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Como dissemos, diante do poliglotismo em que Flusser vivia imerso, traduções faziam parte da sua rotina e serviam de excelente instrumento para reforçar a força criadora da linguagem. Ao comparar uma língua com a outra, ele cria que conseguia demonstrar que cada uma delas é conformadora de realidades distintas.

Paulo Rónai, contemporâneo de Flusser, durante a sua experiência de exílio no Brasil, ao resenhar a obra desde último, Língua e Realidade, afirmara:

se cada língua é um mundo diferente e, ao mesmo tempo, o mundo inteiro, o problema da tradução e do poliglotismo reveste-se de importância descomunal. Antes que uma conversação, a tradução é uma comparação; mais do isso, uma ressurreição.134

134 Transcrição presente no prefácio do Livro Língua e Realidade, sem indicação detalhada

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Vilém Flusser em um pequeno, mas profundo, ensaio, propõe que se faça uma analogia entre as atividades da interpretação e da tradução135. Tal analogia funda-se nas semelhanças que tais fenômenos cultivam entre si e que merecem ser mais bem estudados neste item.

A primeira delas é o fato que ambas lidam com textos, produzidos por um sujeito identificável, ou não, que deles se serve para enviar uma mensagem para quem a eles tenha acesso. Por conseguinte, aqueles participam de um ato comunicacional.

Parte ele do pressuposto de que as traduções são possíveis, quando há uma semelhança entre as línguas; e necessárias, porque sem elas nosso conhecimento estaria por demais limitado, dada a nossa incapacidade de se comunicar em outras línguas.

Os sistemas lingüísticos, portanto interpretáveis, sejam científicos ou não, também contam com algum ponto coincidente entre si, nem que seja a sua natureza, o que tornaria, a princípio, toda interpretação, tal qual a tradução, possível e necessária, em certa medida, já que, tendo como objeto interpretativo um outro sistema, o trago para meu universo e passo a conhecê-lo.

Traduzir, para o senso comum, é passar de uma língua pra outra ou, em outras palavras, passar de um universo lingüístico para outro. Mas, o grande mistério que envolve esse fenômeno é justamente como esta passagem se consubstancia. Muitas foram as suposições lançadas por quem se esforçou em entender como se dá essa “transformação”:

A primeira delas é a de que existe um núcleo essencial em todas as línguas. Assim o tradutor teria que descobrir qual é a essência da língua a ser traduzida e compará-la com a essência da língua tradutora. Em outras palavras,

135 FLUSSER, Vilém. Para uma teoria da tradução. Revista Brasileira de Filosofia. v.

achava-se que a boa ou má tradução dependeria da apreensão do eidos da realidade a ser descrita.

Porém, bem sabemos que não há como se alcançar a essência das coisas, assim como que a realidade por nós captada é sempre lingüística. Ademais, esta só será conhecida depois que for traduzida. Isto é, se pretendemos nos aproximar dos hábitos ingleses, v.g., através de um texto que os relata, só após traduzi-los para o português é que teremos contato com a rotina narrada. Logo, essa idéia não tinha como vingar.

Outra corrente afirma que o importante é se alcançar o pensamento de quem produziu o texto a ser traduzido, ou melhor, o que ele pretendia dizer, pois só assim se conseguirá expressar, fidedignamente, o seu pensamento na língua do tradutor. Ocorre que a experiência mostra que só se conhece o pensamento de alguém depois que ele é externado, ou melhor, depois que ele é traduzido em palavras; assim, a ordem das coisas não pode ser aquela. Não se chega ao pensamento, para traduzi-lo. Só após verbalizado é que se pode traduzi-lo e, por conseguinte, alcançá-lo.

Transportando-se tais idéias para a Hermenêutica Jurídica, não há como não nos lembrarmos de duas teorias bastante divulgadas no séc. XIX e que muito se assemelham àquelas teses que tentam compreender como se dá o ato de traduzir. Trata-se daquelas que perseguiam a Volutas Legis e a Voluntas

Legislatore, ambas originárias das idéias de Savigny.136

Quanto à primeira, esse estudioso alemão falava que o intérprete deveria buscar o que a lei diz, demonstrando assim uma preocupação com o

136 O prof. Tércio nos ensina que Savigny construiu as suas idéias até 1814 no sentido da

teoria objetivista. Após este período, observa-se uma mudança de postura do citado pensador, passando, então, a se apresentar como subjetivista. (FERRAZ JÚNIOR, Tércio Sampaio. Introdução ao Estudo do Direito - Técnica, Decisão, Dominação. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1994, p. 265, 266).

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sentido literal da mesma. Isso porque entendia que a norma gozava de um sentido próprio, representante da objetividade/realidade em que estava inserida.

Num segundo momento, Savigny passa a entender que o sentido da lei é dado pelo legislador; assim, necessário seria, no seu sentir, para bem interpretar, compreender o pensamento do feitor da lei. Nascia, então, uma das longas pendengas da hermenêutica jurídica, objetivistas x subjetivistas.

Rebatendo as idéias subjetivistas, alegavam os objetivistas que o legislador não era uma pessoa identificável, e sua vontade então era inatingível. Sem falar que, formalmente, o que eles chamavam de vontade do legislador era mero cumprimento de uma competência legal, ou seja, o legislador ordenava, o que o sistema jurídico lhe determinasse.

Do outro lado, alegavam os subjetivistas, rebatendo aqueles, que não havia como escapar, para bem interpretar, de um retrospecto histórico, uma busca sobre as discussões preliminares, as circunstâncias em que a norma foi criada, esbarrando inevitavelmente não no sentido, mas no legislador original. Ademais, a vontade da lei seria, na verdade, a vontade que o intérprete quisesse dar à lei, sobrepondo-se esta à vontade do legislador, o que, para aqueles, era inadmissível.

Observa-se que ambas têm razão; os argumentos utilizados servem para desbancar as duas teorias, restando claro que, ao final, prevaleceria a vontade do intérprete. Por conseguinte, tal qual se deu no âmbito da tradução, nenhuma das duas teorias se presta a explicar o ato hermenêutico.

Para reforçar ainda mais essa semelhança entre os atos de traduzir e de interpretar, mormente sob o enfoque que demos aqui a este último, qual seja entendendo-o como construção de sentido e nos valendo para tanto da filosofia da linguagem, Jakobson afirma que, “Para o lingüista como para o usuário

comum das palavras, o significado de um signo lingüístico não é mais que sua tradução por um outro signo que lhe pode ser substituído […]”137

Em verdade, sabemos que uma tradução é possível, quando possível é a comparação de seus repertórios sígnicos. Portanto, precisamos conhecer bem ambas as línguas, caso contrário, não conseguiremos articulá-las.

Desse mesmo pensar é o autor acima mencionado:

Segundo Bertrand Russerl, ‘ninguém poderá compreender a palavra ‘queijo’ se não tiver um conhecimento não lingüístico do queijo’. Se entretanto, seguirmos o preceito fundamental do próprio Russerl e dermos ‘relêvo’ aos aspectos lingüísticos dos problemas filosóficos tradicionais’, seremos então obrigados a dizer que ninguém poderá compreender a palavra queijo se não conhecer o significado atribuído a esta palavra no código lexical do português.138

Rememorando a passagem da bomba e do sapato, utilizada por Flusser e por nós transcrita linhas atrás, o mesmo demonstra como se dá o fenômeno da tradução. Vejamos:

Como, graças à conversação e à possibilidade de tradução, posso apreender também o significado científico e alemão da bomba e do sapato, identifico, a posteriori, a minha bomba com a bomba do cientista, e digo, numa espécie de metafísica ingênua, que se trata do “mesmo” dado bruto.139

Fica claro, no exemplo, que só conhecemos ‘o sapato’ e ‘a bomba’ após a sua apresentação para nós através do discurso. Só então, também, podemos associar os objetos que foram por nós construídos, com aqueles que nos foram descritos pelo emissor da mensagem.

137 JAKOBSON, Roman. Lingüística e Comunicação. Trad. Isidoro Blikstein e José Paulo

Paes. São Paulo: Editora Cultrix, 1969, p. 64.

138 Ibid., p. 63.

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Ao colocar a expressão “mesmo” entre aspas, quando se refere à identidade entre os dados brutos por nós criados lingüisticamente, e os apresentados pelo cientista e pelo sapateiro, pensamos nós que Flusser queria chamar atenção para o fato de que aqueles não eram efetivamente os mesmos, já que, enquanto realidades lingüísticas, diferem de criador a criador. Por mais que o primeiro tente nos apresentar uma idéia fidedigna de um dado bruto, aquela apresentação estará sempre contaminada por percepções que são só suas e, por sua vez, a nossa idéia também estará viciada pelo nosso apriori, o que impede que sejam idênticos.

As línguas são, para Flusser, sistemas completos, ou seja, conjunto de palavras hierarquicamente organizadas e governadas por regras de combinação de palavras, mas não são sistemas fechados; semanticamente fechados, pensamos nós que ele quis dizer isso. Com isso, quer ele dizer que existe a possibilidade de conversação de um cosmos para o outro, isto é, é possível traduzi-las.

Porém, uma tradução não se faz possível, porque uma frase em português corresponde a outra de mesmo sentido, em inglês, por exemplo, mas, sim, porque as regras dos dois sistemas são parecidas, o que faz com que o lugar hierárquico da frase em português, e as regras que regem a sua formação, sejam semelhantes ao lugar hierárquico da frase em inglês e às suas respectivas regras formais, caso contrário a tradução não se perfectibilizaria.

É importante que se alerte que, por mais semelhantes que sejam as estruturas das línguas, as traduções serão sempre aproximadas, nunca serão capazes de revelar uma idêntica realidade, nem muito menos de dar uma exata noção de como a língua inglesa, verbi gratia, enxerga aquela situação, com a sua simples tradução para o português, por exemplo.

Essa é razão pela qual Flusser alerta: “É necessário, entretanto, conservar sempre presente a distorção que a tradução causa e retificar essa distorção na medida do possível.”140

Sensível a essa distorção é que Walter Benjamin, em seu ensaio A

tarefa do Tradutor, faz interessante analogia:

Do mesmo modo que uma tangente só toca ao de leve num único ponto da circunferência, e do mesmo modo que a lei geométrica apenas fixa e prevê êste contato mas não o ponto em que êle tem de se verificar, continuando a tangente depois disso o seu caminho reto em direção ao infinito, também a tradução toca apenas ao de leve o original e somente num ponto infinitamente pequeno do seu significado, para depois, de acôrdo com a lei da fidelidade na liberdade do movimento da língua, continuar o seu próprio caminho.141

Inúmeras demonstrações foram exibidas por Flusser ao longo de sua obra-prima, acerca das distorções causadas pela tradução, dentre as quais achamos interessante transcrever a que segue:

As línguas flexionais forçam-nos categoricamente a perceber o mundo das coisas como estando dividido em duas (ou três) categorias. Para o português temos, de um lado as coisas masculinas, como o homem, o pão e o sol, de outro lado as coisas femininas, como a mulher, a natureza e a lua. Em alemão o homem conserva seu lugar do masculino (der Mann) e a manteiga conserva seu lugar do lado feminino (die Butter). O sol e a lua invertem os lugares: Der Mond e Die Sonne. O pão e a mulher são relegados para uma terceira região neutra, porém certamente não assexual: Das Brot e das Weib.142

Demonstrações importantes acerca da alteração da realidade a partir da língua em que ela é narrada, o que reafirma o fato da linguagem construir a realidade e, em muitos casos, a incapacidade de um mundo ser fielmente

140 FLUSSER, 2004, p. 86.

141 BENJAMIN, Walter. A tarefa do tradutor. Revista Humboldt. Trad. Fernando Camacho.

Munique: Bruckmann, n. 40, p. 38-45, 1979, p. 42.

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descrito por uma língua que não é a sua, foram narradas também por Jakobson. Vejamos: “A superstição generalizada na Rússia, de que uma faca caída pressagia um convidado e um garfo caído, uma convidada, é determinada pelo gênero masculino de noz (faca) e pelo gênero feminino de vilka (garfo) em russo.”143 E adiante, assevera através das palavras de A. Vaillant: “O grego, traduzido para outra língua, nem sempre pode ser reproduzido de maneira idêntica, e é o que acontece com toda língua a ser traduzida.”144

Da mesma forma, como a interpretação também se dá entre línguas, tal atividade será tão exitosa, quanto for a semelhança existente entre as regras que compõem o sistema a ser interpretado e o sistema interpretando. Cada qual tem sua estrutura e suas regras. São sintaticamente fechados, já que seus ditames não servem para os outros, e semanticamente abertos, vez que comungam informações uns dos outros. Veremos no capítulo seguinte, como, ao nosso ver, tal comunicação deve ser dar, já que Flusser não nos oferece respostas para tanto.