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O elevado crescimento econômico que a atividade turística vem proporcionando em seus destinos acarreta impactos positivos como também impactos negativos. Atualmente, não deixa de gerar surpresa o elevado nível de rendimento por habitante que auferem as regiões, cuja especialização é a atividade turística, destacando-se das outras atividades produtivas (MUÑOZ, 1996).

Infelizmente não se pode afirmar que essa situação apontada pelos autor acima seja a que Barra Grande vive. Apesar da pesca ser, até pouco tempo atrás, a principal atividade produtiva local, o turismo já está sendo reconhecido e encarado como o principal setor produtivo para a região, porém seus efeitos sobre a economia local ainda não tem sido constatado.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Turismo - EMBRATUR (1996), na perspectiva econômica o turismo pode trazer os seguintes benefícios: geração de empregos; geração de rendas; aumento de divisas em moeda estrangeira; aumento da arrecadação de impostos; criação e desenvolvimento de empresas; descentralização de riquezas; diversificação da economia; maior distribuição e circulação de renda; aumento da renda per capita; expansão das oportunidades locais e atração de investimentos diversificados.

O que ocorre é que em algumas localidades, como é o caso de Barra Grande, os empregos tem sido gerados de forma desigual, pois, pessoas de outras cidades próximas, como Luís Correia e Parnaíba, que possuem um melhor nível de qualificação, são contratadas para atuar nas funções gerenciais dos empreendimentos turísticos de Barra Grande, que são as de melhor remuneração, restando para a população local os cargos operacionais, cujos salários são bem inferiores. Esse processo provoca danos na autoestima dos moradores, que se percebem como inferiores, e que limita e até impede o

seu crescimento profissional, conforme comprovaremos posteriormente através das pesquisas e dos depoimentos coletados.

Como aspectos negativos, o Programa das Nações Unidas para o Ambiente salienta os seguintes impactos: o turismo acarreta diversos custos, que podem ter consequências nefastas para os países de origem; no entanto os países desenvolvidos têm maior capacidade de se beneficiar com o turismo do que os países em desenvolvimento; nos pacotes de viagens turísticas do tipo “tudo incluído”, cerca de 80% dos gastos dos turistas e visitantes destinam-se às companhias aéreas, hotéis, entre outras companhias internacionais, que têm as suas sedes nos países de origem. Os trabalhadores e as companhias locais não se beneficiam com este tipo de pacote turístico que, por isso, não contribui para o desenvolvimento da economia do destino. Outra desvantagem deste tipo de viagem turística prende-se ao fato dos turistas permanecerem toda a sua estada no local de alojamento, como é o caso dos resorts, que dispõem de serviços completos, incluindo as visitas programadas, retirando qualquer possibilidade aos negócios locais.

O cenário acima descrito pelo estudo do UNEP (2000) muito se aproxima da realidade de Barra Grande, cujos turistas chegam e se isolam em um mundo particular e que é disponibilizado aos mesmos, com a oferta de todos os serviços de alojamento, alimentação e diversão concentrados em um único espaço, que é o do hotel ou da pousada em que estão hospedados. Essa realidade também é muito comum em outros destinos litorâneos do Nordeste, como Costa do Sauípe (BA), Camocim (CE), Jericoacoara (CE), Pipa (RN), cujos resorts, quase sempre, constituem o único espaço freqüentado pelo turista, portanto, sem contato com a comunidade local.

Desta forma, o acesso e o contato com moradores da região torna-se praticamente inexistente, o que constitui uma grande perda para ambos, pois as trocas culturais não acontecem, e a localidade deixa de ganhar com a presença de visitantes que estão utilizando o seu território. Tampouco contribuem para dinamizar a economia local, através da compra de artesanato produzido na região, ou ainda consumindo uma comida típica local, diferente do cardápio servido nos hotéis, como será visto mais adiante.

Outros impactos negativos advêm do desenvolvimento de infraestruturas que são essenciais para a atividade turística, mas que acarretam grandes custos para os governos locais, como é o caso da construção de aeroportos, dos acessos e de outras

infraestruturas, como a construção de pousadas e hotéis à beira mar. Por vezes, as receitas fiscais também são penalizadas, devido aos benefícios financeiros, nomeadamente a redução dos impostos, que se traduzem em custos para os governos locais. O último impacto econômico negativo refere-se à elevação dos preços nas zonas turísticas e nas épocas de maior afluência, que afeta o custo de vida dos residentes (UNEP, 2000).

Archer e Cooper (1998, p.92) destacam que:

O turismo parece ser bem mais eficiente do que outras indústrias para gerar emprego e renda nas regiões menos desenvolvidas, onde as oportunidades de desenvolvimento são mais limitadas. Na verdade é nessas áreas onde o turismo pode ter o seu impacto mais significativo. Em tais lugares uma grande parte da população vive da agricultura de subsistência ou são pescadores, e, quando se envolvem na indústria do turismo sua renda familiar sofre um acréscimo bastante grande em termos relativos.

A percepção dos autores é muito otimista quanto ao turismo, o que está fora da realidade de Barra Grande, pois, de acordo com muitos depoimentos dos moradores que serão apresentados à frente, não houve acréscimo de renda e sim, uma relativa perda para o principal setor produtivo até então, a atividade pesqueira. Os pescadores alegam que o peixe que ainda se consegue pescar em Barra Grande só tem servido como alimento doméstico, porque os principais hotéis e pousadas da localidade não o consomem, haja vista que os donos desses empreendimentos buscam parcerias com empresas que fornecem peixes vindos do Estado do Ceará. Com essa situação, não perdem somente os pescadores, mas toda a localidade de Barra Grande, que deixa de ganhar, de produzir e de gerar empregos.

Entretanto, infelizmente, assim como acontece em Barra Grande, em muitos destinos, a população local ainda recebe poucos benefícios diretos dessas melhorias. Isso é essencialmente um problema de distribuição física e econômica, isto é, da extensão da velocidade com que essas facilidades devem ocorrer, como diz o pescador F. S., 57 anos, que há mais de 40 anos atua na atividade pesqueira em Barra Grande:

Qual hotel que vai pagar a carteira de alguém aí, pagar os direitos que a pessoa tem? Ninguém ta se beneficiando com essas visitações. Quem mais se beneficia são os donos das mais altas pousadas, o dinheiro que

aqui entra lá fica e de lá não sai, nem na mão dos habitantes e nem dos comerciantes.

Essa situação relatada pelo pescador local é preocupante porque mostra o tamanho dos problemas que eles estão vivenciando: em um primeiro cenário, o peixe tem sumido em função do kitesurf; em um segundo cenário, não há incentivo à produção pesqueira e ao consumo por parte das empresas turísticas locais e; em um terceiro cenário, as opções de emprego que se apresentam na maior parte das vezes, como apontam, são empregos que não contemplam as condições regulares e legais, o que os deixa sem ter acesso aos direitos que lhes cabem. Os pecadores, portanto, se vêem sem saída e sem alternativas para visualizar que o turismo trará melhorias para suas vidas, já que o que tem acontecido em Barra Grande prova o contrário.

Outra questão que o turismo envolve é que à medida que o turismo continua a crescer numa região suas exigências sobre os recursos escassos da área são cada vez maiores. É necessário, sobretudo, terra, e, consequentemente, o preço dela sobe. Os donos de terras locais são incentivados a vender sua propriedade, e o resultado é que, embora possam obter ganhos em curto prazo, no final a única coisa de que dispõem é de um trabalho de baixa remuneração.

Em Barra Grande, muitos moradores venderam suas casas e seus terrenos à beira mar a preços muito aquém do valor real cobrado pelo mercado. Na maioria das vezes, eles são ludibriados por grandes especuladores e investidores, que tomam-lhe seus espaços pagando mixarias, como será visto adiante.

Superficialmente, pelo menos, os benefícios econômicos do turismo parecem evidentes. Mas, nos últimos anos, muitos pesquisadores têm manifestado reservas quanto à natureza e o montante dos benefícios atribuíveis ao turismo, e têm se tornado crescentemente céticos quanto às potencialidades do turismo como uma ferramenta para o desenvolvimento, o crescimento e como um meio de maximizar o bem-estar da população nativa.

O que se discute é essencialmente a alocação de recursos e se o desenvolvimento do setor do turismo oferece ou não o uso ótimo dos recursos disponíveis – em outras palavras, uma avaliação dos custos e benefícios do desenvolvimento do turismo em relação às alternativas (ARCHER e COOPER, 1998).

Portanto, uma visão mais equilibrada dos efeitos econômicos do turismo requer uma compreensão mais profunda das questões humanas e sociais que cercam o impacto por ele causado. Isso exige o trabalho conjunto de economistas, sociólogos, cientistas políticos, antropólogos e outros.