Chapter 6 CONCLUSIONS AND RECOMMENDATIONS
6.2 Recommendations for Further Work
Contamos histórias para tentar entrar em acordo com o mundo, para harmonizar nossas vidas com a realidade
(Joseph Campbell, 1990).
Consideramos que o ato de narrar é a forma fundamental para construir sentidos na identidade pessoal. Podemos então analisar como o Self articula sua ação no espaço, com sua constituição afetiva, numa situação particular, inserido em uma continuidade do tempo, percebendo-se como autor, dialogando com outros, numa multiplicidade de posições.
Nas ciências humanas, tem surgido um interesse nas narrativas como método de coleta de dados em diversas pesquisas. Esse interesse sugere a emergência de estudos investigativo- interpretativos das histórias de vida. A narrativa pode captar que significados as pessoas estão atribuindo a suas vidas e quais os diversos posicionamentos do self que a definem como identidades pessoais.
A origem do interesse pela narrativa nas ciências humanas parece ser a “descoberta”, na década de 1980, de que a forma de história, tanto oral quanto escrita, constitui um parâmetro linguístico, psicológico, cultural e filosófico fundamental para nossa tentativa de explicar a natureza e as condições de nossa existência (Bakhtin, 1981, 1986; Bauman, 1986; Britton & Pellegrini, 1990; Mitchell, 1981; Nelson, 1989; Ricoeur, 1981, 1984/1985; Sarbin, 1986; Schafer, 1989).
A narrativa pode ser analisada por meio de filmes, fotografias, livros, entrevistas etc. e é considerada por muitos autores, nas ciências humanas, como uma forma de verificação confiável numa pesquisa. Podemos, por intermédio da narrativa, focar como o passado pode se tornar presente e também como pode auxiliar os pesquisadores a rememorarem nossa história coletiva, buscando uma compreensão sobre a formação da identidade (Bakhurst, 2000).
Bruner (1997), que considera o estudo de autobiografias significativo como recurso metodológico na psicologia, conceitua narrativa como um conjunto de estruturas linguísticas e psicológicas transmitidas cultural e historicamente, delimitadas pelo nível do domínio de cada indivíduo e pela combinação de técnicas sociocomunicativas e habilidades linguísticas.
Para Bakhtin (2010), as narrativas são contextos utilizados, considerando que cada palavra inserida aí é sempre “polifônica”, e seu significado é determinado por incontáveis contextos. Bakhtin chamou isso de “princípio dialógico” do discurso, sua interindividualidade
inerente: cada palavra, enunciada ou narrada, carrega consigo os traços de todos os sujeitos, possíveis e reais, que já empregaram tal palavra.
A narrativa tende a dar sinais de uma memória como construção sobre o passado, atualizada e renovada no tempo presente. São instrumentos importantes de preservação e transmissão de heranças identitárias e tradições. De acordo com Costa e Botelho (2001), são modos de traduzir o social (citado em Delgado, 2006), eles descrevem o modo que devem ser vistas as narrativas:
Trata-se de imaginar a narrativa como esta linha que caminha para frente, mas que é capaz de aceitar reviravolta e interrupções. Uma linha que pode se desdobrar em três, quatro, dez quadros. Quadros com um desenvolvimento relativamente autônomo. Quadros que podem parar, recuar em relação à linha fundamental, e que se relacionam entre si, formando uma espécie de teia, capaz de enredar a narrativa (Araújo, 1998, p. 244, citado em Delgado, 2006, p. 42).
Polkinghorne (1988) conceituou narrativa como um sistema organizacional expresso em forma de história, um esquema fundamental para vincular as ações humanas individuais a eventos com aspectos inter-relacionados de um composto compreensível. Para ele, narrativas são vistas como: “A forma primária através da qual a experiência humana se torna significativa. O sentido narrativo é um processo cognitivo que organiza as experiências humanas em episódios temporariamente significativos” (Polkinghorne, 1988, p. 1).
Dito de outra forma, mas também complementando todas essas definições dos diferentes autores, Oliveira, Rego e Aquino (2006) expressam de que forma o sujeito constrói suas narrativas e essas mapeiam o desenvolvimento de seus membros:
Os sujeitos, ao narrarem sua própria história de vida, usam marcadores que identifiquem pontos de mutação em suas trajetórias de vida, os quais podem ser mais ou menos precisos, indicam normalmente momentos de tensão, contradição ou crise, e, além disso, evidenciam diferentes modos de viver em relação àquilo que é oferecido como possibilidade no mundo cultural: temas, recursos, procedimentos, argumentos, modelos, normas, valores, etc. (Oliveira, Rego & Aquino, 2006, p. 121).
A questão fundamental para se utilizar a narrativa na pesquisa em Psicologia Cultural é analisar como estas narrativas estabelecem conexões com o modo como a pessoa ou pessoas atuam, quais são as suas crenças, costumes, expectativas, quais os seus campos afetivos e motivacionais que evidenciam a sua cultura pessoal ou a sua identidade cultural, que significados vão dando aos signos coletivos.
A narrativa, dentro de uma entrevista semiestruturada para pesquisa, auxilia o narrador na sua organização interna ao contar a sua história e também ao pesquisador com sua interpretação e intuição a seguir co-construindo com o sujeito narrador. “A experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores” (Benjamin, 1940/1996, p. 198).
Na narrativa, podemos pensar em dimensões que alcancem uma periodização do desenvolvimento, como modos de inserção dos sujeitos em suas condições históricas de vida; pensar em discussões que podem surgir e enriquecer sobre a constituição entre cultura e modos de funcionamento psicológico e, ainda, focalizar os principais recursos nos modos de constituição do sujeito gerados na tensão presente na negociação entre sua cultura pessoal e a coletiva.
Os processos de linguagem e os processos mentais estão relacionados. Pela narrativa, é possível analisar como o indivíduo reconstrói a si mesmo buscando definir seu lugar social e suas relações com os outros (Pollak, 1989).
As narrativas operam como forma de mediação, em constante transformação entre o indivíduo e o padrão generalizado da cultura. Escolher a narrativa como método de análise sobre uma história de vida, ou em estudo de caso, pode ser uma confiável forma para se perceber o movimento contido numa temporalidade humana com sua particular abertura e plasticidade. “Nossa história pessoal são histórias de experiências vividas” (Bakhurst, 2000, p. 92).
PARTE II – A PESQUISA EMPÍRICA