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2.4 Phage experiments

2.4.4 Recombination experiment

2.4.4.3 Recombination

Com relação ao chat com convidados (anexo II, pp.164-166), em que ocorre o debate com o Dr. Roger Abdelmassih, a instauração da polêmica já se evidencia na declaração do entrevistado destacada no início do texto, conforme exemplo da página 164, linhas 1 e 2:

Dr. Roger Abdelmassih 4.03.05

"Embrião não é vida, são células vivas."

O enunciado expressa uma idéia própria do discurso científico em oposição à visão de mundo baseada na moral católico-cristã. Anuncia-se o embate de dois pontos de vista: ciência e religião. Tal confronto mostra-se no enunciado do primeiro locutor colocado em cena pelo mediador (p.164, linhas 26 a 31):

Pergunta: O senhor e favorável à esta lei que mata uma pessoa para servir outra?

Dr. Roger: Eu não sou favorável nunca para matar uma pessoa para servir outra. Mas

essa lei não mata, essa lei da a vida, essa lei vai ajudar as pessoas a ter uma viabilidade de vida e salvar vidas que não seriam salvas de outra maneira. E embrião não é vida, são células vivas. A maioria das ciências acredita que a vida começa quando o embrião gruda, há vida, no útero. Essa é a posição da organização mundial da Saúde.

O locutor dirige-se ao entrevistado valendo-se de um argumento pragmático que permite a apreciação de um tema “consoante suas conseqüências, presentes ou futuras”, estabelecendo uma relação de causa e efeito (Perelman; Olbrechts-Tyteca, 2002:303). Para esse locutor, a lei de Biossegurança, que avaliza a manipulação de embriões para fins terapêuticos, traz como conseqüência a morte de seres humanos. É uma voz representativa de uma moral não-científica: para ele, o encontro dos gametas masculino e feminino já pode ser classificado como vida humana. Em contrapartida, o convidado ancora-se em um argumento de autoridade para refutar a opinião de seu interlocutor ao assegurar que a Organização

Mundial de Saúde reconhece como pessoa somente embriões em desenvolvimento intrauterino.

O confronto de opiniões ainda se estende durante a conversação quando um dos internautas envia uma pergunta: “Porque a Igreja de modo geral não aceita as pesquisas com células-tronco?” (Anexo II, p.164, linha 40). Na verdade, a manipulação de embriões para fins terapêuticos encontra forte oposição da igreja em vista da própria concepção de origem da vida.

A definição do que é vida revela-se um conceito-chave que ampara toda a argumentação do entrevistado em defesa de sua tese pela liberação da manipulação de embriões. Assim, a adesão ao ponto de vista do entrevistado dependerá do entendimento que os internautas têm do termo vida. Confrontando-se as duas posições ideológicas em jogo, temos:

VIDA

Discurso científico Discurso religioso

- determinada pela fixação do embrião ao útero

- determinada pela primeira divisão celular

Dessa maneira, a argumentação do entrevistado só será considerada válida pelos participantes que partilharem do mesmo conjunto de crenças por ele defendido. Assim, a aceitação dos argumentos levantados pelo Dr. Roger Abdelmassih fica condicionada ao entendimento do conceito de vida. Se ambos, locutor e auditório, não entrarem em acordo a respeito do significado desse conceito, a argumentação do entrevistado é nula.

Por meio da afirmação de um conhecimento que se espera mutuamente acordado (o entendimento de vida), o convidado desenvolve sua argumentação. Vemos que seu primeiro movimento consiste em afirmar esse conhecimento (“embrião não é vida, são células vivas” – anexo II, p. 164, linha 2) para, no decorrer do debate, vincular esse conhecimento a tese que pretende defender (a manipulação de células-tronco para fins terapêuticos). Ao evocar a

Organização Mundial de Saúde com a intenção de corroborar seu entendimento do conceito de vida, o locutor-entrevistado se apóia em uma autoridade exterior para fazer com que os participantes aceitem sua opinião. É claro que a opinião proposta somente será aceita como verossímil, se esse mesmo auditório legitimar a autoridade evocada. Em caso positivo, existe o que Breton (1999) define como “efeito de comunidade”, ou seja, os interlocutores previamente partilham valores que permitem enquadrá-los em uma comunidade de pensamento e ação.

Ao longo do debate, o convidado procura alicerçar-se em estratégias que o fortaleçam perante os demais interlocutores. Nesse sentido, ele não só recorre aos argumentos de autoridade, como também apela, em certa medida, à razão ao colocar que os estudos com embriões favoreceriam a terapia de doenças como o Mal de Alzheimer (Anexo II, p.165, linha 52) e lesões do nervo lingual (Anexo II, p.165, linha 47).

Nesse ponto, o convidado recorre também ao argumento pragmático. Uma vez que a manipulação de embriões ajudaria o tratamento de diversas doenças, o entrevistado demonstra que, para apreciar a questão em foco, é necessário reportar-se a seus efeitos. Segundo Perelman; Olbrechts-Tyteca (2002), a principal característica da argumentação pragmática é estabelecer uma relação de causa e efeito.

Sem dúvida, tal argumento pragmático evidencia como o entrevistado, estrategicamente, constrói em seu discurso uma relação fato-conseqüência. Quer dizer, a terapia com células-tronco produz, como conseqüência, esperança de tratamento de algumas doenças e o benefício de tal conseqüência confere um valor positivo ao seu argumento dando força a seu discurso. Com essa atitude, também imprime a seu modo de dizer um valor46 humanitário.

46 Os valores exercem influência e intervêm em todas as argumentações. “Recorre-se a eles para motivar o

ouvinte a fazer certas escolhas em vez de outras e, sobretudo, para justificar estas, de modo que se tornem aceitáveis e aprovadas por outrem” (Perelman; Olbrechts-Tyteca, 2002:84).

Outra estratégia que confere força ao discurso do convidado é o fato de apelar para um valor de modernidade ao garantir que “nesta área específica de células-tronco, não devemos nada a nenhum país do mundo” e que “temos taxas de sucesso [em reprodução assistida] semelhantes aos melhores centros do mundo” (Anexo II, p. 166, linhas 98-99 e 99-100, respectivamente). Dessa maneira, aderir à tese defendida por ele é comungar com o pensamento de vanguarda, é ligar-se aos avanços científico-tecnológicos, é olhar à frente e para o futuro. Contrariamente, opor-se à sua tese é estar em descompasso com os melhores centros de pesquisa mundiais, é prender-se ao passado e à estagnação.

O caminho que o locutor-entrevistado percorre argumentativamente em busca da persuasão dos demais participantes pode ser assim esquematizado:

Pré-condição: afirmação de um conhecimento (conceito de vida) que se espera aceito por todos os envolvidos no processo interacional.

TESE

liberação da manipulação de células-tronco para fins terapêuticos ARGUMENTOS DE SUSTENTAÇÃO DA TESE - argumento de autoridade: recorrência à autoridade externa (OMS)

-argumento pragmático: a manipulação de embriões beneficiaria o tratamento de diversas doenças (relação fato-consequência) – apelo à razão.

VALORES MOBILIZADOS

- valor humanitário: ajuda a pessoas que sofrem de doenças crônicas ainda sem terapia - valor de modernidade: pesquisa de vanguarda ligada aos melhores centros do mundo

Quando observamos globalmente o debate no gênero chat, detectamos que a construção discursiva se alicerça no par adjacente pergunta-resposta. Isso se deve ao fato de esse recurso ser elemento básico da interação, pois, além de organizar localmente a conversação, controla o encadeamento de ações (Fávero; Andrade; Aquino, 1999:49). Por constituir-se, nesse caso, como introdutor do tópico em discussão, tal par adjacente revela-se estratégico na condução do processo discursivo. Essa mecânica de funcionamento nos permite dizer que a interação se organiza em pequenos dílogos.

O mediador conduz o processo por meio dos locutores que ele coloca em cena, quer dizer, o mediador orienta e direciona os tópicos conforme seleciona as perguntas dos múltiplos participantes. A partir dessa seleção, ele movimenta o debate.

Contudo, se a própria situação de debate é condição para a o surgimento do conflito, a dinâmica estabelecida pelo gênero chat com convidados tende a não favorecer o desenvolvimento da polêmica. A própria condição de assimetria do discurso (quem fala é o convidado) e a presença de múltiplos interlocutores selecionados por um mediador comprometem a ocorrência dos contra-argumentos.

O responsável pelo desenvolvimento do tópico é exclusivamente o entrevistado, portanto, o assunto discutido fica restrito ao seu ponto de vista. Qualquer voz dissonante não encontra espaço para rivalizar com a opinião do convidado, em razão da assimetria própria do gênero.

Por fim, a condição assimétrica, bem como, a impossibilidade de os internautas selecionarem outros parceiros durante a interação comprometem a profusão de pontos de vista típica de um debate.

No próximo item, observamos o movimento argumentativo na lista de discussão, por meio da análise de algumas estratégias argumentativas dos participantes.