A memória é a faculdade épica por excelência. Não se pode perder, no deserto dos tempos, uma só gota da água irisada que, nômades, passamos do côncavo de uma para outra mão. A história deve reproduzir-se de geração em geração, gerar muitas outras, cujos fios se cruzem, prolongando o original, puxados por outros dedos.164
Quando ainda em projeto, a estrutura da investigação proposta pela presente pesquisa, acerca da preservação dos bens edificados por imigrantes japoneses, reconhecidos como patrimônio brasileiro, foi baseada na premissa das diferenças culturais entre o Oriente e o Ocidente.
As informações publicadas em textos teóricos e proferidas em conferências sobre a preservação do patrimônio japonês sugerem que, devido à impermanência dos materiais originais, nas obras de restauro, realizadas no Japão, prioriza-se o modo de fazer, em detrimento da matéria original. O que levaria à pratica de reconstrução dos monumentos, a cada período, previamente estabelecido. E, portanto, diferia enormemente da maneira ocidental de se salvaguardar um bem.
Entretanto, com a realização da revisão bibliográfica acerca do nacionalismo e movimentos migratórios que induziram a vinda dos imigrantes japoneses ao Brasil, foi revelado um ponto importante para se pensar as questões propostas no projeto inicial, referentes ao surgimento dos estados nacionais mundo afora. Nesse contexto, certos aspectos da cultura dos países, acabaram se diluindo. As “comunidades imaginadas” e almejadas passaram a ser regidas por princípios semelhantes, e com a criação de nações, surgiu o interesse pela criação de patrimônios nacionais.
Patrimônio como heranças que legitimavam a idéia de nação levou a práticas semelhantes em diversos países, como a implementação de uma política de estado, o que ocorreu tanto no Japão como no Brasil. Ambos utilizaram de certa forma, de mitos de origem para a construção
do patrimônio – o Japão com os objetos e os lugares sagrados que reiteravam a divindade do
imperador, e o Sphan no Brasil, que sacralizou o barroco e imprimiu nele, a gênese da arte brasileira. Ambos tiveram arquitetos modernos fazendo referências às “tradições” de seus países – Kenzo Tange, no Japão, reverenciou a arquitetura tradicional japonesa na produção de projetos e livros, assim como Lúcio Costa fez no Brasil. Ambos se inspiraram em modelos de
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nações ocidentais quanto à criação de leis para tornar o patrimônio autêntico. Ambos utilizaram as teorias européias de restauro como princípio norteador de preservação de seus patrimônios edificados.
Embora a constituição do patrimônio no Japão não tenha relação direta aos processos de tombamento da arquitetura dos imigrantes japoneses, que era o foco principal da pesquisa, julgou-se conveniente discorrer brevemente sobre a legislação e as práticas de preservação japonesas para reiterar seu sentido como instrumento relacionado às políticas de estado, tal e qual ocorrem no Brasil. E também para esclarecer que a desmontagem completa dos monumentos, seguida da total reconstrução não é usual no Japão. É um ritual, que hoje ocorre apenas no Grande Santuário de Ise, um dos lugares sagrados escolhidos pelo moderno governo japonês para representar a divindade do imperador. Não se trata, portanto, de um procedimento de restauro, como alguns estudiosos do mundo ocidental afirmam. Desmontagens e refeituras podem ser indicadas para a conservação do patrimônio arquitetônico japonês, mas todos os esforços são realizados no sentido de preservar e reutilizar os materiais originais.
Relação direta existe entre os nacionalismos, da Era Meiji e do Estado Novo, revelados como o fio que conduz ao objeto de estudo, os bens ligados à imigração japonesa, tombados pelo Iphan. Em uma das pontas, a Restauração Meiji e sua política de emigração que transportou milhares de japoneses para as terras brasileiras. E na outra, o Governo de Vargas, que criou as bases da política de preservação no Brasil e instituiu o Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, pôs em prática verdadeira perseguição aos inimigos de guerra, os “súditos do Eixo”, principalmente aos japoneses e seus descendentes que viviam no país. Logo, aos bens produzidos pelos imigrantes japoneses jamais foram concedidos o título de patrimônio nacional durante o primeiro momento do Sphan, a chamada “fase heróica”, na qual se construiu ícones dignos de valorização, como os exemplares do barroco mineiro e a arquitetura luso- brasileira.
O reconhecimento da arquitetura dos imigrantes japoneses como patrimônio nacional, só foi possível após mudanças ocorridas na sociedade e nas políticas públicas para a área da cultura. É neste ponto em que se inseriu a análise, através de discursos e práticas dentro da Sphan, e posteriomente no Iphan. Foi estudado o tombamento do Casarão do Chá165, dentro de um cenário de abertura das noções de patrimônio com a inclusão de novos referenciais estéticos e históricos, mas ainda recorrendo à concepção de valor excepcional do monumento, em consonância com o Decreto-Lei nº25 de 1937. E por fim, o processo de reconhecimento do
165 Segundo notícia publicada no Jornal São Paulo Shimbun em 04/12/2012, o bem encontrava-se em fase final de obras e a Associação de Preservação do Casarão do Chá, tinha o interesse em abri-lo ao público com a maior brevidade.
Disponível em: http://www.saopauloshimbun.com/site_br.php/conteudo/show/id/3014/menu/33/cat/115. Último acesso em: 01 de fevereiro de 2013, 19:06:00
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patrimônio no Vale do Ribeira, através de um método participativo, onde a comunidade pôde escolher os bens a serem tombados. A despeito da proposição de proteção dos bens, o vale foi tratado institucionalmente como “paisagem cultural”, a partir de uma abordagem contemporânea e sistêmica para as questões do patrimônio, com respeito aos ambientes naturais e construídos e às dimensões material e imaterial de todas as populações que vivem ou viveram na região.
Ao futuro, caberá avaliar o resultado da gestão territorial proposta para o Vale do Ribeira, após o distanciamento de tempo necessário. Ao presente, cabe reiterar a importância de políticas públicas efetivas, que visem ampliar o reconhecimento da memória dos diversos grupos e das várias etnias que formam a paisagem da nação brasileira.
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