Segundo Betiol (2000), nas grandes guerras mundiais que sacudiram e transformaram o século XX as mulheres tiveram uma grande mudança em seus papéis, viraram chefes de família, saindo de suas casas para ocupar postos de trabalho como condutoras de bondes, operárias de fábricas de munição e auxiliares no Exército. Elas, segundo Betiol (2000, p.2),
“Adquiriram mobilidade, mudaram os trajes, para roupas mais confortáveis, adquiriram,
principalmente, confiança em si próprias.”. Portanto, provando a sua capacidade de manusear vários instrumentos e ajudando a quebrar a barreira existente entre trabalhos masculinos e femininos. Após esse período começam a abrir posições no setor terciário da economia, como o comércio, os bancos e os serviços públicos, além dos autônomos.
Na sociedade contemporânea as mulheres vêm conquistando e ampliando espaço na esfera pública e privada, sobretudo no que se refere a acesso ao mercado de trabalho e nas representações políticas. O século XX viu surgir o movimento pela emancipação feminina e ocorreu de forma diversa no contexto nacional e mundial. Tal dinâmica aprofundou o debate sobre as questões do homem e da mulher na sociedade, sendo possível atestar que as diferenças vão além das biológicas entre os sexos, isto é, se pode dizer que existe uma ideia concebida socialmente sobre masculinidade e feminilidade. É nesse plano que surge o conceito de gênero, sugerindo que o vocábulo sexo seja apenas utilizado para se referir a diferenças biológicas entre homens e mulheres, e gênero quando se faz menção às estruturas sociais, psicológicas ou culturais que se colocam sobre essas diferenças biológicas (MACEDO; BOAVA; CAPELLE; OLIVEIRA, 2012).
Por toda a evolução das sociedades humanas as mulheres estiveram envolvidas por laços fortes e voltadas para a produção e gerenciamento dos bens e serviços das suas unidades familiares, protegidas por uma poderosa teia de relações familiares. Por sua vez, os homens ao se dedicarem a distintas funções externas, relacionadas aos negócios, a gestão do Estado, guerra, política, ciência e arte, tornaram-se capazes de formar redes mais abertas e providas de laços fracos (VALE; SERAFIM; TEODÓSIO, 2011).
Para Macedo, Boava, Capelle e Oliveira (2012, p. 220):
[...] o trabalho feminino não alcançou a igualdade de gênero por completo, o patriarcado permanece sob o paradigma androcêntrico, ou seja, todos os acontecimentos continuam centrados na figura masculina.
Neste contexto, segundo Macedo, Boava, Capelle e Oliveira (2012, p. 220) o progresso das mulheres no que diz respeito ao mercado de trabalho é lenta, pois não consegue quebrar “os aspectos que fundamentam o patriarcado”. Entre esses fatores os autores apontam com destaque a divisão sexual do trabalho que de certa forma justifica socialmente o que os homens e as mulheres executam como tarefas. A existência de um teto de vidro sutil e transparente atua como uma barreira, impossibilitando a ascensão profissional das mulheres aos cargos mais altos, revelando-se como um marcador das desigualdades de gênero.
O estudo realizado por Macedo, Boava, Capelle e Oliveira (2012) sobre relações de gênero e subjetividade em uma empresa de mineração revelou que as mulheres são aceitas pelos homens se realizarem os trabalhos mais leves com seriedade, isto é, a elas cabem realizar os trabalhos secundários, porém com estilo masculino. Ainda que as mulheres ocupem os mesmos cargos que os homens, ocorre uma forma de dominação sob o pretexto da força física. Os homens não enxergam a existência da discriminação de gênero, uma vez que a mulher está ao seu lado realizando a mesma função. A discriminação é disfarçada pela presença de mulheres, sob o argumento de que elas estão em todos os setores da mineração. No entanto, não é mencionado o fato de que as mulheres estão em número inferior, pois estas estão bem distribuídas em todos os setores, dando a impressão da adoção de uma política afirmativa de valorização dos dois sexos.
Para Betiol (2000, p.3), apesar das organizações atuais permitirem o acesso de mulheres aos postos de comando o choque entre os universos masculino e feminino está longe de terminar, pois a lógica subjacente do mundo dos negócios é “calcada em “valores masculinos” e tal lógica continua ainda a ser um obstáculo para a ascensão das mulheres.”
Para Alcadipani e Tonelli (2009, p. 5):
A dominação masculina se exerce, portanto, em estruturas sociais, no exercício do habitus, em micro-atividades, na linguagem, de modo sutil, tanto nas atividades de trabalho como nas relações de reprodução. Tal dominação estaria calcada na ameaça da possibilidade do exercício da violência. Ou seja, a dominação está calcada na presença de uma violência sutil, quase imperceptível, que se manifesta, assim, como constante ameaça. A matriz androcêntrica está presente na forma de perceber, de pensar e de agir das práticas cotidianas, vistas como senso comum, pois já incorporam as relações de poder e de dominação.
Já para Irigaray e Vergara (2009):
[...] o princípio da inferioridade e da exclusão da mulher, ratificado e ampliado por meio do sistema mítico-ritual da sociedade, é a dissimetria fundamental instaurada entre o homem e a mulher no terreno das trocas simbólicas, das relações de produção e reprodução do capital simbólico, cujo dispositivo central é o mercado matrimonial, base de toda a ordem social: as mulheres só podem ser vistas como objetos, símbolos, cujo sentido constitui-se fora delas e cuja função é contribuir para a perpetuação ou o aumento do capital simbólico androcêntrico (Bourdieu, 2007), assim, o lar passa a ser o antípoda do trabalho (Tonelli, 2001).
Segundo Lee (2012), dadas as persistentes desigualdades de gêneros no mercado de trabalho, pode parecer paradoxal que as mulheres sejam ao mesmo tempo mais satisfeitas com o seu trabalho e propensas a trocá-lo voluntariamente. Segundo o autor, se as mulheres mostram-se mais satisfeitas com o seu emprego do que os homens, embora recebam menores salários e trabalhem em piores condições, pode ser esta uma das causas principais para as desigualdades de gênero do mercado de trabalho.
Para Cacciamali (2012), em estudo feito sobre a discriminação salarial das mulheres que possuem ensino superior no Brasil e no México revela que a participação feminina no mercado de trabalho cresce nos dois países, embora não se observe uma grande presença nos cargos mais altos da hierarquia e postos de decisão, tão pouco uma grande mudança na redução das desigualdades salariais. Desta forma, o que se observa são mudanças incrementais e não estruturais, nas oportunidades de participação econômica das mulheres nessas sociedades.
Segundo Cramer, Capelle, Andrade e Brito (2012, p. 54), no encaminhamento do processo de construção da sua nova identidade na sociedade as mulheres buscam
“desconstruir estereótipos sociais e culturais”, longamente forjados no tecido da sociedade,
no intuito de vencer os obstáculos, sobretudo de ordem psicológica, ainda remanescente, mostrando serem os mais difíceis de serem ultrapassados. As mulheres são colocadas diante do desafio de desenvolverem habilidades opostas, como sensibilidade e frieza. Além disso, criam um sentimento de culpa nutrido por suas famílias e por elas próprias, tendo em vista a necessidade de abrir mão do tempo de convívio e de suas tarefas de mãe e esposa.
Assim, verifica-se que o papel da mulher está sendo redefinido na sociedade, tendo em vista todas as transformações verificadas, sobretudo após a segunda metade do século XX. As questões colocadas no debate sobre este tema dizem respeito à necessidade de superar barreiras psicológicas construídas e alimentadas no tecido social para o enquadramento das mulheres em um papel de coadjuvante. O androcentrismo e o paternalismo ainda são os traços dominantes da sociedade moderna. Os valores do mundo dos negócios seguem a lógica masculina e as mulheres são cobradas a conciliarem os seus papeis de mãe, esposa e trabalhadoras. Na próxima seção serão abordados os aspectos peculiares do trabalho em ambiente confinado, que requer ainda mais sacrifício para as mulheres.