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A “Anti-Geopolítica” parte das histórias de resistência que podem ser caracterizadas como a “geopolítica a partir da baixo” porque emanam de posições subalternas nas sociedades, isto é, dominadas e que desafiam a hegemonia militar, política, económica e cultural do Estado e suas elites em resultado de determinadas “práticas geopolíticas” (Routledge, 2006: 233). Como notou Foucault (1980: 142) «não há relações de poder sem resistências… tal como o

poder, a resistência é múltipla e pode ser integrada nas estratégias globais». A anti-

geopolítica engloba, por isso, uma miríade de perspectivas cujo traço comum é partirem das posições de resistência ao exercício do poder por alegada imposição: elas desafiam os poderes dominantes, articulam a resistência à força coerciva dos Estados – interna e externamente – e discutem o consentimento popular regulado/imposto “por cima”. A anti- geopolítica articula ainda duas formas de luta contra-hegemónicas: por um lado, contesta o “poder geopolítico material” (económico e militar) dos Estados e das instituições globais e, por outro, desafia as “representações” impostas pelas elites políticas sobre o mundo e os seus diferentes povos que seriam destinados a servir aqueles interesses geopolíticos (Routledge, 2006: 233).

A anti-geopolítica pode assumir também múltiplas formas de resistência, desde os discursos de oposição por dissidentes intelectuais até à insurreição armada ou terrorismo, passando pela implementação de estratégias e tácticas de agitação de movimentos sociais. Paralelamente, envolve “resistências” que visam objectivos e práticas completamente díspares, desde as lutas anti-coloniais ao não-alinhamento com as grandes potências, passando pela contestação da globalização económica, a reivindicação de direitos sociais ou políticos para certas populações e/ou géneros, a luta contra a expansão de organizações como a NATO, a libertação da Palestina, do Tibete ou da Chechénia, a defesa dos direitos

acidentes geográficos; o núcleo geo-histórico, o núcleo geo-económico, a noção de “ecumene”; o princípio de desafio-resposta, estímulos e tendências; as regiões políticas, geopolíticas, estratégicas, geoestratégicas ou oceânicas; heartlands e “cinturas”; zonas fragmentadas ou instáveis e a noção de “perturbadores”; novo mundo, velho mundo, áreas de hegemonia, áreas de influência, áreas de decisão; isolacionismo, expansionismo, intervencionismo; as teses do poder marítimo, poder terrestre, poder aéreo, poderes conjugados ou poder nuclear; as escolas ou perspectivas geopolíticas alemã, francesa, anglo-saxónica, russa, brasileira, etc.; ou ainda abordagens cronológicas faseadas - percursores da geopolítica, geopolítica imperialista, geopolítica da Grande Guerra, factores geopolíticos entre as duas Guerras Mundiais, geopolítica da Guerra Fria; geopolítica do antagonismo Norte-Sul; geopolítica dos conflitos; geopolítica do Século XXI ou nova ordem geopolítica mundial, etc… A estes esquemas somam-se os epítetos temáticos como geopolítica da fome, geopolítica da paz, geopolítica do ambiente, geopolítica do petróleo, geopolítica da energia, geopolítica das desigualdades, geopolítica dos conflitos ou geopolítica do terror e ainda termos relacionados como geoeconomia, geo- terrorismo ou geo-ameaças, etc.

humanos, o perdão da dívida externa dos países mais pobres, a jihad contra os infiéis, etc. Ao abranger todas as formas de resistência, a anti-geopolítica inclui ainda as resistências às várias formas de dominação que ocorrem dentro das próprias organizações de resistência e exercidas pelas hierarquias e mecanismos de controlo, o silenciamento dos “desalinhados”, a chantagem e a extorsão, etc. (ibid.: 234). Por tudo isto, os editores de The Geopolitics

Reader, por exemplo, colocam no capítulo da “Anti-Geopolítica” textos tão distintos no seu

conteúdo e de autores tão distantes no seu pensamento como Edward Said, Frantz Fanon, George Konrad, Sub-Comandante Marcos, Osama Bin Laden, Gilbert Achar, Jennifer Hyndman e Arundhati Roy (ver Ó Tuathail, Dalby e Routledge, 2006: 249-284).

A “Nova Geopolítica” é defendida e divulgada na obra do General Pezarat Correia (2002: Volume I-Título IV; e 2008), com base em três pressupostos essenciais, assumidamente, por oposição ao que denomina “geopolítica clássica”. Primeiro, separa a geopolítica da geoestratégia: «só a abordagem da geopolítica numa perspectiva da nova geopolítica,

separando-a da geoestratégia e retirando-a da análise dos factores espaciais para servir o poder pressupondo a gestão da conflitualidade que a disputa pelo espaço contempla, permite inserir a problemática da paz no campo da geopolítica» (Correia, 2002: 291),

acrescentando mesmo mais tarde não aceitar «que a promiscuidade absoluta entre

geopolítica e geoestratégia conquiste estatuto académico» (Correia, 2008: 41-42). Em

segundo lugar, propõe «a inversão no relacionamento sujeito-objecto dos dois elementos

fundamentais da geopolítica, espaço e poder, ou, se preferirmos, geografia e política»

(2002: 99), ou seja, «no sentido de uma recolocação do poder, já não como objectivo em si,

mas como instrumento da gestão do espaço, para viabilizar uma vida melhor no planeta Terra, corrigindo as distorções que estão na base de muita da conflitualidade» (ibid.: 291).

Consequentemente, e em terceiro lugar, Pezarat Correia avança uma nova agenda para a geopolítica, distinguindo três dimensões: a “ecopolítica”, ligada ao problema ambiental/ecológico, tratando-se «de uma análise do poder ao serviço da geografia

predominantemente física» (ibid.: 248); a “demopolítica”, que tem como objecto o fenómeno

demográfico, nas suas várias vertentes, isto é, «a área da análise da gestão do poder ao

serviço da geografia humana» (ibid.: 248); e a “geoeconomia”, tendo como principal objecto

a economia e que «deve ser entendida como a política orientada para intervir na resolução

de problemas espaciais associados à economia, gestão de recursos, de fluxos, de resposta equilibrada às necessidades humanas» (ibid.: 281). Assim sendo, como assume o próprio

autor, «esta nova forma de encarar a geopolítica tem correspondência com as

preocupações em torno do novo conceito de segurança…e que se preocupa com o aspecto mais geral dos riscos e já não apenas com ameaças. A segurança já não é apenas a segurança estatal, mas a segurança do meio, humano e ambiental» (ibid.: 249).

Reconhecendo a pertinência do contributo de Pezarat Correia com a sua “Nova Geopolítica” impõem-se, ainda assim, duas reflexões. A primeira é que as dimensões propostas são há muito referenciadas na geopolítica, incluindo por autores da “geopolítica clássica”, praticamente desde a sua emergência como domínio científico autónomo. O próprio “pai“ do neologismo “geopolítica”, R. Kjellen, por exemplo, para analisar o “Estado total”, considerava cinco dimensões, «manifestações desiguais de uma única vida – cinco elementos da mesma

força, cinco dedos de uma mão que trabalham na paz e combatem na guerra» (cit. in

Almeida, 1990: 113), sustentando que cada uma delas deveria merecer um estudo próprio e apropriado: assim, Kjellen denominou de Etnopolítica ou Demopolítica os estudos relacionados com a demografia, população e cultura; de Sociopolítica os estudos incidindo sobre os factores sociais, a composição e estrutura social; de Cratopolítica os estudos visando o sistema integrador de interesses e as instituições e formas de exercício do poder; de Ecopolítica os estudos englobando o património natural e a riqueza disponível ou a produzir e de que a comunidade poderia dispor; e de Geopolítica - considerada por Kjellen o centro de gravidade do sistema por ser o elemento integrador de todas as dimensões do Estado – os estudos referentes aos factores geográficos, nomeadamente, o território e à sua relação com a vida e o modo de ser e a evolução do Estado (ver Almeida, 1990: 113; Correia, 2002: 134-135; e Dias, 2005: 78-79). De resto, as preocupações da agenda da “nova geopolítica” são, de uma forma ou de outra, directa ou indirectamente, referências habituais numa série de perspectivas de outros domínios científicos relacionados - da geografia humana e da economia à sociologia e às relações internacionais -, bem como de muitos autores “clássicos”, desde os chamados “precursores” da geopolítica (de Hipócrates a Réclus) até autênticos geopolíticos como Josué de Castro ou Yves Lacoste, entre muitos outros.

A segunda reflexão é que, mais do que uma definição ou caracterização da geopolítica, a “nova geopolítica” aponta, essencialmente, aquilo que deve ser uma agenda considerada positiva ou benéfica para a actuação no domínio da segurança e da paz propondo, enfim, aquilo para que se deve utilizar o poder, inserindo-se claramente na linha da chamada “cultura da paz”13.

Por seu turno, a “Geopolítica Crítica” é uma perspectiva desenvolvida dentro da geografia política e das relações internacionais desde o início dos anos 1980 nos Estados Unidos, em larga medida, como resposta à linha de pensamento predominante que tendia a associar a geopolítica à perspectiva realista das relações internacionais (e à realpolitik, em particular) e dos estudos de segurança, nomeadamente, nas teses emanadas por influntes “políticos pensadores” como Dean Acheson, George Kennan, Henry Kissinger ou Zbigniew Brzezinski.

Caracterizando a geopolítica crítica, Ó Tuathail (2006: 5) afirma que «a primeira reflexão

destas “movimentações intelectuais” é sobre como a geopolítica funciona, a segunda é sobre aquilo que definimos por geopolítica e a terceira refere-se às estruturas de poder que promovem certos discursos geopolíticos em detrimento de outros».

Três aspectos essenciais e inter-relacionados podem ser associados à geopolítica crítica. Primeiro, pretende ir muito além do discurso realista das relações internacionais e dos estudos de segurança, rejeitando a lógica geopolítica convencional estato-cêntrica e relevando o papel das culturas nas diferentes formas de percepcionar e construir o mundo, assumindo que o discurso não é um instrumento neutral que descreve objectos que já existem no mundo mas que envolve também o reconhecimento e a constituição desses objectos e imagens, num processo que Spivak apelida de “worlding”. Ou seja, entende que a forma «como as pessoas sabem, categorizam e dão sentido à política mundial é uma prática

cultural interpretativa. Entender este processo requer estudar a geopolítica enquanto discurso, bem como o contexto cultural que lhe dá o respectivo significado» (ibid.: 7).

Em segundo lugar, parte do pressuposto de que o estudo da geopolítica deve ser muito mais complexo e profundo do que apenas o levantamento das concepções dos líderes/elites políticos ou as ideias dos “grandes homens”, devendo analisar-se o caldo cultural donde resultam certas percepções e discursos. Por isso, a geopolítica crítica introduz as noções de “cultura geopolítica” - que se interliga com uma série de outros termos e que «emerge do

encontro de um Estado com o mundo. Ela é condicionada por uma série de factores: a localização geográfica do Estado, a formação histórica e a organização burocrática, os discursos de identidade nacional e as tradições de teorização do seu relacionamento com o mundo mais vastoe as redes de poder que operam dentro do Estado» (ibid.) – e de

“interpretação cultural”. Das culturas geopolíticas emergem as “imaginações geopolíticas” (elaboradas sobre como os Estados se comportam culturalmente no mundo) e ainda as “tradições geopolíticas”, isto é, escolas particulares de pensamento sobre a política externa e de segurança de um Estado, com variações também dentro de cada Estado14. A geopolítica encontra, então, expressão concreta na forma de discursos particulares ou narrativas da política mundial que são produzidos não apenas por wise man mas que derivam de múltiplos inputs da sociedade. Desta forma, a geopolítica crítica distingue entre três tipos diferentes de discursos geopolíticos: a geopolítica “formal”, respeitante a teorias e

14 Por exemplo, Graham Smith (1999) argumenta que existem três tradições geopolíticas na Rússia:

Ocidentalismo, Eurasianismo e ponte entre Ocidente e Oriente, Europa e Ásia; W. R. Mead (2002) descreve quatro escolas distintas sobre a política externa americana que ele identifica a partir do nome de Presidentes americanos: Wilsoniana, Hamiltoniana, Jeffersoniana e Jacksoniana; e T. G. Ash (2004) identifica quatro diferentes faces do Reino Unido Contemporâneo – ilha mundo (pequena Inglaterra), mundo ilha (Grã-Bretanha cosmopolita), Grã-Bretanha Europeia (membro activo da UE) e Grã Bretanha Americana (relacionamento “especial” com os EUA), sendo que a visão de Tony Blair de colocar a Grã-Bretanha como ponte entre a Europa e a América poderia constituir uma quinta face que Ash chama de “Blair Bridge Project”.

visões elaboradas pelos intelectuais nas Universidades, Academias Militares ou think tanks; a geopolítica “prática”, envolvendo narrativas usadas pelos dirigentes políticos no exercício prático da política externa e de segurança; e a geopolítica “popular” ou “informal”, concernente a narrativas da política mundial que encontram expressão na cultura popular do Estado, no seu cinema, revistas e literatura, sendo que esta promove comunhões geopolíticas entre a classe política e o povo. Todos estes géneros de narrativa geopolítica são produtos de culturas, imaginações e tradições prevalecentes.

Em terceiro lugar, a geopolítica crítica procura a contextualização dos discursos geopolíticos nas redes de poder internas do Estado. O pressuposto é que as concepções convencionais de geopolítica, além de se relacionarem com as disputas entre os Estados, também «são o

reflexo das estruturas sociais de poder dentro dos Estados e de como estas afectam o próprio discurso geopolítico. Temos de reconhecer que nem todos os discursos geopolíticos são criados ou tratados da mesma forma» (Ó Tuathail, 2006: 9). Ou seja, os discursos

geopolíticos espelham muitas vezes os interesses e a competição entre estes existentes numa sociedade, pelo que as ideias predominantes podem derivar, essencialmente, da capacidade/habilidade e/ou do financiamento por parte das corporações e redes de interesses mais poderosas.

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