5 Research contribution, implications and further research
5.4 Practical and theoretical implications
5.4.1 Recommendations
Ao discorrer sobre escolhas e motivações profissionais me remeto ao papel social que desempenhamos por meio do trabalho como um dos aspectos mais importantes que envolve nossa vida cotidiana. Percebo, contudo, que obter a carreira profissional, ou seja, chegar a essa forma de ação social é o objetivo maior de quem quer entrar para o mundo do trabalho. Assim, a escolha profissional assume uma grande relevância tanto no plano individual, quanto no meio em que o indivíduo está inserido, já que envolve as futuras ações como profissionais e a definição de uma das formas de ser e agir socialmente.
Diante disto, os estudantes de Ensino Médio geralmente terminam esse nível de ensino com grandes incertezas sobre o futuro profissional e ainda sobre o que devem fazer em suas vidas diante dos contextos sociais em que estão inseridos. Embora exista de forma geral certo otimismo sobre como desejam ser profissionalmente, a falta de conhecimento sobre os cursos, a carreira, a vida econômica e social, as necessidades vividas, bem como as possíveis soluções que a profissão possa trazer, são fatores que geram conflitos no momento de optar pela carreira que se pretende construir.
Isso pode ser observado a partir do que falam a maioria dos entrevistados sobre a escolha da profissão de formação inicial. O desconhecimento sobre o curso e como o profissional formado age no mundo do trabalho é evidente no processo de decidir sobre o curso de graduação, como pode ser explicado por Henrique, um dos docentes entrevistados: “quando terminamos o segundo grau, não temos muita clareza do que são os cursos ofertados”. Luiz, outro participante da pesquisa, também explica que escolheu “[...] economia, porque achava bonito na época, mas não tinha noção certa sobre isso”.
Neste capitulo discuto sobre as relações em rede de interdependências (ELIAS, 1998) em que os bacharéis estavam envolvidos no processo de escolha profissionais, e as motivações por eles explicitadas sobre seus interesses nas escolhas do curso de graduação. Embora não tenha a intenção de ampliar uma discussão sobre escolhas profissionais, procuro
no segundo momento deste capítulo compreender como esses bacharéis tornaram-se professores.
Considero que dessa trajetória de formação e exercício profissional decorre o reconhecimento de que nossas vidas e nossas ações estão interligadas aos contextos históricos, sociais, econômicos, políticos, familiares, dentre outros (ELIAS, 1998). Seja qual for a dimensão que nos envolve em um determinado contexto, somos direcionados a escolhermos os caminhos que percorrermos, e dentre esses muitos caminhos encontram-se as nossas decisões profissionais.
Ao discutir sobre a escolha profissional, posso defini-la como o estabelecimento do que fazer, de quem ser e a que lugar pertencer no mundo através do trabalho (BOHOSLAVSKY, 1987). Considero que essa é uma das dúvidas que antecedem o momento de prestar exames seletivos, como por exemplo, o vestibular. Durante a juventude essa é uma questão que permeia os discursos familiares e escolares que visam procurar imprimir no jovem a necessidade de se inserir no mundo do trabalho.
A escolha profissional, nessa perspectiva, é um processo complexo de tomada de decisão, pois corresponde geralmente a um período de transição que se integra ao desenvolvimento da fase adulta. Nesse processo de escolha, estão envolvidas negociações entre as necessidades internas ou individuais (identificações, aptidões, estilos de vida, valores) e as necessidades externas, que envolvem muitas vezes a família, opiniões de terceiros, necessidade de empregabilidade, cursos disponíveis no local onde se está inserido, dentre os vários aspectos que se sobrepõem muitas vezes aos desejos ou identificações profissionais (PRIMI, 2000).
Isso pode ser percebido quando Flávia explica que “muitas vezes escolhemos o curso que pode dar continuidade ao trabalho de nossa família”. Mesmo sem o desejo de ser médica, como seus pais e irmã, ela presta vestibular para medicina na UFRN — local onde seus pais desejavam que se formasse — e também se inscreve para o curso de Direito em uma instituição privada de Ensino Superior, curso do seu desejo profissional.
Essa afirmação de Flávia é um dos exemplos que me conduz à percepção de que existe um conflito vivido pelos sujeitos, quando estes percebem motivações que não estão facilmente integradas aos papéis profissionais que sonham, ou visualizam desempenhar, o que pode, então, de acordo com Primi (2000) dificultar a construção da identidade profissional ou
desenvolver o que ele denomina por identidade difusa ou conflituosa, podendo ter consequências na forma como agirão profissionalmente. A identidade profissional difusa corresponde à dificuldade de sentir-se pertencente à profissão, dificuldade associada à falta de clareza sobre si mesmo, o que levaria a pessoa a perceber certa insegurança ao decidir sobre questões profissionais.
A escolha profissional pode ser considerada como multifatorial (AMARAL, 2003), sendo influenciada por aspectos políticos, econômicos, sociais, educacionais, familiares, psicológicos, dentre outros que permeiam a vida de cada pessoa. Além disso, é importante ressaltar que nas diferentes culturas existem muitas ofertas, tanto no mundo do trabalho, quanto no dos estudos, que caracterizam um momento histórico em que os sujeitos, condicionados muitas vezes por condições socioeconômicas, têm de eleger sobre o objeto que mais pode satisfazer suas motivações.
Ao decidir sobre um curso de graduação, a escolha estará permeada por um processo maior, que são as motivações de carreira e desenvolvimento profissional. Esse desenvolvimento ocorre em um processo que se dá por etapas e está relacionado aos fatores pessoais, ambientais, de consciência sobre a atividade e das preferências, interesses e valores, pois como afirma Primi (2000, p.4): “no momento da escolha profissional a pessoa, em certo sentido, busca por ambientes os quais são congruentes com suas orientações pessoais”.
A motivação sobre a qual discorro pode ser entendida, de acordo com Amaral (2003), como “uma condição interna relativamente duradoura que leva o indivíduo, ou que o predispõe, a persistir num comportamento orientado para um objetivo, possibilitando a transformação ou a permanência da situação”. Assim, a motivação surge por intermédio das necessidades psicológicas e fisiológicas que surgem em certos momentos de nossas vidas, e que representam a diferença percebida entre o estado atual e o ideal.
Portanto, as redes de interdependências que permeiam a própria vida dos indivíduos e suas necessidades fisiológicas, psicológicas e sociais são desse modo, fatores de grande influência nos momentos de decisão. Posso citar como exemplo, o que explica Lia quanto às motivações presentes em sua opção pelo curso de Serviço Social: “Tive um problema na minha vida particular, que na verdade foi o grande empurrão”. A professora que inicialmente cursava Ciências Contábeis e já trabalhava em um escritório na área, deixou o curso e o emprego durante sua gestação pelo seguinte motivo: “naquele tempo, a visão conservadora
para ser mãe”. Desistindo do curso de contábeis e do emprego para se dedicar à vida familiar, a professora perde seu filho logo após o nascimento. Diante desse contexto vivido por ela, Lia passou a se questionar: “Bom, eu pedi demissão do emprego, por que queria cuidar só do meu filho, não o tenho mais, então o que vou fazer agora?”.
Diante da angústia por ela vivenciada e com o interesse de dar continuidade a sua vida