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Fica evidente, no terceiro parágrafo do primeiro capítulo das aventuras, a réplica à crítica que faziam escritores que eram da mesma opinião de Monteiro Lobato, durante a primeira fase do Jeca Tatu: provando o contrario do que certos escritores asseveram, provando não ser vadio, diariamente lamenta a curteza do dia...

O termo em destaque faz menção ao discurso de Monteiro Lobato em Urupês que caracterizava o caipira justamente com esse termo: vadio. O sentido do discurso lobatiano sobre o caipira se funda no interdiscurso nacionalista/pessimismo determinista biológico, uma vez que o caipira é vadio e atrasa o progresso da nação e tal vadiagem justifica-se por sua miscigenação de nem branco, nem índio.

Assim, temos uma construção inicial do ethos caipira feita a partir da contraposição a um outro discurso, essa construção se baseia na desconstrução de estereótipos já lançados sobre homem do campo, sugerindo a ele um novo caráter. Isso nos faz repetir o dizer de Barthes (apud Maingueneau, 2008b:13) e relacionar à apresentação de Bentinho, ao apresenta-lo em oposição ao discurso lobatiano, o sujeito enunciador nos diz: eu sou isto aqui, não aquilo lá. Está instaurado, então, um caráter que somado a um tom e uma corporalidade assegurará a construção de um ethos caipira. O ethos do jeca corneliano é um homem bucólico, trabalhador e comunicativo com seus pares, nas horas vagas. Esse fiador nos é possível construir pelo seguinte excerto:

Excerto 19

Cada roceiro que chega do serviço, arria num canto o seu feixe de lenha, catada na tigüera onde há pouco existiam as roças que foram colhidas.

E a noite desce. Eis-nos, emfim, reunidos ao pé do fogo, contando histórias...

A cenografia criada, o uso da variante lingüística nos permite dizer que o homem é bucólico; os trechos sublinhados tornam possível a inferência de que se trata de sujeitos

trabalhadores; a parte negritada confirma o hábito de interagir a partir de histórias, o que nos permite dizer serem homens comunicativos.

Como vimos no início deste capítulo, o enunciador constrói uma cenografia em que o tempo é marcado pelo fogo constante no dia frio da fazenda. Há um tom de monótono de repetição, de mesmice. Sempre o fogo a arder, o trabalho na roça, a feitura das refeições e a roda, à noite, ao pé do fogo. Talvez esse ritmo lento, repetitivo é que tenha feito Lobato usar o termo modorra ao jeca passivo e acocorado.

A cenografia acrescenta ao caráter do personagem o ethos de mentiroso, mas num sentido daquele que mente para entreter, para passar o tempo, como arte de contar. Mente para criar histórias fantásticas que deverão ser contadas num tom de verdade e a tenta de dar verossimilhança ao fantástico é que produz o humor. Assim, o homem do campo é divertido e imaginativo. Ou, no dizer de Leite (1996:131), a quem fazemos coro:

...Joaquim Bentinho não deixa de ser cômico e pitoresco, a sua apresentação não é depreciativa, não visa a rebaixá-lo ou desdenhá-lo. Quem descreve o caricaturado identifica-se com ele, e visa despertar a simpatia e a solidariedade em que lê...

Provoca o riso de regozijo, gratuito e distensionador de ânimos; não visa ao riso como corretivo satírico. [destaques nossos]

Após dar indícios do caráter do caipira, a construção do ethos se volta para a corporalidade e a indumentária. Nesse ponto, Cornélio corrobora o modo de trajar-se dos tipos criados por Lobato e tal construção é reforçada por uma prática intersemiótica, a ilustração da contracapa, conforme imagem 01. Ativam-se, então, estereótipos que fazem links a mundo ético socialmente construído sobre a cultura caipira. A partir da cenografia

criada nos causos é mostrado outro ethos discursivo que, associados a um ethos prévio, permitem a construção do ethos discursivo efetivo do caipira.

No causo 1, nos é apresentado um caipira abandonado pela saúde pública, distante das condições básicas de saneamento. Esse sujeito se mostra pelo tom de desalento, sozinho, doente, desanimado com a vida, o que dá ao discurso um tom melancólico e de lentidão. É acrescentado a esse tom uma corporalidade, uma postura de quem está minguando. E mais por um código linguageiro que contribui para essa construção: um dia eu tava borrecido da vida, sentado no terreno, na pedra de afia... (...) Eu já num tinha mantimento em casa... Nesse ponto, Joaquim Bentinho converge com o Jeca Tatuzinho da segunda fase de Monteiro Lobato que, segundo Lajolo (1983:101) é:

Apresentado como vítima com a qual se solidariza o Lobato de agora: opilado pela verminose, fraco, anêmico, os males deste Jeca dos anos vinte não começam na preguiça nem na falta de disposição para o trabalho: a desnutrição e a precariedade de seu estado de saúde é que desembocam na pouca produtividade do camponês itinerante.

Não obstante o abandono, a doença, o caipira mostra-se como um sujeito forte, resistente às adversidades da vida no campo, capaz de fazer piada com a própria desgraça. A isotopia do causo 1 poderia ser resumida pela paráfrase do célebre frase de Euclides da Cunha: o caipira é, antes de tudo, um forte.

No causo da cirurgia plástica nos é mostrado um caipira sábio, detentor de um conhecimento não menos importante que do homem da cidade. Esse fiador é possível de ser mostrado para o destinatário a partir da digressão que há no causo, que o faz mostrar o conhecimento caboclo das espécies de abelhas, da fauna e da flora de sua paisagem. Esse saber é ratificado, agora pelo viés humorístico, com medicina alternativa que domina o capiau, naquele contexto moderno, civilizatório, em que os avanços tecnológicos causam

espantos nos cidatinos. Desse modo, é dito aos da cidade que o camponês já sabia das descobertas do mundo moderno, como o fato de que carne quente pega. O causo confirma uma faceta sábia do caipira, opondo-se ao discurso de Lobato que o vê como ignorante. Novamente, as palavras de Leite (op. cit.:123), que tratam-se de teses cornelianas sobre o caipira, identificadas pela autora em estudo de Conversas ao pé do fogo, confirmam a imagem construída pelo sujeito enunciador:

O caipira não se reduz à figura do Jeca Tatu; o caipira detém um tipo de saber que é diferente, mas pode e deve ser valorizado; a vida no campo tem encantos que o cidatino desconhece, e perde com isso.

Neste sentido, o causo 3 acaba servindo como argumento de exemplificação para a tese de Cornélio Pires, identificada por Leite em outra obra. O “caipira sapiens” aqui sugerido é também perceptível pelo tom de certeza e didatismo do caipira em tratar de nomear a natureza, ele fala num tom de biólogo que tem catalogada cada espécie do cosmos caipira. Pelo tom de sabido, é que Bentinho interrompe o “cidadão” no momento em que este fala do sucesso das cirurgias plásticas.

Já o causo 15 vai de encontro ao ethos de homem despolitizado, acocorado ante o 15 de novembro que encenou Monteiro Lobato. No último causo aqui analisado nos é mostrado um caipira que se omite da política por não acreditar no sistema de governo, preferindo a monarquia ou uma reformulação do sistema vigente. É uma justificativa à passividade atribuída pelo criador do Jeca. O seu tom é político, de mestre que fala por parábolas: Negocio de guverno, pra mim, é a merma coisa que criação de porco! Temos nesse causo um caipira que sabe argumentar e se nega a ser eleitor, rompendo com o posicionamento nacionalista do narrador que, acreditando poder contar com mais eleitores, poderia reerguer o brio e a vergonha política do Brasil.

perceber como o escritor de Tietê constrói o ethos caipira. Essa construção pode ser representada pelo seguinte diagrama:

Ethos efetivo do caipira

Ethos prévio Ethos discursivo

Estereótipos ligados ao mundo ético caipira

Desse modo, o ethos efetivo do caipira é construído pela ativação de estereótipos de um mundo ético, por meio de dois caminhos: um ethos prévio, ativado por uma prática intersemiótica (a caricatura da contra capa), uma corporalidade e indumentária socialmente partilhada; o outro caminho se dá pelo ethos discursivo que, pela análise das cenografias construídas, nos é mostrado, dito ou sugerido por uma imagem do caipira como um homem: resistente, sábio e com uma consciência política.

ethos dito ethos mostrado

- resistente; - sábio;

- com consciência política. Prática intersemiótica: caricatura,