Segundo Wolfgang Iser (1983), a oposição entre ficção e realidade faz parte de um repertório elementar de nosso ―saber tácito‖, concebido a partir da visão de que todos os textos literários são de natureza ficcional. Esse saber, no entanto, aparentemente óbvio, torna-se discutível devido à dificuldade em se estabelecer essa distinção, uma vez que os textos ficcionais não renunciam por completo à realidade, e desse modo, há mais que uma relação de oposição entre ficção e realidade, que pode ser substituída por uma relação tríplice.
Como o texto ficcional contém elementos do real, sem que se esgote na descrição deste real, então o seu componente fictício não tem o caráter de uma finalidade em si mesma, mas é, enquanto fingida, a preparação de um imaginário. (ISER, 1983, p. 385).
Iser busca substituir a relação opositiva entre ficção e realidade por uma relação tríade entre real, ficcional e imaginário. Para tal, o autor introduz assim a noção de ‗atos de fingir‘. Segundo Iser, ―se o texto ficcional se refere à realidade sem se esgotar nessa referência, então a repetição é um ato de fingir‖ (1983, p. 385) que dá origem a um imaginário relacionado à realidade repetida. De modo mais exato, ele afirma que:
o ato de fingir ganha a sua marca própria, que é a de provocar a repetição no texto da realidade vivencial, por esta repetição atribuindo uma configuração
ao imaginário, pela qual a realidade repetida se transforma em signo e o imaginário em efeito do que é assim referido. (ISER, 1983, p.385).
O ato de fingir pode ser considerado como uma transgressão de limites, uma vez que nele ocorre uma transgressão das determinações de real e imaginário. Ocorre a conversão da realidade em forma de irrealização, e ao contrário, o imaginário perde seu caráter difuso e assume uma determinação que sucede em uma realização do imaginário. Decorre disso que no texto ficcional o tido ―mundo real‖ se irrealiza, adquirindo estatuto de projeções, fantasmas. O universo vivencial é deformado em meio à narrativa, criando um mundo de ideações graças ao fingimento. Segundo o postulado de Iser, a ficção literária tem a capacidade de encenar o ausente pelo sujeito em seu cotidiano:
o texto ficcional contém muitos fragmentos identificáveis da realidade, que, através da seleção, são retirados tanto do contexto sócio-cultural, quanto da literatura prévia ao texto. Assim retorna ao texto ficcional uma realidade de todo reconhecível, posta entretanto agora sob o signo do fingimento. Por conseguinte, este mundo representado não é o mundo dado, mas que deve ser apenas entendido como se o fosse. Assim se revela uma consequência importante do desnudamento da ficção. Pelo reconhecimento do fingir, todo o mundo organizado do texto literário se transforma em um como se. (ISER, 1983, p.400).
Pelo conceito de como se postulado por Iser evidencia-se a articulação dos três elementos dados pelo autor - real, ficcional e imaginário - dentro do universo da ficção. Ele torna capaz entender que alguns traços de realidade aparecem na ficção, fazendo com que seja sentida pelo leitor como verdade, idêntica à vivida, mas a mesma não o pode ser, pois se refere a um passado pré-dado, impossível desse modo de retornar. A ficção é uma encenação do ausente, um ‗ato de fingir‘. Na ficção a realidade é representada, não podendo ser tomada como tal, mas servindo à referência de algo representável por ela.
Diante disso, pela proximidade entre ―real‖ e ficcional, percebemos como relato de experiência o romance Os novos, que se apresenta como balanço das ações dos personagens e nos permite criar analogias com a história de vida dos escritores da
A noção dos atos de fingir cria um elo com as proposições de Philippe Lejeune (2008) sobre o pacto fantasmático ou também pacto referencial, já que concedem a ficção como a encenação da realidade, deixando escapar traços de fatos, que, tidos pelo leitor como idênticos aos fatos vividos pelo autor, culminam em uma ilusão de recepção, em que o leitor acredita que a ficção expressa o eu profundo do autor.
O como se explica em grande parte o problema até agora visto. Podemos com ele estabelecer uma nova dimensão para a relação entre ficção e realidade, desfazendo a usual concepção de oposição entre ambos. No contexto do romance Os Novos temos que, a realidade vivida pelo autor é re(criada), encenada na ficção. De modo que como (re) criação, ela é fingida. Muito embora a encenação faça com que a realidade apareça no texto, ela não é a mesma experimentada, vivida, mas é fruto da imaginação, recriação ou reelaboração.
O texto é um espaço de trânsito entre os saberes, sem um sentido esgotado e único. Como espaço das subjetividades, na ficção acontece em seu território constate reflexão e crítica sobre seus processos de construção e reconstrução do sujeito. O leitor nisso exerce papel fundamental, ao estabelecer possibilidades diferenciadas de leitura ao texto. Em Os Novos, ao se confrontar os campos da realidade e da invenção, se revela um universo ficcional diluído, composto por ficção e pelo factual, pela mistura entre o que parece ser a história de um grupo de escritores em busca de um espaço para concretizarem seu sonho de ser escritores e pela lembrança de Luiz Vilela da experiência vivenciada junto aos seus amigos no início da carreira como escritores em Minas Gerais.
A aproximação do romance com os acontecimentos vivenciados pelo autor mostra um processo de tematização da vida, do grupo do qual Luiz Vilela pertenceu. Essa especificidade é o que permite vislumbrar um romance de geração. Sua experiência é posta em jogo na ficção, através da (di)simulação. A obra é, pois, estruturada em torno de um desejo de memória, de representar um passado.