiam exclusivamente no aparato material proveniente das visitas e de trabalhos que dependem do acesso às intimidades da instituição.
Como podemos notar, o caso de Matheus e Giovanna é um exemplo privilegiado para demonstrar como as análises antecedentes ocorrem no cálculo contínuo entre amor e interesse, mas também dá pano para a visualização de uma outra série de problemas ainda insondados a respeito das trocas que envolvem monas e envolvidos. Até o momento, vimos a questão das associações dispersa de forma igualitária entre monas e envolvidos, no sentido de que o foco analítico recortou a desigualdade no sentido da produção de associações afetivas e materiais, ou seja, entre quem tem visita e quem não tem, quem consegue ultrapassar a escassez material e quem não é capaz disso. No entanto, como podemos notar na conversa com Matheus e Giovanna, as relações materiais e afetivas são atravessadas por outras forças que implicam a produção de diferenças circunstanciais no modo lidam com riqueza. Essa complexa distinção pode ser resumida no fato de que ao produzirem uma relação amorosa o território dos dois é ampliado, mas há uma diferença essencial na maneira como projetam suas existências. Essa diferença consiste na emergência de dois ethos distintos que informam a relação de Matheus e Giovanna como, respectivamente, marido e mulher. Essa conjunção que, vimos anteriormente, compõe os arranjos matrimoniais de monas e envolvidos.
Matheus é especialmente interessado em fazer prevalecer a sua capacidade de trocar, de fazer comércio e, assim, de adquirir prestígio no pavilhão, aumentar sua riqueza, sua potência e ação. Nesse sentido, ele se apropria das conexões de Giovanna com sua visita, os objetos que entram na prisão dessa forma são gerenciados por ele e é ele quem controla as finanças do casal, como bem se esclarece no modo como não permitia que Giovanna fumasse livremente os cigarros. Matheus promove uma valorização gradual de sua “pessoa social” (Viveiros de Castro e Benzaquem, 1977: 155) e busca o respeito dos demais mesmo sendo um envolvido. Ele entra em confrontos com os ladrões e com o piloto da prisão, ancorado em sua capacidade de troca, detentor de celulares e de substâncias desejadas no pavilhão. No entanto, se a visita, que provê a conexão com a rua, é uma visita de Giovanna, por que a riqueza adquirida por esse meio é vista como propriedade de Matheus? Além disso, é Giovanna quem utiliza dos espaços de seu corpo para invisibilizar os celulares e substancias dos agentes e é quem arca com os riscos de agenciar o empreendimento comercial do marido. Ela diz agir desse modo por amor e seu
interesse na riqueza não é atravessado pelo desejo de conduzir uma expansão territorial como “pessoa social”, não busca respeito ou ultrapassar a condição moral de ser uma mona pela capacidade de troca. Pelo contrário, é justamente a relação em casal que proporciona a Giovanna uma afirmação de sua feminilidade. Como vimos no capítulo I, as monas são preocupadas especialmente em se produzirem o mais femininas o possível no contexto de escassez da prisão e, nesse intuito, ser mulher de seu marido é circunstância de uma expansão do território existencial. Ao invés de produzir potência agentiva por meio da capacidade de trocas, Giovanna se aproveita de sua situação material abastada para desviar das normas de conduta que atravessam a prisão, ela arranja brigas, se define como louca e descontrolada e se ampara na condição de seu marido para não sofrer as consequências dessas atitudes. Assim, a relação de Giovanna com a ampliação de sua projeção individual é diferente da de Matheus porque, como marido e mulher, eles performatizam diferentes papéis na dinâmica matrimonial.
Por meio desse raciocínio, podemos relacionar as condutas, no que concernem à apresentação da riqueza, às matrizes morais apresentadas no capítulo I. Como vimos, a transformação de um ladrão em envolvido decorre na perda de um status moral que era produzido quando o sujeito compartilhava de seu território com a população, que produzia o
crime em seu corpo. O já envolvido não se ancora nesse tipo de disposição moral, mas ainda tem seus princípios informados pela conduta heteronormativa que é parâmetro de suas condutas, reafirmada pela posição de marido e desejada também pelas monas. Se ele já não pode contar com o crime para se tornar um sujeito moral, é no papel de marido que a sua posição de homem se ancora. Pelúcio (2006) ao tratar dos casamentos de travestis, demonstra que a visão do homem como “provedor” persiste mesmo quando ele é sustentado pela parceira. Em sua descrição, Sabrina, uma travesti que se prostitui, “sustenta” seu marido, mas ainda assim sua contribuição orçamentária é vista como uma “ajuda”, e Duda, outra travesti com quem conversa, trata de associar essa situação ao papel de “provedor” do marido. (id: 528). Para a