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O questionário é uma lista de perguntas, organizadas ou não, com um objetivo, geralmente preenchidos pelos inquiridos sem a presença do pesquisador (MARCONI; LAKATOS, 2003). A vantagem do uso do questionário está na sua extensividade, ou seja, no seu potencial de permitir a coleta de dados de um número maior de sujeitos, em comparação com outras técnicas. Conforme Thiollent:

O questionário [...] contém uma lista de perguntas cuja temática corresponde, em princìpio, a uma ―tradução‖ das hipóteses de pesquisa sob forma interrogativa. Tal ―tradução‖ deve levar em conta o provável nìvel de informação dos entrevistados e

ser submetida a um rigoroso controle no decorrer da elaboração do q uestionário para evitar, ou pelo menos avaliar, as distorções que ela introduz (THIOLLENT, 1982, p. 32).

Nesse sentido, usamos questionários mistos, isto é, com questões abertas e questões fechadas. O ―grau de fechamento e ou de abertura das perguntas‖ teve relação com os nossos objetivos. Demos preferência a perguntas abertas ou livres para não ―predefinir as respostas‖ (TIOLLENT, 1982, p. 34-35). Esse instrumento foi aplicado aos alunos da LEdoC.

Os questionários foram aplicados em 2018 a 119 alunos do Curso de Licenciatura em Educação do Campo, de todos os blocos ativos, do III Bloco ao VI Bloco (78% do total de alunos ativos), conforme o modelo no Apêndice H. Aplicamos a todos os alunos presentes nos dias de aplicação. O nosso objetivo foi o de traçar um perfil dos alunos e saber quais seriam as necessidades formativas dos professores de Ciências da Natureza nas escolas do campo, do ponto de vista deles. O questionário permite-nos obter dados de uma quantidade maior de indivíduos (THIOLLENT, 1982). A escolha em aplicar o questionário para esses alunos se deu por vários motivos: (1) Por ―representatividade social (não estatìstica) das pessoas‖, ou seja, por serem oriundos da região, terem vivência no campo e em escolas do campo locais, representam bem as comunidades rurais da região49 (THIOLLENT, 1982, p. 34); (2) Por conhecerem os supostos teóricos da Educação do Campo (desde as disciplinas do I Bloco); (3) Por sua formação polivalente na área de Ciências da Natureza, que contempla os componentes curriculares de Física, Química e Biologia; (4) Pelo fato de muitos alunos50 terem tido experiência na docência ou ainda atuarem como professores (nas mais diversas áreas), coordenadores pedagógicos ou diretores nas escolas do campo da região.

A elaboração dos questionários foi feita à base de um ―estudo preliminar‖, através de entrevistas informais com alunos e professores e discussão sobre as questões com professores do curso LEdoC, para ―avaliar a adequação do questionário‖ e atestar ―sobre a clareza e compreensão do mesmo‖, conforme Hill e Hill (2008, p. 69, 82, 166). Esse estudo preliminar também envolveu a aplicação de um questionário-piloto, como pré-teste, a uma das turmas do curso, para validá-lo internamente antes de chegar à versão final (MARTINS; THEÓPHILO, 2007; MELO; BIANCHI, 2015).

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Nosso levantamento apurou as seguintes percentagens, por blocos, de alunos que ainda residem na zona rural: 56,4% do Bloco III; 47,8% do Bloco IV; 35,7% do Bloco V; 40% do Bloco VI e 28,6% do Bloco VII.

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Levantamos a porcentagem de alunos que trabalharam ou ainda trabalham como professor da educação básica: 12,5% dos alunos do III Bloco; 17,4% dos alunos do IV Bloco; 37,1% dos alunos do V Bloco; 66,6% dos alunos do VI Bloco e 77,3% dos alunos do VII Bloco.

A aplicação do questionário foi realizada por professores do curso a pedido do pesquisador, no período de aulas. Isso requereu urgência, visto que o tempo-universidade é de apenas 45 dias, depois do qual cada aluno geralmente volta para a sua comunidade, o que dificultaria a coleta desse instrumento de pesquisa. Como foram poucas questões, os alunos preecheram os questionários em 30 minutos, em média, não impactando muito na programação dos professores. Para esse grupo, os questionários foram aplicados no período de aulas, em que são intensos os estudos (oito horas de aula de segunda a sexta, por 45 dias) em torno dos diferentes conteúdos das Ciências da Natureza e assuntos pedagógicos, especialmente relacionados à Educação do Campo. Por conseguinte, entendemos que isso pôde ter interferido nas respostas dos alunos, como ―interferências ideológicas que se manifestam ao nível da obtenção dos dados‖ (THIOLLENT, 1982, p. 30).

4.2.2 Formulários

O formulário é um instrumento de coleta de dados que consiste em um conjunto de questões preenchido pelo próprio pesquisador à medida que observa ou recebe as respostas. Desse modo, ―o que caracteriza o formulário é o contato face a face entre pesquisador e informante e ser o roteiro de perguntas preenchido pelo entrevistador, no momento da entrevista‖ (MARCONI; LAKATOS, 2003, p. 212). Esse instrumento foi aplicado aos seguintes grupos:

a) Professores de Ciências da Natureza: Aplicamos o formulário a 11 professores de Ciências da Natureza de escolas da área rural (58% do total), porque são os protagonistas da nossa investigação, conforme o modelo no Apêndice B. Nossa meta era atingir todos os professores de Ciências da Natureza das escolas do campo da rede municipal, mas nem todos os professores tinham sido contratados para o período letivo de 2017 (havia escolas sem professores de Ciências da Natureza lotados). Outros não quiseram participar da pesquisa ou não compareceram nos dias agendados nas escolas. Incluímos os professores por entendermos que não poderíamos compreender as suas necessidades formativas sem a sua própria expressão, afinal, os desejos e dificuldades são deles e porque são os principais envolvidos na pesquisa, que trata das necessidades formativas deles (RODRIGUES; ESTEVES, 1993). Além disso, o acesso aos seus enunciados seria uma oportunidade de compreender a relação

dos mesmos com as ideologias hegemônicas e contra-hegemônicas que cercam o mundo rural e, assim, termos subsídios para reflexões e discussões em torno dos conceitos ideologia, manipulação e a relação destes com as necessidades formativas;

b) Diretores das escolas: Foi aplicado a 13 diretores de escolas da área rural (72% do total), conforme o modelo no Apêndice C. Não conseguimos encontrar todos e alguns não demonstraram interesse em participar. Incluimos esses sujeitos porque eles representam os interesses da instituição que contrata ou nomeia os professores de Ciências da Natureza (BRADSHAW, 1972; ZABALZA, 1997; ANTOLÍ; MUÑOZ; RODRIGUES, 2001). E saber o lado da instituição é importante na compreensão das necessidades formativas (RODRIGUES; ESTEVES, 1993). Eles deveriam saber o que a instituição exige dos professores aos seus cuidados. Ao mesmo tempo, boa parte deles também foram ou são professores, além de estarem mais próximos dos mesmos, talvez compreendendo melhor como as exigências institucionais, expressas em necessidades formativas, se chocam com a dura realidade do professor.

A aplicação dos formulários aos diretores escolares e professores de Ciências da Natureza da educação básica ocorreu durante a visitação que foi feita a 16 escolas do campo do município. Foi semelhante a entrevistas, em que os sujeitos eram inquiridos e suas respostas eram registradas, muitas vezes entre aspas para preservar a sua integridade. Além das respostas aos formulários, as intervenções deram oportunidade para o desenvolvimento de conversas informais e observações, cujo conteúdo era registrado em um Diário de Campo. Algumas questões que surgiram à medida que o questionário era respondido foram: Para você, o que é ser um educador do campo? Na sua opinião, qual a diferença entre o ensino de Ciências da Natureza ministrado na sua escola, na área rural, com o que é ministrado nas escolas municipais da cidade? Qual a sua ligação com a comunidade rural onde se localiza a escola em que trabalha? Qual a sua ligação com os movimentos sociais camponeses? Você desenvolve ou já desenvolveu algum projeto educativo ou social na comunidade rural da sua escola? Qual? Quando foi e o que realizou? Qual a diferença entre as escolas do município da área urbana e as da área rural? Do seu ponto de vista, estamos formando os alunos do campo com que objetivo? Dentre os componentes curriculares de Ciências da Natureza (Biologia, Física, Química, Geociências, Astronomia) que você ensina, há aquele(s) que considera

difícil? Por quê? Dada a relevância dessas respostas para a compreensão das necessidades formativas dos professores de Ciências da Natureza das escolas do campo municipais, consideramos indispensável registrá-las e um Diário de Campo e agregá-las à nossa investigação.

Tentamos gravar essas intervenções para caracterizá-las como entrevistas, mas as mesmas não foram autorizadas pela maioria dos sujeitos devido ao fato de ainda não haver um clima de confiança entre estes e o pesquisador e devido ao clima político local, que gerou um receio de que as respostas gravadas pudessem ser utilizadas para fins políticos, acarretando algum tipo de prejuízo profissional. Havia um clima de desconfiança e medo após uma forte disputa eleitoral no município. Assim, percebemos que a realização de entrevistas, gravadas, seria um trabalho ―espinhoso‖ para o momento, especialmente pelo fato de terem que ser realizadas nos locais de trabalho. No entanto, optamos por tomar notas no Diário de Campo e no formulário, ―tentando manter fidedignidade ao sentido conferido pelo interlocutor‖ (MINAYO, 2009, p. 69).

Soma-se às limitações já relatadas, o problema da ―horizontalidade‖, dificilmente conseguida com os professores e diretores escolares, pelo fato de saberem que o pesquisador era um professor universitário (SZYMANSKI, 2010, p. 13). Isso, por um lado, ―abriu as portas‖ para que ele fosse atendido por diretores e professores, mas, por outro lado, aumentou as chances de ―ocultamentos‖ e ―distorções‖ (SZYMANSKI, 2010, p. 13).

Dentre as dificuldades, a maior foi a de contactar os professores e diretores nas escolas. Não conhecíamos muitas das escolas espalhadas na área rural. O contato antecipado por telefone nem sempre foi possível. Foram muitas ―viagens‖ para algumas escolas, até estabelecer os contatos e agendar as visitações para realizarmos as observações e aplicarmos os formulários. Outra dificuldade é que, embora as conversas fossem individuais, foram realizadas no local e durante o horário de trabalho, o que pode ter interferido nas aguições dos professores.

4.2.3 Visitações

As visitações às comunidades rurais e escolas foram oportunidades de exercer a observação direta. Nesse sentido, a concepção de observação direta nessa pesquisa foi adotada de Yin (2001, p. 115) para quem as observações, nos contextos das visitas de campo, de

―alguns comportamentos ou condições ambientais relevantes‖ constituem ―fontes de evidências em estudos de caso‖. Segundo ele:

Incluem-se aqui observações de reuniões, atividades de passeio, trabalho de fábrica, salas de aula e outras atividades semelhantes. De uma maneira mais informal, podem-se realizar observações diretas ao longo da visita de campo, incluindo aquelas ocasiões durante as quais estão sendo coletadas outras evidências, como as evidências provenientes de entrevistas. Por exemplo, as condições físicas de um edifício ou de espaços de trabalho poderão revelar alguma coisa sobre o clima ou o empobrecimento de uma organização; da mesma forma, a localização ou os móveis do escritório de um respondente pode ser um bom indicador da posição do respondente dentro da organização. As provas observacionais são, em geral, úteis para fornecer informações adicionais sobre o tópico que está sendo estudado (YIN, 2001, p. 115).

No nosso caso, as observações diretas, das escolas e das comunidades rurais, foram feitas nos dias de visitações nas escolas no ano de 2017. Nesse aspecto, visitamos 16 escolas na área rural, cada qual pertencente a uma comunidade rural diferente, na maioria das vezes seguindo o itinerário e os agendamentos das entrevistas feitas com os diretores de escolas.

Procuramos, segundo um ―protocolo‖ ou roteiro aberto, conforme o Apêndice F, obter mais informações sobre as condições ambientais e de trabalho do professor de Ciências da Natureza, nas comunidades e escolas em que atuam (YIN, 2001, p. 115). Nesse sentido, procuramos observar tanto aspectos físicos, como culturais, sociais e econômicos. Isso foi importante, pois concebemos que algumas das necessidades formativas dos professores no campo são específicas ao contexto em que atuam e envolvem também condições não satisfeitas (D‘HAINAUT, 1979; GAIRÍN, 1992; NUÑEZ; RAMALHO, 2002; COSTA, 2004). Além disso, a nossa visão de totalidade concreta requereu esse conhecimento para termos condições de fazermos uma conexão dos dados teóricos e empíricos com essa realidade. Registramos as observações em um Diário de Campo e tiramos fotografias do que nos foi permitido, tanto das comunidades como das escolas (YIN, 2001, p. 116; MINAYO, 2009).

As observações diretas das escolas foram breves, pois ocorreram durante as visitas nas escolas, para as entrevistas, e durante o horário de trabalho dos diretores e professores. Algumas escolas foram visitadas mais de uma vez, para conseguirmos falar com mais de um sujeito ou porque na primeira visita não tinham sido encontrados os diretores e professores. Embora tenhamos aproveitado ao máximo a oportunidade para conhecer os diferentes espaços escolares e as condições do ambiente de trabalho dos professores, em algumas escolas essa abertura foi limitada por falta de tempo dos diretores ou por medidas de ocultamento, do que

poderia ser entendido como negligência ou falta da administração. Nas comunidades, a observação foi limitada, pois não foi possível fotografar e registrar todos os tipos de atividades laborativas e todas as riquezas naturais e culturais de cada lugar, o que exigiria uma observação por um tempo maior, talvez a observação participante em meio a um estudo do tipo etnográfico.

Assim, embora a observação, direta ou participante, tenha diversas vantagens, nos permitindo ver os fenômenos com nosso próprios olhos, há o limitante dos nosso próprios olhos, que não podem ver tudo, que estão enquadrados e que podem ficar mais presos aos fenômenos do que em tentar enxergar a essência do objeto estudado. Essa possibilidade aumenta com a observação direta, já que é mais limitada no tempo e no espaço, embora tenha a vantagem sobre a observação participante de sofrer menos o impacto do envolvimento pessoal e emocional do pesquisador (VIANNA, 2007). Além disso, os registros escritos e as fotografias serviram para confirmar os relatos das entrevistas e dos questionários, especialmente quanto às condições de trabalho dos professores e às dificuldades e possibilidades metodológicas e de interação com a comunidade.

4.2.4 Entrevistas

Entrevista é uma interação gravada, através da comunicação verbal, entre dois ou mais indivíduos, organizada em torno de determinada finalidade. Utilizamos entrevistas semiestruturadas, que combinam perguntas fechadas e abertas (MINAYO, 2009, p. 64).

A entrevista é uma técnica adequada para conseguir informações mais profundas de uma pessoa, como representações, sentimentos, expectativas, dificuldades, formas em que se manifestam as necessidades formativas (RODRIGUES; ESTEVES, 1993, p. 34). Ouvimos, os coordenadores educacionais do município, professores universitários da LEdoC e líderes de movimentos sociais, entre os anos de 2017 e 2018.

a) Coordenadores educacionais: Foram entrevistados três coordenadores educacionais, que atendem na Secretaria Municipal de Educação51, com o modelo de roteiro do Apêndice D. Como os diretores, eles representam os interesses da instituição, que também deve ser levado em conta no estudo das necessidades formativas docentes (BRADSHAW, 1972; ZABALZA, 1997; ANTOLÍ; MUÑOZ; RODRIGUES, 2001).

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No entanto, diferente dos diretores escolares, eles estão mais próximos da Administração Municipal, embora um deles seja também professor e o outro tenha uma experiência como funcionário do setor administrativo em uma escola do campo. Dois deles foram selecionados para a entrevista por atuarem como coordenadores gerais e o outro por ser coordenador da área de Ciências da Natureza.

b) Professores universitários da LEdoC: Elencamos seis professores do Curso de Licenciatura em Educação do Campo/Ciências da Natureza, pois o seu trabalho visa formar Educadores do Campo para o ensino de Ciências da Natureza. O curso agrega o objetivo de atender as necessidades formativas para o ensino de Ciências da Natureza e as necessidades formativas para a Educação do Campo. Além disso, os professores do curso, que funciona em regime de alternância, têm uma vivência, do Tempo Comunidade, junto às diversas comunidades rurais, compreendendo de uma forma peculiar as comunidades rurais da região e a realidade do professor de Ciências da Natureza nas escolas do campo e as suas necessidades formativas, dentro de cada área, em cada contexto escolar. Os seis professores (50% do quadro efetivo e ativo do curso), de diferentes áreas, foram escolhidos com base na disponibilidade e proporcionalmente ao número de professores da sua área. Assim foram entrevistados dois pedagogos (do total de cinco), dois biólogos (do total de cinco), um físico (do total de dois) e um químico (do total de dois). Portanto, as entrevistas foram feitas com o total de seis professores, com base no roteiro disponível no Apêndice E.

c) Líderes de movimentos sociais. Entrevistamos três representantes de movimentos sociais52 que têm imbricação com o trabalho docente municipal ou com a população campesina. Um dos sujeitos era presidente do sindicato dos servidores municipais locais. Os outros dois sujeitos eram representantes de movimentos campesinos. As entrevistas foram realizadas conforme o roteiro no Apêndice F. O interesse por saber as opiniões desses sujeitos tem relação com o interesse e o papel dos movimentos sociais na constituição da Educação do Campo (CALDART, 2012b).

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Decidimos não incluir o nome dos sindicatos para não possibilitar a identificação dos entrevistados, por motivos éticos, conforme o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, no Apêndice J.

As entrevistas seguiram as seguintes etapas: (1º) seleção dos indivíduos em harmonia com os objetivos da pesquisa; (2º) elaboração de um itinerário e o agendamento das entrevistas; (3º) realização das entrevistas com gravação em áudio; e (4º) transcrição ou retomada das notas de campo.

Entrevistamos primeiro dois coordenadores (o terceiro ainda não tinha sido nomeado) e, depois, os professores universitários da LEdoC. O outro coordenador foi entrevistado no final da pesquisa, conforme a sua disponibilidade. Por fim, foram entrevistados os representantes dos movimentos sociais.

Encontramos limitações no uso das entrevistas. Dentre as limitações, há a possibilidade de as falas dos sujeitos inquiridos serem ―condicionadas‖, conforme Thiollent (1982, p. 82). Elas, mesmo a partir de um grupo, podem refletir uma consciência coletiva alienada ou dominada, pelo entrevistador, pela instituição ou pela opinião pública. Afinal, a língua é o meio em que a ideologia se materializa e naturaliza determinadas formas de pensar (BAKHTIN; VOLOCHINOV, 1981).

Como não encontramos todos os professores no início de 2017, em que ainda estava em andamento os processos de nomeação, tentamos entrevista-los, mas a intervenção não foi possível. A justificativa dos professores procurados foi a de que tinham muitas preocupações e não tinham tempo para conceder a entrevista. Dessa forma, o nosso projeto de entrevistas individuais e semiestruturadas gravadas com professores de Ciências não foi possível de ser realizado.

Tentamos também agendar um encontro, com a mediação da Secretaria Municipal de Educação, com todos os professores de Ciências da Natureza de escolas do campo para socializarmos os resultados iniciais da pesquisa e fazermos uma entrevista coletiva, o que poderia ser caracterizado como um momento formativo. No entanto, não havia, segundo o coordenador que nos atendeu, agenda na ocasião para esse encontro.

4.2.5 Relatórios de Estágio

Relatórios de estágio são relatórios da disciplina Estágio Supervisionado II, de alunos do Curso de Licenciatura em Educação do Campo/Ciências da Natureza. Nessa disciplina e período, em que o pesquisador foi Professor Orientador e Coordenador de Estágio, 22 alunos fizeram o estágio de observação e de regência nas aulas de Ciências da Natureza no Ensino Fundamental II. Nesses relatórios, os licenciandos registram dados das escolas, dos

professores supervisores, bem como as suas inferências quanto ao observado nas aulas, através de um roteiro pré-estabelecido da disciplina, e quanto à sua experiência na regência.

Conseguimos 22 relatórios de estágio, da observação feita em 10 escolas do campo. Como o período de observação foi em média de 20 horas por estagiário, os relatórios somaram um período de observação total de 440 horas, além do tempo de regência, que não deixou de ser um período de observação dos alunos e das escolas.

Os relatórios de estágio nos permitiram obter dados sobre as aulas de Ciências da Natureza que dificilmente o pesquisador conseguiria sozinho, fazendo diretamente a observação, pelos seguintes motivos: (1) Foi seguido um roteiro pré-elaborado pelo pesquisador; (2) Os estagiários têm uma formação polivalente em Biologia, Física e Química, possuindo, no sétimo bloco, subsídios básicos para analisar como os professores de Ciências da Natureza trabalham e articulam esses diversos componentes curriculares; (3) Os estagiários tiveram aulas sobre o corpo teórico da Educação do Campo (desde os primeiros blocos do curso), dando-lhes condições de perceber as necessidades nessa área; (4) Os estagiários são nativos da região e diversos foram alunos ou membros das comunidades das escolas em que