3. CONTEXT
3.1 G AZA : RECENT HISTORY AND STATUS QUO
Santo André (SP), meados da década de 1980, estava em plena adolescência, cursava o magistério e, aos 14 anos, iniciei um namoro “em casa” com um rapaz de 17. Apaixonei-me de maneira devastadora; lembro-me como se fosse hoje. Os bailinhos na garagem, os flertes, as músicas lentas, o perfume, a dança bem agarradinha, que dava para sentir o coração bater, sem saber direito o dono, os cinemas no Centro da cidade, Tangará, Studio Center (hoje ocupados por igrejas evangélicas), os passeios de moto aos domingos. Tudo isto acabou em namoro sério, de
aliança de compromisso e tudo, apesar de minha mãe e meu pai acharem que era muito cedo para eu namorar daquele jeito e que eu deveria me preocupar com outras coisas.
Era um rapaz vizinho e as famílias se conheciam, moço trabalhador. E o tempo foi passando e fomos aprendendo juntos as descobertas do corpo e das práticas sexuais. Os locais da nossa intimidade variavam, um dia era na minha casa, no carro do meu pai na garagem, outro dia na casa dele, não perdíamos as chances nos momentos em que estávamos a sós. Minha família freqüentemente viajava para um sítio, e assim fui aprendendo a me virar sozinha. E a família dele não perdia a oportunidade de criticar minha mãe e meu pai: “vocês dão muita moleza, deixam a menina muito sozinha”, “vocês confiam demais nela”. Fruto daquela antiga idéia “segura suas cabras, pois meu bode está solto”, conhecem?
Ficamos noivos de aliança de ouro por nossa conta mesmo, fomos jantar só nós dois, tenho as fotos até hoje. Jurávamos amor eterno e casamento próximo, de véu e grinalda. Eu já estava com 15 anos e ele com 18. Lembro-me também com detalhes as expectativas dele em relação a mim, coisas que ele me dizia: “quando a gente casar, não precisaremos nunca de faxineira ou empregada doméstica, veja a minha mãe, ela faz tudo” ou “não precisará fazer faculdade, nem sei se irá trabalhar fora!”; “no clube? Nem com sua mãe”; “mini saia é horrível, pega mal”. Estas colocações me incomodavam muito, mas na época não sabia direito o que fazer com elas, achava que era assim mesmo, mas me incomodava.
A família dele comprou um terreno grande para ser dividido entre ele e o irmão; desmanchamos a casa velha, tijolo por tijolo, para construir naquele local duas casas novas. Um futuro bem promissor para quem achava que o casamento era a melhor empreitada na vida de uma moça.
Nesta mesma idade, aos 15 anos num domingo, a família dele viajou dizendo que voltaria somente no outro dia. Nós dois aproveitamos e fomos curtir música e namorar na residência dele. Começamos a trocar carinhos, toques, ficamos nus. Eu era virgem e já transava há um tempo com ele. Era curiosidade recheada pelo prazer da descoberta.
Para nosso azar o pai e a mãe dele resolveram voltar antes do prometido e, quando escutamos o barulho deles subindo as escadas, era tarde demais. Eu corri para o banheiro e carreguei parte de minhas roupas, somente a blusa e o sutiã. Ele correu para o quarto, carregou tudo e saiu completamente vestido.
Do banheiro eu ouvia as vozes da escada: “oi, você está aí?”; “estou mãe”; “está sozinho?”. Neste momento, ele correu até a sala e jogou almofadas por cima de minhas roupas que ali ficaram, tentando escondê-las. Ela percebeu e gritou: “o que é isto? O que vocês estão fazendo?”. E começou a gritar: “não acredito, o que estão fazendo? Que vergonha! Onde ela está? No banheiro? Abra a porta agora!”
Eu abri, com a minha blusa e sutiã, e a toalhinha de rosto do banheiro cobrindo minhas partes íntimas. Meu namorado foi até a sala, correu e jogou-me a calça e a calcinha; quando eu fui agachar para pegar, entrou em cena o pai dele que, num salto, pulou na frente e me arrancou grotescamente as roupas da minha mão. Neste percurso, a toalhinha de rosto caiu no chão e eu fiquei nua. Um flagrante inesquecível!
Aquela mulher, que seria minha futura sogra, continuava a gritar e, como se não bastasse, de posse de minhas roupas, pegou o telefone, ligou para minha casa, chamando minha mãe e meu pai: “estou ligando, pois preciso de vocês aqui, precisamos ter uma conversa”. Para minha sorte, minha mãe foi sozinha, tínhamos visita em casa e meu pai ficou “fazendo sala”.
Quando minha mãe chegou e viu todo o cenário: meu namorado chorando, eu no banheiro, de posse da toalhinha de rosto que me cobria, o pai dele com minhas roupas na mão e a mãe dele dizendo “veja o que sua filha foi capaz de fazer. Como agora ela terá coragem de entrar na igreja de vestido branco? Como vão se casar agora? Não disse que vocês davam muita moleza? Onde está o pai dela para ver a filha que tem?”.
Eu não chorava, só queria minhas roupas e tirar a minha mãe dali, daquela cena.
Depois da confusão, devolveram-me a roupa, meu namorado só chorava. Eu fechei a porta do banheiro, me vesti e fui para a casa com minha mãe. No caminho ela me disse, me lembro como se fosse hoje: “Veja, vamos chegar em casa e eu vou ter que contar o que aconteceu para seu pai, não vou segurar esta sozinha, eles humilharam a todos nós e seu pai precisa saber para vermos juntos o que iremos fazer a partir de agora”. Eu concordei calada.
Chegamos em casa e contamos tudo a ele; eu não chorava ainda, fui chorar somente dias depois. Meu pai chorou. Uma das raras vezes que vi meu pai chorando; ele me disse: “que pena que foram namorar na casa deles. Porque não ficaram aqui, pois se eu chegasse e visse vocês pelados, passaria em silêncio, esperaria vestirem as roupas e depois íamos conversar. Vamos amanhã ao médico, conversaremos com ele e depois iremos até a casa deles, eu e sua mãe, para
mostrar que você não é a mulher que eles disseram ser. Ainda acho que não deve reatar com ele”.
No outro dia fomos ao médico, o médico que me trouxe ao mundo. Contaram o ocorrido e queriam um exame para comprovar minha virgindade. Ali estava a prova para mostrar àquela família que eu não era nenhuma vagabunda: “o atestado de virgindade”.
O médico solicitou que meus pais se retirassem da sala para conversar a sós comigo. Meu pai e minha mãe saíram. Ele me examinou, conversou comigo de forma descontraída para me ver mais a vontade; perguntou se eu ainda era virgem, eu afirmei, ele conferiu e me disse sorrindo: “você sabe o que faz e fala, e mesmo se não fosse mais virgem, eu não falaria a seus pais, esta é uma questão sua e de mais ninguém. Eu o olhava bem aliviada, não esperava aquilo, mas de qualquer forma, me sentia bem, segura talvez.
O médico chamou meu pai e minha mãe e disse: “é normal o que ocorreu na fase dela e do namorado, o que não é normal foi a atitude da família do rapaz. Podem acreditar nela, ela é virgem, sabe o que faz e vejam, não darei papel algum que comprove isto. Penso, sim, que devem ir até a casa da família do rapaz para esclarecimentos sobre o quanto eles exageraram na dose quando fizeram tudo aquilo, mas vocês não têm que provar nada para ninguém. Eles, sim, precisam rever as suas condutas.”
Voltamos num outro clima, fomos orientados e acalmados por uma pessoa de confiança, um profissional competente, uma autoridade para nós, que fortaleceu nossos laços de cumplicidade, solidariedade e confiança. Só hoje percebo isto, embora no momento sentisse um alívio no peito.
Jantamos juntos em casa naquela noite, eu, meu pai, minha mãe e minha irmã. Estava convencida, como meus pais, que não deveria mais continuar o namoro, até porque, depois que eles estiveram na casa do rapaz para a tal conversa, a mãe e o pai dele fizeram questão de armar todo o “cenário do crime”: “quando chegamos na sala, aqui estava a almofada jogada, aqui estava a calça dela e calcinha ali”. Meus pais tentaram desconstruir a idéia de que tínhamos cometido um crime.
Fiquei um bom tempo longe do rapaz, que insistia em voltar o namoro. Com o passar do tempo comecei a sentir falta dele e voltamos; minha família me orientava que não. Teimei e, no fim, respeitaram minha decisão, voltamos. Mas nada mais era como antes, não superei a mágoa dos pais dele e aí as brigas eram muitas entre eu e o rapaz. Nessa época a construção da nossa
casa já estava quase terminada e eu já tinha comprado fogão de seis bocas, máquina de lavar roupa e geladeira, pois tinha terminado o magistério e já era uma professora aos 19 anos.
Olhei para aquela casa linda, com três quartos, suítes e até hidromassagem (ele ganhava bem, trabalhava numa empresa e era ferramenteiro). Olhei para minha vida e vi dois caminhos: casar-me, estabilizar-me economicamente e ter filhos, ou ir para a faculdade em busca da minha autonomia e liberdade. Sofri, me encorajei e escolhi a última, fui para a faculdade. Prestei vestibular, passei, terminei o namoro, vendi o fogão, a geladeira e a máquina de lavar roupa, comprei uma moto e fui para a faculdade.
Não pensem que isto é uma ficção!
E foi a partir da escuta atenta e silenciosa dessa dramatizada narrativa, que os (as) adolescentes participantes dos três grupos falaram por mais de duas horas sobre suas intimidades, experiências, desejos e pensamentos.