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Mapa 05 – Aldeias Tapeba e Anacé na Região Metropolitana de Fortaleza.

. Fonte: FUNAI (2010).

A porção oeste da costa de Fortaleza, com terras interiorizadas a sudeste, perfaz o que Arruti (1987, p. 74) chamaria de ―caminhos da extinção e caminhos da emergência‖. Parte dessa porção da planície costeira cearense se notabilizou no passado por acolher aldeias tradicionais de grupos étnicos hoje extintos – Aconguaçu e Reriú, por exemplo – ou abrigou aldeamentos indígenas administrados por jesuítas; como é o caso da Aldeia de Nossa Senhora dos Prazeres de Caucaia, mantida pelos jesuítas entre 1741 e 1759, mas cuja origem remonta aos anos de 1607 e 1666 (Barretto Filho, 1994, p. 4). Também é na mesma região onde hoje ocorrem os principais movimentos de emergência étnica do Estado e onde são retraçados os ―caminhos da emergência indígena‖.

Do aldeamento de Nossa Senhora dos Prazeres teria surgido o município de Caucaia, onde a leste se localizam os Tapeba e a oeste, numa pequena região fronteiriça com o município de São Gonçalo do Amarante, localiza-se a vila indígena Anacé de Matões. As duas etnogênese ocorrem desse modo no interior de uma mesma municipalidade, embora os Anacé possuam parte das famílias residindo na vila de Bolso, que pertence a São Gonçalo do Amarante.

102 Em documentos históricos do período colonial, os Anacé são citados principalmente em cartas e certidões que registram o cotidiano da administração de aldeamentos indígenas44. Informações cedidas por moradores da região registram que os Anacé teriam residido onde hoje se localiza o perímetro urbano da sede municipal de São Gonçalo de Amarante, e que conflitos com os índios Jaguaruanas teriam causado a dispersão dos indivíduos para territórios mais distantes da beira-mar. É a partir dessa dispersão que registros da presença Anacé apontam a existência de indivíduos aldeados na vila Viçosa Real, uma das maiores ―vilas de índios‖ do Nordeste colonial (Maia, 2011). Em certidão que quantificava a população indígena da vila de Viçosa Real consta a existência de 632 tapuias residentes; etnônimo que se refere a indivíduos Anacé, Reriú e Aconguaçu45.

Diferente dos Anacé, sobre quem algumas fontes historiográficas fazem menção, Barretto Filho (1994, p. 4) aponta que ―inexiste na literatura etnológica e histórica, bem como nas fontes primárias compulsadas (...) qualquer referência a uma sociedade indígena assim denominada Tapeba‖. A hipótese aventada, inclusive por instituições de assistência a comunidades indígenas do Ceará, é a de que os Tapeba seriam o resultado de um processo lento de individuação étnica de elementos de quatro grupos indígenas originários e autóctones (Potiguara, Cariri, Jucá e Tremembé) que teriam sido reunidos sob a autoridade da administração colonial.

Quanto aos Anacé, a opinião dos ―agentes envolvidos na disputa em torno dos critérios de definição da identidade‖ (Barretto Filho, 1994, p. 5) que discordam da presença de indivíduos vivos da etnia na contemporaneidade não nega a existência pretérita do grupo indígena. De um modo geral, mesmo aqueles que falam contrariamente à presença Anacé na região concordam que eles teriam vivido nas proximidades da antiga vila de Anacetaba – hoje, São Gonçalo do Amarante – e na vila de Viçosa Real de Ibiapaba, como aborda o trabalho do historiador Lígio de Oliveira Maia (2011)46. Diferente do termo ―Anacé‖, que possui referentes historiográficos identificáveis, o etnônimo ―Tapeba‖ é uma ―identidade categórica‖, onde se forma ―um grupo distinto cujo reconhecimento se traduz pela atualização de uma dada atribuição‖ (Barretto Filho, 1994, p. 2), reforçando o fato de que a individuação de membros desse grupo não deve ser compreendida como baseada em fatores substantivos,

44 Por exemplo, certidão do número de índios na missão da Ibiapaba passada pelo padre João Brewer,

visitador das missões. 13/02/1756. Arquivo Histórico Ultramarino, Projeto Resgate, Capitania do Ceará (AHU – CE), cx. 6, doc. 416.

45 Idem.

46 A vila da qual teria surgido o município de São Gonçalo do Amarante era chamada de Anacetaba, em

103 pré-existentes ou originais, mas decorrentes de fatos situacionais e contextuais de um campo político inter-societário.

Ao concentra-se na descrição da distribuição populacional indígena pelo território, Barretto Filho (1994) aponta a dispersão das aldeias Tapeba, a grande variação dos ambientes biofísicos que ocorrem na região e as culturas extrativistas e sazonais agrícolas praticadas pelas famílias. Com essa descrição, procura frisar que não está tratando de um tipo tradicional de espacialização de aldeias indígenas onde os indivíduos possuem controle homogêneo sobre todos os recursos ao seu redor dentro de um território contínuo e isolado regionalmente. Ao comentar sobre a situação espacial e identitária que caracteriza a etnicidade Tapeba, o autor descreve-a como um "processamento paralelo, disperso e multilocalizado da identidade" (Marcus, 1991 apud Barretto Filho, 1994, p. 30), característica que também se aplica às condições históricas e espaciais da etnicidade Anacé.

Assim como ocorre entre os Tapeba, os Anacé possuem pelo menos quatro vilas indígenas: Bolso, Matões, Japoara e Santa Rosa. Essas vilas estão divididas entre a porção leste do território de Caucaia e a oeste do município de São Gonçalo do Amarante, afigurando-se como um território fronteiriço entre as duas municipalidades. As vilas distam entre 10 a 30 quilômetros umas das outras e, assim como as comunidades Tapeba, possuem recursos naturais diferenciados.

A localização das famílias Anacé dentro do território do CIPP ainda se cruza com todas as habitações das famílias não indígenas que residem dentro das vilas e as edificações das empresas que já fazem parte do Complexo. Essa forma dispersa das habitações indígenas é, sem dúvida, um elemento complexificador das relações entre indivíduos, da reivindicação tradicional pela terra e das ações governamentais de ocupação do CIPP. Isso se explica pelo compartilhamento de certas áreas entre grupos indígenas e não indígenas e, mais do que isso, pelos nexos familiares e laborais de longa data que os indivíduos dos dois grupos vivenciam. Assim, um trecho da vila que se reivindica Anacé é, ao mesmo tempo, habitado por um amigo ou ―compadre‖ cuja família não se denomina Anacé. Por esse motivo, a emergência Anacé no interior dessas vilas rurais e a conflitiva diferenciação entre indígenas e não indígenas acabaram gerando inúmeras disputas familiares, como rupturas de casamentos – em situações onde um dos cônjuges se dizia Anacé, enquanto a outra parte não –, contendas relacionadas ao posicionamento de cercas entre propriedade de famílias vizinhas que se tornaram inimigas depois da emergência indígena, entre outros casos. Um estudo atento a esses dados teria que analisar a recomposição das redes familiares (Bott, 1976) ocorridas após a etnogênese Anacé.

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