CHAPTER 10 CONCLUSION AND RECOMMENDATION
10.2 Recommendation
dizer que a escola funcionalista, dominante na antropologia britânica entre 1930 e 1970, assimilou idéias da Escola Racionalista Francesa e introduziu inovações importantes ao pensamento antropológico, em um movimento de distanciamento do Paradigma
Evolucionista do século XIX. Pode-se dizer que os teóricos evolucionistas estudaram a
evolução cultural dos grupos humanos por meio da comparação de diferentes sociedades, seus costumes, hábitos e fatos culturais. Teóricos como Sir James Frazer (1982), Morgan, e Tylor (1958), entre outros, estavam interessados em descobrir verdades fundamentais sobre o homem como um ser social. Eles acreditavam ser possível descrever as leis que regiam a cultura e seu processo de evolução. Anteriores ao advento da etnografia, podemos caracterizar os seus trabalhos pela centralidade da variável ‘tempo’ – o evolucionismo é um paradigma diacrônico – e pela adoção do método comparativo. Estes cientistas reuniam um grande número de fatos culturais de muitos grupos diferentes, e usaram estes fatos para comparar, ilustrar e teorizar a cultura. Morgan, Frazer e Tylor eram antropólogos que propunham a reconstrução em detalhes das seqüências da evolução cultural desde os primórdios da humanidade até a era industrial, de maneira que as sociedades pudessem ser comparadas em termos de seus costumes e manifestações culturais. Assim, os evolucionistas criaram grandes catálogos dos hábitos humanos, que eram então comparados com a intenção da teorização. Cada costume ou manifestação cultural era visto como uma ilustração crítica de um estágio específico no desenvolvimento da sociedade em foco.
Assim, as manifestações culturais eram analisadas em uma perspectiva diacrônica, como categorias de referência por meio das quais poderíamos determinar o estágio de evolução das sociedades comparadas. Considerava-se que cada manifestação cultural tinha uma origem e um fim, isto é, passava por um processo de desenvolvimento dotado de uma individualidade própria. Ao compararem as manifestações culturais, os evolucionistas consideravam que certas sociedades estavam em um estágio mais primitivo de evolução, enquanto outras estavam em estágios mais civilizados. A comparação feita por estes cientistas era baseada somente em uma linha temporal, isto é, havia somente um padrão de desenvolvimento cultural em direção a certos padrões sociais, neste caso, a cultura do observador. Os evolucionistas estavam convencidos de que as mudanças culturais nas sociedades eram regulares o suficiente para permitir a sua reconstrução teórica e, portanto, quaisquer informações perdidas sobre os estágios intermediários deste processo poderiam ser recuperadas por meio de uma análise lógica. Estes cientistas acreditavam que, se fosse coletado um número grande o suficiente de casos, eles poderiam identificar as regularidades do processo de evolução cultural. Com base
na idéia de que haveria somente ‘uma história’, isto é, todas as sociedades passariam pelas mesmas etapas históricas num processo linear de evolução, os evolucionistas classificavam as culturas em estágios mais simples a mais complexos, ou de estágios mais indiferenciados a etapas mais diferenciadas em termos de manifestações culturais.
Segundo a abordagem dos evolucionistas, o processo de evolução cultural seria caracterizado por sobrevivências. Este termo se refere às manifestações culturais que tiveram sua origem em certas condições causais em uma época específica, escaparam do poder transformador do tempo e podem ser encontradas em uma outra época, quando as suas condições causais originais não estão mais presentes. Por exemplo, a discussão travada nos anos 50 sobre o sistema sócio-econômico brasileiro tinha implícita a noção de ‘sobrevivência’. Cientistas sociais daquela época sugeriam que o sistema sócio-econômico brasileiro, principalmente no nordeste, tinha um caráter feudal, que seria reflexo de um passado português o qual nos cabia destruir. As sobrevivências são vistas como ‘apêndices’ do passado no presente, são
manifestações culturais ‘esquecidas no tempo’ sem nenhum papel social específico. A idéia de sobrevivências tinha um papel central no método comparativo usado pelos evolucionistas, já que a história das culturas poderia ser reconstruída com base na análise deste fenômeno (TYLOR, 1958; HARRIS, 1979; DAMATTA, 1987).
O trabalho dos funcionalistas ingleses assimilava uma crítica à idéia evolucionista das sobrevivências. De acordo com esta crítica, nada na sociedade pode ser considerado como desprovido de um papel, como se fosse uma característica passada esquecida no tempo. Funcionalistas propuseram que a sociedade fosse estudada como um todo, um sistema integrado de relações sociais, no qual as funções de práticas sociais pudessem ser entendidas em relação à totalidade. Cada manifestação cultural deve ser analisada em termos de sua função específica neste sistema, e nenhuma delas pode ser interpretada como errada ou irracional, como se fosse algo indesejado, de uma época passada. Assim, os funcionalistas mostraram que práticas sociais aparentemente irracionais escondem uma racionalidade, sua função no sistema. É o papel do antropólogo captar esta racionalidade. No que diz respeito ao exemplo do sistema sócio-econômico brasileiro, a perspectiva funcionalista nos fez perceber que, na realidade, os traços feudais de nossas práticas sócio-econômicas deveriam ser
associados aos traços capitalistas que também caracterizavam nossa realidade, para
entendermos efetivamente o nosso sistema sócio-econômico. Tratava-se de reconhecer que nossa realidade socioeconômica opera de forma peculiar. Para compreendê-la, é necessário assumirmos os seus traços feudais e identificarmos suas funções.
De fato, as idéias da Escola Racionalista Francesa influenciaram muitos estudiosos e inspiraram abordagens diversas em uma antropologia crescente. Além do Estruturalismo francês, o pensamento de Durkheim também influenciou o funcionalismo. A obra de Durkheim já prenunciava diversas das idéias adotadas pelos funcionalistas. Giddens (1978) afirma que Durkheim é considerado a figura de maior influência no surgimento do
funcionalismo, especialmente no funcionalismo estrutural de Radcliffe-Brown. Fernandes (1959), por exemplo, nos mostra que a primeira formulação adequada do conceito de função, básico para a explicação funcionalista, está nas páginas das obras Divisão do trabalho
(DURKHEIM, 1947) e As regras do método sociológico (DURKHEIM, 1972). Em As regras, Durkheim defendia que qualquer explicação adequada de fenômenos sociais deveria combinar a análise causal com a análise funcional. A primeira trata de explicar a sucessão de fatos sociais. A segunda explica porque se mantêm as práticas sociais. Como pressuposto, toda prática social deveria ser analisada como parte de um contexto, um organismo social, e em interdependência com outras práticas. Assim, a análise funcional tem como objetivo explicar porque determinada prática social faz sentido no organismo social no qual se insere.
Durkheim fazia uma distinção importante entre intenções e funções. A função que
determinada prática social assume em uma dada sociedade pode ser diferente das intenções dos indivíduos que as praticam. Assim, a análise social deveria transcender os propósitos dos indivíduos e buscar identificar as funções das práticas sociais.
Captar objetivamente a racionalidade da sociedade por meio da identificação das funções de suas manifestações culturais era um objetivo que requeria novas visões a respeito da
construção do conhecimento antropológico, em um movimento de distanciamento do referencial evolucionista, tido como excessivamente filosófico e fundamentado por dados pouco confiáveis. Os funcionalistas sugeriam que antropólogos de gerações anteriores não iam a fundo no que diz respeito a suas tentativas de compreenderem efetivamente os povos dos quais falavam. Assim, o trabalho dos funcionalistas britânicos deu à etnografia um novo papel no processo de construção do pensamento social. Considerando-se que o papel de cada manifestação cultural deveria ser apreendida no contexto da sociedade sendo analisada, a etnografia foi considerada fundamental à investigação antropológica. Mesmo considerando que na América do Norte Franz Boas já havia salientado a importância deste método, esta metodologia de pesquisa ganhou uma força extraordinária na Europa com Malinowski, que publicou em 1922 seu mais importante livro baseado na etnografia. A geração de Malinowski trouxe novas perspectivas à antropologia européia com a introdução do conceito de
comparação relativizadora, rompendo de maneira definitiva com as abordagens
evolucionistas que predominavam na época.
A adoção da comparação relativizadora implicou reconhecer que as manifestações culturais não deveriam ser classificadas em uma única linha temporal de evolução, conforme a
racionalidade do observador. Ao contrário, a atenção dos antropólogos era direcionada às inúmeras possibilidades de práticas sociais e à racionalidade que poderia ser encontrada em cada sistema sócio-cultural. Assim, a observação de como outros povos concebiam
alternativas para as questões sociais poderia enriquecer as percepções sobre nossa própria sociedade. Isso levava a um certo respeito à capacidade de invenção humana, a um tipo de humildade por meio da relativização das maneiras pelas quais os povos organizam a mesma dimensão da realidade humana. Com o advento da comparação relativizadora, o método da “antropologia de gabinete”, como foram apelidados os estudos antropológicos da escola evolucionista, deveria ser substituído pela observação direta e participativa, para que o pesquisador pudesse compreender em profundidade a maneira com que as pessoas organizam suas interações sociais. O funcionalismo também reforçou a noção já introduzida por
antropólogos franceses e americanos de que o conteúdo das categorias de análise deveria ter uma real correspondência com a realidade dos grupos estudados. Neste sentido, as categorias de análise, como religião, parentesco etc, deveriam ser construídas à medida que os dados sobre as interações sociais nos grupos fossem recolhidos. A escola funcionalista e a
popularização da etnografia, ao viabilizarem a aproximação entre o “nativo” e o pesquisador, permitiram a construção de um conhecimento mais profundo a respeito dos diferentes
sistemas culturais compartilhados dentro dos grupos humanos (DAMATTA, 1987). A adoção da comparação relativizadora era uma proposta de renovação na disciplina. Alinhada à tradição empiricista, a antropologia funcionalista deveria transformar a
experiência de seus pesquisadores em sabedoria através de um movimento de ida e de volta: a transformação do exótico em familiar e do familiar em exótico através da comparação
relativizadora. Deveríamos reconhecer que aquilo que era anteriormente considerado ‘traços irracionais’ é, na verdade, uma resposta lógica a questões sociais conhecidas em nossos próprios sistemas culturais (do exótico ao familiar); de maneira análoga, o que era concebido como um padrão racional de comportamento pode ser interpretado como uma resposta possível às questões sociais (do familiar ao exótico). A noção de que os diferentes povos concebem alternativas diferentes para uma mesma questão social poderia enriquecer nossa visão sobre o universo social. De acordo com esta perspectiva, o papel da teoria seria o de
encontrar maneiras de se comparar culturas. Esta comparação, entretanto, não assumia uma linha temporal como critério para se classificar cada cultura em dado estágio de evolução. Diferentemente, os funcionalistas abandonaram a variável ‘tempo’ de suas análises. O relatório de pesquisa de campo poderia ser comparado a uma fotografia instantânea de certa cultura. A comparação deveria acontecer entre manifestações culturais em termos de suas funções. Através da comparação e do contraste, nossas respostas culturais poderiam ser mais bem compreendidas, o que redirecionava a atenção do antropólogo: da busca de verdades fundamentais sobre a humanidade para a atribuição de sentido à diversidade humana (DAMATTA, 1987).
DaMatta (1987) exemplifica muito bem esta nova maneira de se pensar as sociedades. Ao analisar o sistema de trocas das ilhas Trobriand, chamado kula, Malinowski mostra como práticas sociais de um grupo dito ‘primitivo’ pode ajudar-nos a compreender melhor nossas próprias manifestações culturais. Neste contexto, as populações trocavam braceletes e colares por meio de cerimoniais e grandes expedições comerciais ritualizadas entre as ilhas. Estas jóias, entretanto, eram ou muito pequenas para serem usadas por pessoas adultas, ou eram tão grandes ou tinham tanto valor que seu uso era banido, exceto em dias de festividades que reuniam os diversos grupos. Mas então qual era a finalidade deste sistema de trocas complexo? Malinowski responde esta questão virando-se para sua própria sociedade, analisando manifestações culturais por ele conhecidas. Em uma excursão ao castelo de Edimburgo, ele percebeu a analogia entre o sistema do kula e as jóias da coroa britânica. Em Edimburgo, Malinowski ouviu histórias que associavam cada jóia a seu uso e circunstância histórica, o que dava a cada peça um significado cultural. A comparação relativizadora, desta forma, permitiu que pensássemos o significado social destas práticas numa e noutra cultural. Assim, Malinowski pode pensar estas práticas adotando o conceito de valor como referência: tanto nas ilhas Trobriand como na Grã-Bretanha, o valor de jóias pesadas ou incômodas demais para serem efetivamente usadas deveria ser entendido pela posse em si. O valor destas jóias reside exatamente na glória associada a quem as possui. A associação destas jóias a determinados momentos e circunstâncias históricas faz com que sejam consideradas grandes preciosidades, capazes de diferenciar quem as possui. Assim, Malinowski rompe com os evolucionistas ao indicar o eixo que deveria ser utilizado para a comparação das
manifestações culturais. Estas não deveriam ser comparadas em uma linha temporal de evolução, o que provavelmente teria feito com que o kula fosse considerado um sistema de trocas que desconhece o valor real dos objetos trocados e, portanto, atrasado na linha de
evolução da humanidade. Ao contrário, a análise antropológica deveria abster-se da
temporalidade e adotar a sincronia, uma perspectiva capaz de dar novos sentidos à diversidade de práticas sociais.
Assim, podemos resumir a proposta funcionalista em quatro características: (1) os sistemas sociais não têm sobrevivências, em termos evolucionários, pois cada manifestação cultural tem uma função. Ao invés de fósseis culturais sem valor prático, práticas sociais se readaptam a novos contextos, assumindo novas funções. (2) Manifestações culturais têm significados, definidos em termos de funções, mesmo que muitas vezes estas funções não sejam fáceis de se compreender. O funcionalismo dá outro sentido à idéia de ‘racionalidade’ ao mostrar que práticas sociais podem ser inteligíveis e coerentes apesar de sua aparente
incompreensibilidade. Construir a racionalidade dos fenômenos sociais por meio da busca de suas funções é papel do antropólogo. (3) A função de uma manifestação cultural deve ser entendida nos termos da sociedade específica que está sendo estudada. A análise de uma prática social deve assumir o pressuposto de que o seu significado depende da sua relação com outros elementos do sistema cultural, e deve ser apreendido por meio de análises etnográficas minuciosas que levem em conta a totalidade do ‘organismo social’. (4) As sociedades devem preencher certos requisitos funcionais, ou satisfazer certas necessidades para sobreviverem. Assim, manifestações culturais devem atender a estes requisitos para que se considere a sociedade ‘saudável’ (DAMATTA, 1987, BAERT, 1998).
O funcionalismo é uma escola de pensamento social com longa tradição. Na realidade,
iniciou-se na Inglaterra, mas posteriormente cientistas de outros centros acadêmicos adotaram suas premissas. Entre seus primeiros mestres, destacam-se Malinowski, cuja influência foi máxima na década de 30, e Radcliffe-Brown, na década de 40. A análise dos trabalhos destes cientistas nos permite identificar algumas idéias que caracterizam o chamado primeiro
funcionalismo. Ambas as abordagens eram baseadas na idéia de que a sociedade é um sistema
integrado de práticas e relações sociais. Suas análises eram sincrônicas, a variável “tempo” era retirada da análise cultural também como uma forma de garantir a objetividade do
conhecimento e evitar especulações sobre a história (SCHWARCZ, 2001; OLIVEIRA, 1988). Os primeiros funcionalistas sugeriam que as fontes de informações utilizadas pelos
evolucionistas e por outros cientistas sociais não eram confiáveis. Ao estudar a cultura, entendida em termos de sociedade, os primeiros funcionalistas concentravam-se na análise de instituições, por exemplo, sistemas políticos e econômicos ou sistemas de classificação. A identificação de sistemas de parentesco e linhagens tornou-se crucial ao entendimento das
sociedades tribais não-ocidentais. Em termos de diferenças entre as abordagens dos primeiros funcionalistas, é possível dizer que Malinowski explica a cultura assimilando perspectivas psicológicas e biológicas. A cultura seria uma ferramenta para satisfazer as necessidades básicas do ser humano. Diferentemente, as teorias de Radcliffe-Brown assumem uma perspectiva estritamente sociológica ao enfatizarem a relevância de entendermos a estrutura social. Seu referencial teórico foi denominado funcionalismo estrutural.
A abordagem de Malinowski pode ser caracterizada por assimilar dimensões biológicas e psicológicas às suas explicações, em um movimento de distanciamento das idéias de
Durkheim sobre a primazia do social para a explicação do social. Suas idéias sobre a cultura, reunidas em seu livro póstumo Uma teoria científica da cultura (MALINOWSKI, 1970), podem ser resumidas à noção de que esta seria uma ferramenta que permite a adaptação dos homens ao ambiente, isto é, a cultura seria uma extensão da autonomia humana. Neste sentido, a cultura é vista como um meio construído pelo homem para satisfazer suas
necessidades. Assim, uma prática social cumpre uma função ao permitir a satisfação de uma necessidade humana. Malinowski formulou a teoria de necessidades universais, que é tida como a ferramenta para a comparação relativista. Pode-se identificar três níveis de
necessidades humanas. O primeiro nível é formado pelas necessidades básicas, como a alimentação e a satisfação sexual, essenciais para a sobrevivência humana. O segundo nível é formado pelas necessidades sociais, como a solidariedade e a cooperação. As necessidades do segundo nível devem ser satisfeitas para que os homens possam satisfazer mais efetivamente as necessidades básicas, do primeiro nível. No terceiro nível, encontram-se as necessidades
integradoras, que garantem a transmissão, de uma geração à próxima, dos padrões de
comportamento necessários à satisfação das necessidades sociais. Em contraste com os
animais, os seres humanos não possuem o aparato anatômico para satisfazer suas necessidades básicas sem o auxílio da cultura. Em compensação, podemos transferir para nossas próximas gerações as habilidades sociais necessárias para a satisfação de nossas necessidades básicas, aumentando consideravelmente nossa capacidade de sobrevivência. Se tivéssemos que reinventar a cultura a cada geração, sobreviver seria bem mais difícil.
Enquanto Malinowski associava a cultura à necessidade de satisfação dos impulsos
biológicos, Radcliffe-Brown assumia as idéias de Durkheim sobre a primazia do social para a explicação do social ao defender que a sociedade tinha sua própria complexidade e dinâmica, que não poderiam ser explicadas por meio de referências a mecanismos ou necessidades que operariam em uma outra dimensão. Assim, ao tratar dos habitantes das ilhas Andaman,
Radcliffe-Brown defendia que a manutenção de sua sociedade dependia da existência de certos sentimentos nas mentes dos andamanenses. Isso seria uma explicação psicológica se Radcliffe-Brown não tivesse mostrado que estes sentimentos eram reforçados, mantidos e transmitidos por meio de ritos e mitos, estes sim, fenômenos sociais. Assim, a sociedade não poderia ser explicada por meio de um agregado de fenômenos psicológicos, como outros cientistas sociais da época faziam; da mesma forma, as explicações biológicas não eram apropriadas. A teoria do funcionalismo estrutural foi formulada por Radcliffe-Brown; porém, entre as análises empíricas clássicas deste gênero destacam-se os trabalhos de Evans-
Pritchard, especialmente sua monografia sobre Os Nuer (EVANS-PRITCHARD, 1978). Com base na idéia de que não é possível analisar categorias culturais fora de seu contexto, os primeiros funcionalistas propõem os conceitos de totalidade, função e integração, que são básicos para esta perspectiva. A totalidade deve ser a meta para o pesquisador funcionalista. O caos aparente encontrado ao se entrar em contato com o campo de estudos deve ser organizado, e o pesquisador deve reintegrar os vários elementos nos quais o comportamento social pode ser dividido (DURHAM, 1978). A idéia de que a cultura ou a sociedade só podem ser realmente entendidos como um sistema implica a importância dos conceitos de integração e função. Apesar de sugerirem que a vida social possa ser entendida através de realidades parciais, os primeiros funcionalistas assumem que a abstração parcial da realidade social leva à incapacidade de se compreender o todo e, portanto, à uma visão inapropriada da sociedade. Neste sentido, o antropólogo deve buscar constantemente a interação entre a instituição ou